Etiópia além dos clichês: itinerário de um país peculiar. Por Paulo Rogério Nunes

Eram aproximadamente sete horas da manhã, do horário ocidental, quando o vôo ET501 sobrevoava as colinas verdes dos arredores de Adis Abeba, na região central e montanhosa da Etiópia. O país, situado na zona mais oriental do continente africano, é o segundo mais populoso e o mais diferente entre todos. Foram treze horas na aeronave da Ethiopian Airlines, mas parecia ter sido menos. O atendimento a bordo faz jus à fama de que a empresa de aviação é a melhor do continente e uma das melhores do mundo.  Os 11 mil km de distância de Washington D.C para a capital etíope ficam suaves quando se tem um bom atendimento, com tripulantes vestidos de roupas tradicionais, e um som de bordo com o melhor do Ethio-Jazz, a versão etíope da música criada pelos afro-americanos.

A Etiópia é pioneira e excêntrica em muitas coisas, a começar pelo calendário e horário. Enquanto no resto do mundo o ano é 2012, na Etiópia tenho que modificar o calendário do meu celular para 2007. O país, até onde se sabe, é o único no planeta que não usa o sistema ocidental de contagem dos anos. Lá também a primeira hora do dia não é 1h da manhã, mas somente quando o sol aparece, dando mais um tom diferenciado à nação que ainda é uma grande incógnita para a maioria dos brasileiros, que só ouvem falar do continente africano quando acontece alguma tragédia ou golpe militar.

Já no aeroporto em Washington D.C., não consigo disfarçar meu deslumbramento em ver tantas cores, olhares e sons diferentes do que conhecemos no Brasil. São os etíopes voltando para sua terra para turismo, negócios ou simplesmente visitar um parente. Eu deveria estar acostumado com a mágica cultura dos etíopes. Morar um ano em Washington D.C. é mergulhar na cultura etíope mesmo sem querer.

A capital estadunidense é o local onde se concentram mais etíopes fora da Etiópia. Dados extraoficiais chegam a dizer que os etíopes e seus descendentes são mais de 100 mil pessoas nos arredores da capital, o que envolve partes do estado de Maryland e Virgínia. No centro da cidade há até uma rua denominada Little Ethiopia (Pequena Etiópia) que reúne vários restaurantes, cafés, clubes e mercados com produtos etíopes. Ao andar na rua, você se transporta para Adis Abeba, pois todas as fachadas estão escritas em Amaraico (não confundir com Aramaico), que é o idioma majoritário no país. Eles dominam também o sistema de táxi da cidade. Se você pegar um táxi e não for conduzido por um etíope, você não foi a Washington D.C. É como ir a Londres e não ver um indiano!!

Um lugar chamado Etiópia, por Paulo Rogério

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Are you habesha?!, essa foi a frase que mais ouvi no tempo que morei na capital dos EUA e eu já sabia que teria situações engraçadas para contar sobre isso quando fosse pela primeira vez à Etiópia. Explico o motivo: “Habesha” é um termo usado para se referir a uma pessoa de origem etíope ou eritreia. É, na verdade, uma forma sutil de conferir se a pessoa é da região sem cometer o erro de tentar adivinhar a sua etnia ou nacionalidade – o que pode gerar conflitos graves, afinal, são grupos que protagonizaram a maior guerra civil da história africana em todos os tempos, durando mais de três décadas, começando em 1961 até 1991, quando a Eritréia ganhou sua independência da Etiópia.

E por falar em identidade, esse fato não poderia negar: 99% das pessoas em Washington D.C. simplesmente assumiam a ideia de que eu era uma pessoa do leste africano. Se não fosse etíope/eritreu, pelo menos somali ou sudanês. Mesmo que eu não falasse uma palavra (e demonstrasse que não era estadunidense), não poderia ser confundido com um afroamericano por conta dos meus traços físicos.

