A naturalidade com que a sociedade brasileira e particularmente a baiana encara a morte de mulheres e homens negros, é estarrecedora. Em Salvador então, é assombroso ver como a dor dessas mortes é irrelevante, quando quem morre nessa cidade, já nasceu sentenciado. 
A dor da morte negra é anestesiada pelo contexto socioeconômico e racial, como se a morte do homem negro fosse regozijo, aos que anseiam nosso desaparecimento.

O que está em pauta é o extermínio da juventude negra, e mais especificamente de uma ação policial ocorrida na madrugada do dia 06 de fevereiro, no bairro do cabula, na Comunidade Moisés. 
Uma guarnição da policia em um suposto confronto com 30 homens, que resultou em 13 jovens alvejados e mortos, entre eles um menor de 15 anos. Na versão da polícia, tratava-se de um grupo/quadrilha que se articulava para explodir um banco, na localidade. No entanto, nenhum explosivo fora encontrado em posse do grupo.

As notícias correram, e logo, a sociedade das “pessoas de bem” comemoraram, comentários nas notícias compartilhadas nas redes sociais, íam de parabéns à medalhas, pela boa atuação da polícia. Mas o que mais chocava, eram os brados de: “Tem tudo que morrer mesmo”, “Bandido bom é bandido morto”. Gargalhadas de satisfação e gozo pelo sangue derramado de homens que, em tese cometeram algum delito e que nem se quer tiveram o direito ao devido processo legal da apuração dos fatos e da presunção de inocência.

Não, não tem misericórdia. Para o homem negro, não. Nem há misericórdia da sociedade, que se vangloria dos feitos da briosa, nem da própria polícia, essa que atende pelo nome de RONDESP e pode ser comparada sem nenhuma perda ao poder devastador de outra instituição conhecida de todos: O BOPE.

Não bastaram os corpos de 13 jovens negros, no final do dia 06 de fevereiro, mais 3 jovens foram alvejados e mortos em uma troca de tiros com suspeitos de participar do tráfico, em Cosme de Farias. No tribunal cotidiano das comunidades, para a juventude negra, ser suspeito é mais do que suficiente para está sentenciado. Quando a morte não vem instantaneamente, o acompanhará, até que finalmente o carregue.

O Excelentíssimo Governador, apoiou a ação da guarnição e deu total cobertura para a corporação, comparando a decisão de matar, como a decisão de um atacante, que escolhe qual canto da trave, na hora do gol. 
O Govenador em sua refinada justaposição, comparou que em cada corpo de um jovem negro que cai no chão, é uma indescritível sensação que toma o corpo, e a mente, num êxtase incontrolável, levando a felicidade da torcida. A metáfora aviltante é na realidade, a comemoração a cada morte como um gol, que alegra a torcida branca, pagadora do ingresso. E os atletas? Esses, de performances exaltadas, sob as assas cumprimento do dever. Esse é o recado do Rui pra gente.

Mas esse discurso é apenas a continuidade dos 8 anos de governo Jaques Wagner, que foi pautado pela truculência da polícia e pelos dados alarmantes da segurança publica, em números de mortos em confrontos com a polícia e autos de resistência. Deixando claro que não há o que conversar. A política de segurança publica é caixão e vela.

Continuidade também presente na pasta da Segurança Pública em que o “excelente” Secretário Mauricio Barbosa, se encaminha para o quinto ano a frente da sangrenta relação do governo estadual com a comunidade negra.

Essas barbáries tem acontecido sob o governo da esquerda, e mais especificamente do PT, e mesmo reconhecendo avanços que aconteceram em algumas pastas e outras que antes do governo petista nem se quer existiam, não podemos confundir as coisas, e principalmente recuar, quando é a nossa cabeça que está na mira do estado. Não se pode perder de vista, que todos os esforços e ganhos da comunidade negra para que fossem pautados e assegurados nossos direitos, vieram a partir de muita luta, e principalmente, da força da militância, militância essa que nunca se eximiu de falar, se articular e principalmente de se manifestar.

E independente das dos arranjos políticos contemporâneos, o silencio ensurdecedor não poderá dar o tom, quando estiverem em jogo à vida e principalmente a sobrevivência de homens e mulheres, adultos e jovens NEGROS. 
Martin Luther King ensinou em sua breve passagem que “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.”. Temos que ter isso em mente cotidianamente, para que possamos está sempre alerta, lutando contra aos que nos impedem de gritar e agindo em defesas dos nossos.

É preciso que exista um acompanhamento de perto na investigação desse episódio, e ao contrário do que é de costume, encontrar e responsabilizar os envolvidos. Essa é a condição mínima para que haja respeitabilidade nesse estado.

Desmond Tutu alerta: “Se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor.” De que lado você está? Eu sou juventude negra!

Eu sou um jovem negro nascido na comunidade do Calabar, que teve em seu destino, a sorte, que muitos outros jovens negros iguais a mim, não tiveram.

Eu sou juventude negra!!! 

Nenhum passo atrás!!!


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