Sou cotista na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e gostaria de falar rapidamente sobre a minha história. Na verdade, sobre a história da minha família depois que eu ingressei no ensino superior. Estudei a vida toda na Escola Estadual Barão de Lucena, em Viamão, onde me formei no final de 2007. Meus pais não podiam pagar um curso pré-vestibular para eu me preparar para o próximo ano. Por isso, conversei com amigos, com primos, com ex-professores, tomei alguns livros emprestados e decidi estudar em casa. Graças às cotas, eu passei. Passei no vestibular para Jornalismo em 2009, na minha segunda tentativa.

Depois que entrei na faculdade, minha cabeça abriu, meu português melhorou e as pessoas ao meu redor são outras. Muitas pessoas que se dizem contra as cotas discutem se eu vou ser um bom profissional, se eu fui jogado para dentro da Universidade para resolver um problema sem solução hoje. Se eu sou a estopa que está tentando tapar um buraco negro. Muitos dizem que eu ter saído da Vila São Tomé, em Viamão, e agora ter acesso a bibliotecas, ter conhecido pessoas que mudaram minha vida, ser voluntário na Central Única das Favelas, estar vivendo em uma realidade jamais pensada pela maioria dos meus vizinhos… vou além: eu ter conhecido a Casa de Cultura Mario Quintana, poder ir ao cinema toda a semana, vivenciar experiências vistas como coisa de burguês onde moro e até conseguir juntar dinheiro para visitar meus amigos na Europa. Tudo isso por causa das cotas, de eu estar dentro da faculdade. Muitos dizem que isso não resolve o problema da nossa sociedade, da educação brasileira, de anos de descaso. Pois bem.
Muitos dos meus amigos não sabem, mas, até eu prestar vestibular, não tinha computador. Por estar no SPC, minha mãe pediu para nossa vizinha retirar no crediário um micro Compaq. Parcelado em doze vezes. Hoje, três anos e meio depois, escrevo todos os dias e trabalho com redes sociais – realidade que nem passava pela minha cabeça naquele momento.

Se eu seguisse o rumo dos meus amigos de infância – parceiros do esconde-esconde, do futebol no asfalto – seria cobrador, motoboy, profissões comuns onde moro. Muito dignas, diga-se. Minha mãe sentiria orgulho de mim da mesma forma. Mas, hoje, sinto um brilho diferente. Minha mãe não pensaria duas vezes em se endividar para bancar um cursinho pré-vestibular para o meu primo. Não pensaria duas vezes em abrir mão de um dinheiro juntado com esforço, há muito tempo, para investir em um novo computador para a minha irmã. Não pensaria duas vezes em apostar em mim se eu dissesse que eu cresceria. Ela acredita agora que podemos crescer. Eu pude. Meu primo pode. Minha irmã pode. Por que não?

 

Juliano Marchant, aluno cotista da UFRGS, durante #PosTV Cotas nas Universidades Brasileiras, em 29/04/2012

 

Meu primo de sete anos está na segunda série do ensino fundamental na mesma Escola Estadual Barão de Lucena. Hoje, olho para ele – ou ele me olha – e sinto, vejo, noto com toda a sinceridade que ele não precisará de cotas para ingressar no ensino superior. Meu primo vê uma nova realidade em sua volta. O “primo grande” dele está na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O primo dele faz Jornalismo. O primo dele vai ter diploma. Tudo isso, por causa das cotas.
Não é só a minha realidade, portanto. O meu ingresso na faculdade mudou a realidade de no mínimo três pessoas em volta. A medida paliativa, que não é a definitiva, com certeza, através de mim, vai resolver a vida do meu primo, da minha irmã.
Quatro anos após o começo da discussão no Supremo Tribunal Federal, as cotas foram mantidas – com o aumento para 50% de vagas, ainda. Os magistrados não olharam somente para mim. Olharam principalmente para o meu primo e para a minha irmã, lá na frente.

 

Por Poli Quaresma, editor da Revista Bastião (publicado na Casa Fora do Eixo / Porto Alegre).

Nota acrescentada à postagem original (13/06): “Essa não é uma história verdadeira, mas poderia ser. Tem experiências minhas, de amigos meus, de pessoas que eu conheço. É para ser um relato genérico, até porque têm alguns casos que se assemelham aqui nos comentários. O que deve ser entendido é a mensagem, é o olhar para o lado, é abrir a cabeça para a percepção de outras realidades. É ir além, notar que o texto expõe o pedido, a suplica não só de analisar a situação das cotas por outro viés, mas também ser sensível à causa do outro”.

 

Fonte - Sul 21

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Comentário de luciene Santos em 17 outubro 2012 às 2:48

 Sou negra, mas tenho minha particular opinião a respeito das cotas para negro nas Universidades. Primeiro, enquanto pobre e moradora de periferia, não acredito nesta capacidade toda pra encarar uma Universidade de nível, nem os negros, nem qualquer outro branco ou quase(como diz Caetano) se quer um raro asiatico que por á estiver. A discussão esta para mim neste caso esta no foco errado. O problema não é exatamente a cor , raça, sexualidade ou seja o que for. A questão que ninguém discute é "quem" oferece a educação em qual momento? e no primeiro momento que a Educação Basica é o governo quem oferece, e ela é: ruim, sem nenhuma qualidade, e quem a consome?? maioria negra. E o que pode parecer paradoxal é que sou a favor das COTAS, primeiro que beneficia as exceções, que conseguem de fato se impor a esta primeira fase, segundo porque dará aos negros e todos os pobres que ingressarem em Universidades  pelo sistema de cotas, netas cujas por mais paradoxal que pareça também é bancada pelo governo, mas pasmem! parece ser OUTRO governo, pelo nível de excelência em qualidade que proporciona, então acredito de verdade que quando um negro chega lá pelo Sistema de Cotas ele terá um parâmetro pelo que deve lutar pelos sues filhos e netos. Se lutarmo de VERDADE por uma Educação Básica de  Real Qualidade, eu acredito que assim podem até "rasgar" essas Cotas.

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