Essa coincidência fenotípica, a propósito, quase causou um problema para esse que vos escreve, pois foi complicado explicar na imigração que eu era um brasileiro, morando nos EUA, que iria visitar a Etiópia por uma semana, mas que por um acaso tinha um rosto com as feições etíopes. “Quem da sua família é da Etiópia, seu pai ou sua mãe?”, pergunta desconfiado o oficial da imigração. “Ninguém, sou 100% brasileiro”, respondo com medo de ser obrigado a pegar o primeiro vôo Ethiopian Airlines de volta aos Estados Unidos. O oficial faz dupla checagem no computador, a tese mais provável é que eu estava com passaporte falso... ainda bem que tudo não passou de um susto.

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Uma nação diferente

A Etiópia é um país realmente especial. A nação de 80 milhões habitantes é um gigante africano em termos de cultura, história e tradição. A mais conhecida delas é o fato do país nunca ter sido colonizado, o que é uma memorável exceção em um contexto no qual, em 1885, o continente foi dividido estrategicamente entre as principais nações europeias da época.

“A Etiópia, não!!”, dizem com emoção os orgulhosos taxistas em Adis Abeba, ou em Washington D.C. “Expulsamos duas vezes os italianos e suas tropas”, contam felizes. A batalha de Adwa, que é uma ilustre desconhecida em nossos livros de história, foi um dos fatos mais importantes do século passado e uma concreta motivação para o fim da colonização e luta dos afro-americanos contra o racismo nos EUA. Na verdade, como ironiza uma piada local, a história da Etiópia pode ser explicada por dois fatores: a religião e a guerra. O que é irônico, pois trata-se de um povo bastante hospitaleiro, gentil e com aspecto físico frágil, por assim dizer. Mas, ao ler e conviver com o povo da Etiópia, pude perceber que o orgulho de sua história e identidade podem levá-los  de cidadãos calmos e ordeiros em verdadeiros guerreiros em pouco tempo. Das viagens que fiz, o único país no qual percebi tamanha sanha nacionalista foi a Sérvia, que, por ironia e coincidência, é também um país cristão ortodoxo cuja história é marcada por guerras (foi um sérvio que deu o estopim para a Primeira Guerra Mundial, ao matar o arquiduque do império austro-húngaro, por exemplo).

Passado e presente fazem parte da história de qualquer país do mundo, porém na Etiópia essa relação é ainda mais complexa e simbiótica. Chegar no Aeroporto Internacional Bole, em uma das regiões nobres de Adis Abeba, é conviver em dois mundos, um ocidental, que demonstra a recente abertura do país para o resto do mundo, e a forte influência oriental que faz questão de deixar claro ao visitante que o país possui seus valores e culturas tradicionais.

Na fila da imigração, as roupas típicas da igreja ortodoxa, burcas e hijabs islâmicos, as tatuagens nos pescoços dos Trigray pintam um belo quadro com cores, formas e olhares que já valeria a viagem. A vontade de sacar uma câmera fotográfica e registrar aqueles rostos é brutalmente reprimida pela consciência da minha prisão quase certa no contexto do país mais militarizado da África, governado por um regime “semi-ditatorial” e um alvo constante de extremistas. Tirar foto do palácio onde mora o primeiro-ministro é terminantemente proibido, escrever criticando o governo pode dar prisão. Blogs feitos por dissidentes na diáspora são bloqueados e até o mesmo Skype era proibido até pouco tempo. Segundo o relatório Press Freedom Index (Índice de Liberdade de Imprensa) da ONG Repórteres sem Fronteiras de 2012, a Etiópia está na posição 127 dos 171 países cadastrados. Dizem por lá, em forma jocosa, que na China os blogueiros estão no “paraíso” se comparado à repressão do regime no poder em Adis Abeba.

