Por Gabriel Oliveira

Eu tenho um filho. Um filho lindo!


Ele tem apenas três anos. Daqui a um mês vai fazer quatro. E nós vamos comemorar seu aniversário juntos. Com sua mãe, com sua irmã, com seus familiares, com seus amigos. Vamos celebrar sua vida. Celebrar sua existência. Celebrar a felicidade de termos ele, lindo, conosco.Você talvez não conheça Dona Rute. Eu também não conheço. Mas ela também tem um filho. Um filho lindo. O nome dele é Davi. Davi Fiuza. Ele tem dezesseis anos.


Talvez você não saiba, mas Davi está desaparecido há mais de duas semanas. Não há notícias sobre o seu paradeiro. Há apenas depoimentos de pessoas que viram Davi ser encapuzado com sua própria camisa e colocado dentro de um carro.Dona Rute não viu quando seu filho foi levado. Segundo Dona Rute, as pessoas que viram lhe disseram que ele foi levado por policiais. Sem pretexto, sem motivo, sem qualquer chance de esclarecimento.Simplesmente assim. Foi levado. Desapareceu. Há mais de duas semanas.Qual é a relação entre o meu filho e o filho de Dona Rute? Nenhuma. Eu não conheço Dona Rute. Não conheço seu filho. Dona Rute também não conhece o meu filho.


Mas eu tive vontade de falar sobre o meu filho, e sobre o filho de Dona Rute.
Talvez porque eu não tenha a menor ideia do que Dona Rute está passando por não ter o seu filho ao seu lado. Não consigo nem imaginar.Nesse momento que escrevo aqui, meu filho está ao meu lado, na segurança de sua casa. Eu olho para ele, e não não consigo nem imaginar.Não consigo imaginar meu filho chegando da escola, da rua, de qualquer lugar, e na porta de sua casa ser encapuzado, e ser levado embora. Não tenho a menor ideia do que seja isso.


Provavelmente isso nunca acontecerá com meu filho. Pelo menos não pelas mãos da polícia.
Provavelmente a polícia jamais entrará na minha casa sem um motivo razoável, abordará meu filho com violência, sequestrará e desaparecerá com ele. E depois não dará nenhuma satisfação sobre seu paradeiro.Provavelmente a polícia jamais irá tirar a vida de meu filho na minha frente, como já fez e provavelmente ainda fará com filhos de outros pais e mães, que não eu.Provavelmente meu filho nunca será preso sem ter cometido um crime. Sem ter relação nenhuma com nenhuma pessoa que tenha cometido um crime. Ou se tiver, provavelmente meu filho nunca será julgado e condenado à morte pela própria polícia.


Se meu filho um dia cometer um crime, provavelmente ele terá direito a ampla defesa, como é esperado que aconteça numa democracia que funcione para todos. Mas ela não funciona, não é mesmo?
E veja você que este nem é o caso do filho de Dona Rute.Ele tem apenas dezesseis anos. Não cometeu nenhuma infração. Não tem relação com nenhum crime ou com qualquer pessoa que tenha cometido um crime. E mesmo assim, ele desapareceu. Sem explicação, sem motivo e esclarecimento.


Não consigo imaginar a dor que Dona Rute está sentindo. Quando eu começo a pensar em algo dessa natureza acontecendo com meu filho, eu paro na mesma hora. Sinto calafrios. Não consigo pensar em não ter meu filho sob minha vista.Não consigo pensar em meu filho desaparecido. Não consigo pensar, por um segundo que seja, em não ter notícia sobre meu filho. Onde ele está, com quem ele está, o que ele está fazendo, se precisa de alguma coisa, se ele fez algo engraçado, se ele está triste por algum motivo, se ele quer alguma coisa da rua quando eu voltar para casa.


Eu não consigo imaginar, e ainda assim sem conseguir imaginar, eu sinto calafrios. Então, imagine. Imagine Dona Rute. Imagine Davi.Onde ele está? Com quem ele está? Ele está bem? Precisa de alguma coisa?
Imagine Dona Rute se fazendo essas perguntas durantes dezoito dias, e dezoito noites. E não ter o menor resquício de resposta para nenhuma delas.


Imagine Dona Rute dezoito noites sem dormir. Ou então, imagine Dona Rute, ao dormir sonhar com seu filho, e ao acordar descobrir que ele não está.Depois de imaginar Dona Rute, imagine Elizabeth, esposa de Amarildo. Você lembra de Amarildo? Imagine os filhos de Amarildo.

Depois de imaginar Amarildo, imagine as mães de quarenta jovens assassinados no Pará, há uma semana atrás. Você soube desse caso? Pois é. Quarenta jovens assassinados pela polícia.


Agora imagine vinte mil mães. Ou vinte mil pais, como queira. Ou vinte mil

Gabriel Oliveira, estudante de comunicação

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