As peculiaridades da nação mais multicultural do Leste africano não terminam por aí. Experimente perguntar a qualquer caixa de supermercado na Etiópia sobre a sua a sua religião majoritária. O cristianismo na Etiópia é um dos mais antigos do mundo, precede a criação da própria igreja em Roma, e é conhecido como a Igreja Tehawedo, ou a milenar igreja Ortodoxa Etíope. Os ortodoxos fazem parte de uma corrente diferente da religião cristã que não tem nada a ver tanto com Católicos ou com Protestantes. A religião ortodoxa é mais comumente praticada na Grécia, Rússia, Síria, Ucrânia, Sérvia, Bulgária e outros países do Leste europeu, mas na Etiópia ela é precedente e tem fatores locais que a tornam ainda mais especial. Por exemplo, os etíopes afirmam que guardam na cidade de Axum a Arca da Aliança dada por Jeová a Moisés no monte Sinai, onde estariam os 10 mandamentos. A arca teria parado na Etiópia pelas mãos de Melelik I, filho do Rei Salomão e a Rainha de Sabá.

Os etíopes possuem motivos para cultivar tantas lendas e mistérios. Só no velho testamento são quase 50 citações ao povo que, segundo a história, teria dado ao mundo a bela Rainha de Sabá, ou, como é conhecida na Etiópia, Makeda, que se casou com o Rei Salomão. O livro Kebra Negast, que possui 700 anos, relata esse caso e explica que dessa relação surgiu o rei Melelik I, o primeiro imperador do país e que, a propósito, segundo os Rastafáris, é a linhagem que dá a sacralidade ao senhor Tafari Makonnen, ou Hailé Selassie I, que governou o país de 1930 a 1974

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Frio, café e política

Diferentemente do estereótipo que se tem sobre o continente africano, Adis Abeba é uma cidade fria durante o inverno. Não o frio da Cidade do Cabo, na África do Sul, que chega a nevar, mas aquele frio do inverno de São Paulo que exige um bom cachecol e um café quente. Por falar nisso, café não é apenas uma bebida na Etiópia, é uma verdadeira religião paralela e tem até ritual para se preparar e servir. Não poderia ser diferente, foram eles que descobriram/inventaram essa bebida que em terras brasileiras significou riqueza para muitos fazendeiros e fez da capital paulista uma locomotiva de desenvolvimento para imigrantes, como gostam de lembrar sempre.

Mas o fato é que, segundo a tradição, foi um pastor de cabras que, vendo o efeito da semente em seu rebanho, resolveu fazer o processo que é imitado até hoje na tradicional maneira de fazer café na Etiópia. Mesmo em lugares ditos elitizados, como o opulento Hotel Hilton, os visitantes podem, e devem, experimentar o café torrefado em brasa e servido em panela de barro, aJebena.

O café na Etiópia é também parte da política. O país visa patentear algumas sementes de cafés e requer o reconhecimento da sua propriedade intelectual. Em 2005 foi dado entrada no Escritório Americano de Patentes um pedido para registrar os cafés produzidos nas regiões de Yirgacheffe, Harrar e Sidamo. O objetivo é poder aumentar o poder de barganha nas negociações com empresas do porte da americana Starbucks, que compram por preços extremamente baixos o café produzido por trabalhadores rurais do país que vive basicamente da produção agrícola. Cerca de 15 milhões de etíopes dependem das plantações do café, segundo informações da BBC. A disputa vem e volta nos tribunais e negociações de acordos que vêm sido feitos, mas o irônico é que depois dessa briga com a Starbucks várias versões locais do café americano foram imitadas. As noites frias de Adis não são as mesmas sem esses cafés onde a juventude vai para conversar ou se aquecer para a balada. O mais conhecido é o Kaldi’s Café, que é uma homenagem ao inventor da bebida.

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Uma China Africana?

Um placa grande e laranja deixa claro que chegamos ao destino. “Kaleb Hotel”, exclama o sorridente motorista, que parece mais um baiano disfarçado de etíope. No caminho vamos conversando sobre futebol, é claro, afinal, depois da corrida (onde são imbatíveis) os etíopes são fanáticos pelo esporte imortalizado por Pelé. O hotel fica na zona nobre da cidade e é visível que o progresso vem chegando ao país que já foi considerado um dos mais pobres do mundo. Da frente do quinto andar do Kalebe avisto muitos prédios em construção, uma loja de Cup Cake e uma Apple Store, algo bem diferente do imaginário que minha mãe tinha da Etiópia até ver as minhas fotos no Facebook. “Mas meu filho, não é lá que tem aquelas crianças morrendo de fome?”

Lembro que, no bairro pobre onde nasci, quando uma pessoa comia muito perguntávamos “você veio da Etiópia, é?”, e começo a pensar na imagem que a mídia mostra dos africanos. Sempre coitados, famintos, em guerra, dignos de piedade. Porém, falando de pobreza, posso dizer, sem medo, que a que vi em Adis Abeba não é muito diferente daquela que vejo no Brasil em nossas favelas ou “comunidades”. Falta de esgotamento sanitário? Temos. Pessoas abaixo da linha da pobreza, também. Violência urbana? Temos muito mais que lá. É claro que no caso brasileiro o problema vem da desigualdade e na Etiópia pelo fato do país ter tido praticamente mais anos de guerras do que paz. Ou seja, sem guerras há centenas de anos, o Brasil deveria estar bem melhor do que é.

Mas, falando de imagem, é preciso notar que a diferença, como diz Chimamanda Adichie, é que conhecemos várias histórias sobre países ricos, sobre os estadunidenses, franceses, japoneses, mas apenas uma sobre os africanos: são “coitados e subdesenvolvidos”. A Etiópia, entretanto, tem outras histórias para serem divulgadas. Uma, por exemplo, é que o país é a economia africana, não dependente do petróleo, que mais cresce no continente, sendo chamada, inclusive, de “China Africana”, em virtude dos seus dois dígitos de crescimento em 2011, mesmo em meio a uma crise global que empurrou para baixo o crescimento econômico de países como EUA, Espanha e Grécia. A outra história, que não é contada pela mídia ocidental, é que a capital da Etiópia é também a capital política do continente, sede de importantes órgãos como sedes regionais de órgãos da ONU e da União Africana, a mais importante instituição africana que reúne os quase 60 países membros.

Parte II

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Pegar um táxi na Etiópia é uma experiência única. Seguindo as regras das grandes metrópoles de possuírem uma cor padrão dos carros (como em Nova Iorque, onde todos são amarelos, ou em Londres, pretos), em Addis Abeba, a capital do país, todos os táxis são da cor azul, e em sua maioria da empresa russa Lada. Ao que para um visitante desatento pode significar apenas uma curiosidade estética, tem uma razão política.

A Etiópia foi governada por um brutal regime comunista de 1974 até 1987, quando o Derg, a junta militar, gerenciou o maior e mais populoso país do leste africano, causando, segundo analistas, danos sentidos até hoje na população. A história começa com a derrubada do então imperador Haile Selassie I, (considerado um déspota, para uns, e a encarnação de Jesus, para os rastafáris) marcando o fim de uma monarquia milenar que, segundo a tradição, tem raízes em momentos históricos narrados na Bíblia.

Os etíopes possuem uma piada para descrever a Etiópia. “Quando não estamos em guerra, estamos planejando a próxima”. De fato, a história etíope sempre foi vinculada a disputas e conquistas militares. A maior delas: a resistência contra a ocupação italiana na época da colonização, entre 1895 a 1896. Mas nem todas as batalhas acabaram bem. A última, que durou 30 anos, e tentou impedir a separação da Eritreia, fez com que o país chegasse à base da pirâmide, sendo considerado um dos países mais pobres do mundo.

E por falar em guerra, há nomes que são como palavrões em qualquer lugar do país. Um dos principais, o ex-presidente Mengistu Haile Mariam, o militar que governou a Etiópia durante o regime comunista. Hoje exilado no Zimbábue, o ex-oficial deu um golpe nos amigos comunistas idealistas para implementar um dos mais brutais regimes sanguinários do continente. A prova da brutalidade de Mengistu é exemplificada no assassinato do imperador Selassie, ao qual ele teria asfixiado com um travesseiro. Fato negado por este.

O militar não tinha grandes chances de assumir o poder, mas o fez ao matar o vice-chairman do regime, Atnafu Abate, alegando ter colocado "os interesses da Etiópia acima dos interesses do socialismo" e que seu opositor, agora inimigo, havia feito ações "contra-revolucionárias". Veja o vídeo raro de encontro entre Muamar Kadafi e Mengistu em Adis Abeba:

http://www.youtube.com/watch?v=In4ZBuwqawU

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Poder e ditadura disfarçada

“O presidente está doente?”, pergunto de maneira capciosa para o taxista, enquanto tento, inutilmente, fechar o vidro do Lada azul que parece ter pelo menos três décadas de uso. “Eu não sei nada de política”, diz o jovem de aproximadamente 25 anos, com sorriso irônico. O tabu em se falar em qualquer coisa sobre o regime atual na Etiópia é algo inacreditável. Nada pode ser escrito ou falado que critique o sistema. Até tirar foto do palácio do presidente é crime.

Para derrotar o brutal regime de Mengistu, um jovem liderou uma guerrilha que chegou ao poder, implementou um sistema liberal, com apoio do Ocidente, fez reformas estruturais no país, garantiu direitos de minorias, mas foi considerado um dos mais repressivos contra seus dissidentes no mundo. Estou me referindo ao ex-primeiro ministro Meles Zenawi, que faleceu no último mês de agosto. Quando eu estava em Adis Abeba no mês de junho, ele ainda era o dirigente odiado. Hoje já faz parte da história.

Zenawi foi vítima de um câncer avassalador, e sua morte foi comemorada por muitos e lamentadas por outros tantos. Os primeiros ficaram felizes com o fim de um ditador que estava no poder desde 1991, por meio de eleições fraudulentas e muita repressão política contra grupos étnicos diferentes do seu, os Tygrais. Já os admiradores do político dizem que somente ele foi capaz de trazer a Etiópia para a rota de crescimento, fazendo com que o país alcançasse níveis de desenvolvimento econômico invejado por europeus. A realidade é que, na Etiópia, prosperidade e liberdade têm sido valores antagônicos por muito tempo. E não importa se orientação política é de esquerda ou liberal, o jogo político sempre significou morte. Aliás, essa é uma dinâmica padrão em todo Leste Africano, tendo um exemplo máximo a Somália, que depois de 20 anos sem governo elegeu no mês passado um presidente.



Rua de Addis Abeba. 
Foto: Paulo Rogério Nunes

 

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A curiosa música etíope


A voz estridente, levemente desafinada e repetiva, denuncia: em algum lugar próximo alguém está escutando uma música etíope. Se você nunca ouviu uma música tradicional, ou religiosa, de origem etíope, dificilmente conseguirá entender a sua métrica, sonoridade e excentricidade. E olha que esse que vos escreve tem familiaridade com música, digamos, diferente. Não que a música da Etiópia seja feia, pelo contrário. A rica música etíope fascina justamente por ser diferente do que nossos ouvidos acostumados com a música pasteurizada do ocidente imaginam. Tudo começa pela dança, uma paixão nacional como o samba é para os brasileiros. Lá na Etiópia, uma em especial faz sucesso, a Ekista:

http://www.youtube.com/watch?v=skYnrfopAjo&feature=related

A dança consiste em levantar os ombros para frente de maneira contínua. As mulheres, com olhar fixo, esbanjam sensualidade com os seus parceiros de movimentação de ombro. Ao primeiro olhar parece estranho, até ridículo, mas depois você vai se acostumando e percebendo que a diferença entre um etíope e um brasileiro é que nós gostamos de mexer os quadris e eles os ombros, na mesma proporção!

Teddy Afro é um cantor muito popular entre os etíopes, estejam eles em casa ou na diáspora, principalmente em Washington D.C. Corpo magro, estatura mediana, ele é a paixão das garotas, uma espécie de “Thiaguinho do Exaltasamba” de Addis Abeba.Teddy Afro é também a cara da moderna Etiópia, que aos poucos vai se abrindo para o mundo, e suas influências, após centenas de anos centrados em uma cultura endógena. Mas Afro é também um cantor muito politizado, diferente do citado brasileiro, e isso já lhe trouxe problemas. Uma das suas músicas, Tikur Costurar, é uma homenagem ao Rei Menelik II, cuja vitória sobre os italianos na batalha de Adwa em 1896 fez dele um orgulho da África. A letra da canção, que é escrita em amárico e Oromo Afan, é carregada de um tema que raramente é cantada por músicos etíopes.

O cantor foi acusado de uma tentativa de homicídio e foi preso por seis anos, em 2008. O tribunal de apelação reduziu sua pena para dois anos, em fevereiro de 2009. No entanto, Teddy Afro foi libertado da prisão oito meses mais cedo por conta de bom comportamento. Ativistas etíopes afirmam que sua prisão foi resultado da natureza política de sua música.

Há um cantor que representa uma outra geração e que é mais endeusado do que Roberto Carlos no Brasil, o já setentão Mahamoud Ahamed. Nascido no popular bairro Mercato no centro de Addis, Ahamed ganhou popularidade primeiro na diáspora, e depois em seu próprio país. Em 2007 ganhou o prêmio mundial de música da BBC. Seu sucesso Ere Mela Mela, gravado na épica coletânea Éthiopiques, faz até hoje sucesso entre admiradores do gênero world music.

Por último, e não menos importante, não se pode falar em música etíope sem citar Mulatu Astatke, conhecido como o pai do Ethio-jazz, a versão local de jazz americano. O ritmo mescla elementos da música latina e ficou conhecido mundialmente ao compor a trilha do filme Broken Flowers, do diretor Jim Jarmusch. A musicalidade de Mulatu é um pouco diferente dos outros de estilo de música etíope, é um pouco mais introspectiva e experimental. Mulatu esteve em São Paulo ano passado para realizar um show no SESC Vila Mariana e aparentemente lotou a casa no concorrido evento.

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Os dois lados da beleza etíope

Diz a lenda que Addis Abeba é a capital do mundo com mais modelos por metro quadrado. A beleza etíope pode não fazer parte do imaginário brasileiro, mas em muitas partes do mundo as mulheres etíopes são procuradas por empresas de publicidade por seu padrão estético e diversidade encontrada em poucos países do mundo.

Os etíopes, em geral, apesar de nunca terem sido colonizados, são negros, possuem uma cor de pele marrom, levemente avermelhada, e traços caucasianos, diferente dos africanos da costa ocidental, como Nigéria e Gana. Há uma grande discussão sobre a possível influência genética de outros grupos durante milhares de anos, mas os etíopes negam essa tese e afirmam que esse é o fenótipo deles desde sempre e que são negros originais. Populações com o mesmo biótipo podem ser encontradas em todo o leste africano, como na Somália, Sudão e até mesmo no Egito, com o grupo étnico Núbio, considerados os originais egípcios, que estariam no território antes da invasão árabe.

“As brasileiras são as únicas que podem competir com as mulheres etíopes”, afirma orgulhosamente um vendedor no centro da cidade, enquanto mexe nos vestidos tradicionais feitos de maneira artesanal no interior do país. Esse fator de orgulho local, infelizmente, causou um problema social, pois pelo histórico de guerra e pobreza a Etíopia se transformou em uma espécie de “Tailândia africana”, um local onde a prostituição tem proporções alarmantes. Afinal, no país a atividade é legal, mas, apesar disso, “bordéis” são ilegais.

A rota da prostituição é clara. São homens, em geral europeus, que viajam ao país apenas pelo turismo sexual e até muitas meninas são obrigadas a venderem seus corpos para garantir a sobrevivência. Muitas ONGs têm realizado esforços para resolver esse problema, mas em um país onde boa parte da população vive com U$20 por mês, um “programa” com esse valor garante o sustento de toda uma família. A prostituição na Etíopia é um problema difícil de ser resolvido.

Veja desfile de moda etíope:

http://www.youtube.com/watch?v=j48dDDLq07o

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Você já provou a injera?

Dizem que só se conhece uma cultura pelo garfo. Na Etiópia essa descoberta é bastante saborosa e encanta por suas principais características: é rica em vegetais, apimentada e come-se com a mão. Sim! Como a influência europeia foi mínima no país, até hoje o garfo e faca são acessórios desnecessários para a maioria dos etíopes. A injera, uma espécie de panqueca, é a massa base da alimentação e é servida com uma grande quantidade de molhos e condimentos, ao lado de peixe, carneiro ou outros animais. A comida etíope lembra muito a indiana, pela quantidade de condimentos, com a exceção de que a última consegue ser um pouco menos saborosa. E olhe que superar a culinária indiana é algo difícil! Veja esse vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=uf46zpm79CQ&feature=related

Nas ruas de Addis o cheio da injera e café não deixam o visitante vacilar sobre a necessidade de se provar a rica culinária local. A mesma coisa acontece em Washington D.C. Assim como a capital inglesa cheira ao curry indiano, a americana tem um restaurante etíope a quase cada esquina.

Diferente dos estereótipos propagado pela mídia Ocidental, a Etiópia é um país que encanta e faz com que o visitante queria sempre voltar. Os mais de 80 grupos étnicos, a diversidade de religiões e a gentileza de seu povo cativa a cada descoberta. Quiçá esse país que já passou por tanto problema social possa finalmente encontrar sua rota de prosperidade, democracia e liberdade. Aos brasileiros basta agora aproveitar o futuro vôo São Paulo-Adis Abeba, a ser inagurado ainda em 2012, para conhecer essa envolvente capital de um país que tem muito a ensinar ao mundo.

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Veja mais fotos da viagem clicando aqui.
 

 

Paulo Rogério Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Católica do Salvador e Especialista em Política e Estratégia pela Universidade do Estado da Bahia. Estudou Jornalismo e Novas Mídias na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, em um programa da Fulbright. Além disso, é um empreendedor social da Ashoka. É diretor executivo do Instituto Mídia Étnica e co-editor do Portal Correio Nagô

 

 

Publicado originalmente no site Balaio de Notícias

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Comentário de Inaiá Boa Morte Santos em 19 novembro 2012 às 14:21

Fantastico o universo desse país

Comentário de Nelza Jaqueline Siqueira Franco em 12 outubro 2012 às 8:12

Muito obrigada por compartilhar estas informações e tua vivência. Não tinha noção de nada disso que tu informou! Que o café por nós tão apreciado tinha sido inventado neste país e que o cristianismo precede o da igreja de Roma, além dos dados de crescimento deste país africano. Fiz até um resumo deste teu post e vou publicar em outras redes sociais, pois merece visibilidade. Adorei!

Comentário de Heron Cordeiro em 11 outubro 2012 às 2:58

Grande Paulo,

Muito obrigado por compartilhar essas lembranças e impressões.  Uma análise lúcida e prazerosa do universo desse país lindo. Também gostei de saber do futuro voo de Sp para Adis em 2012.

Um forte abraço,

Heron Cordeiro

Comentário de Maria Isabel (Isa) Soares em 10 outubro 2012 às 22:14

Excelente exposiçäo! Verdadeira aula de história no maior sentido. Obrigado Paulo por compartilhar.

Translation:

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