Fórum Estadual de Cultura consolida sua articulação na Bahia

Fórum de Cultura consolida sua articulação na Bahia
 
Paulo Magalhães *
 
A III reunião do Fórum Estadual de Cultura da Bahia mostrou que este veio pra ficar. Cerca de 70 militantes e artistas, provenientes de 15 cidades de diferentes territórios de identidade e diversas manifestações culturais, estiveram reunidos em Rio de Contas para debater o regimento e a organização do Fórum.
Criado após a IV Conferência Estadual de Cultura, o Fórum tem o objetivo de ser um espaço de articulação da sociedade civil, onde artistas, entidades e movimentos culturais possam propor, acompanhar, fiscalizar e cobrar a implementação de políticas públicas de cultura na Bahia.
As atividades se iniciaram no sábado de manhã, com uma apresentação teatral da juventude rio-contense, dirigida por André Mello, do Ponto de Cultura Ciranda de Bonecos. A peça, que abordou a devastação ambiental e a perspectiva de transformação a partir da ação coletiva, emocionou os presentes. A griô Rita Pinheiro, de Salvador, apresentou seu teatro de bonecos, e Flávia Pacheco, de Rio de Contas, contou a origem mítica da Nega do Zofir, famosa escultura local depredada pela intolerância religiosa.
A mesa de abertura contou com a participação do prefeito Marcio Farias; do representante do território da Chapada Diamantina, Pitágoras Luna; da coordenadora do Ponto de Cultura Ciranda de Bonecos, Rosa Griô; e dos membros do Fórum Estadual de Cultura Helder Bomfim (Projeto Eu Sou Negão) e Freitas (CONEN – Coordenação Nacional de Entidades Negras).
Durante o dia, todos puderam se conhecer e trocar experiências, visando um conhecimento mais amplo das diversas manifestações e movimentos culturais, seus problemas e dificuldades em comum. Uma oficina de projetos foi conduzida por Helder Bomfim e KuKa Matos (FUNCEB), a fim de incentivar a elaboração de projetos por parte dos grupos e entidades, visando a sustentabilidade de sua ações. Após uma breve exposição do regimento interno do Fórum, ainda em processo de construção, foram formadas as comissões provisórias responsáveis pela condução de suas ações até o próximo encontro.
Durante a noite de sábado, os participantes foram agraciados com a performance poética Canto Negro, da poetriz (poetisa/atriz) Jocelia Fonseca. Membro do trio Importuno Poético, com quem lançou um livro em 2011, Jocelia Fonseca participa da coordenação do MSTB (Movimento Sem Teto da Bahia) e do Centro Cultural Quilombo Cecília. A noite prosseguiu em formato de sarau, com a declamação de diversos presentes. Dentre estes destacam-se Douglas de Almeida, articulador do evento Viva a Poesia Viva e diretor da Biblioteca Comunitária Prometeu Itinerante; e Mãe Lélia, do bloco afro cultural Relíquias Africanas, que por onde passa, derrama seu axé!
O Fórum já nasce com uma série de demandas apontadas. Uma delas é a articulação e consolidação de uma lei estadual que ampare os antigos mestres das manifestações culturais populares. Em setembro, um grupo de militantes organizou uma Conferência Livre de Cultura Popular que tirou como resolução a imediata implementação da Lei 8899/03, a lei dos Mestres de Saberes e Fazeres do Estado da Bahia. O governo da Bahia ainda não se posicionou em relação à lei nem à resolução da Conferência Livre, aprovada na IV Conferência Estadual de Cultura.
Outra demanda apresentada é a urgente necessidade de uma movimentação cultural que aponte as contradições das políticas de preservação do Pelourinho e Centro Histórico de Salvador. Ao contrário da belíssima cidade de Rio de Contas, em que os moradores dão vida e preservam as casas tombadas como patrimônio, no Pelourinho continua se operando uma verdadeira faxina étnica, em que seus moradores (negros e pobres em sua maioria) são expulsos para que os antigos casarões sejam entregues a estrangeiros e grupos econômicos poderosos.
Além disso, o Fórum já começou a desenvolver sua primeira pesquisa, intitulada “Mapeamento dos Agentes e Grupos Culturais do Estado da Bahia”, iniciativa acadêmica que objetiva fortalecer os agentes e os grupos culturais envolvidos. O fórum agrega em sua formação um grupo transdisciplinar de pesquisadores voltado para execução de pesquisas, construção de diagnósticos e relatórios técnicos acerca da cultura no estado. Inicialmente, esse eixo de atuação apresenta como meta a construção de um dossiê virtual, que registre através de textos, depoimentos, fotos e vídeos as manifestações culturais baianas. Um produto cultural de grande relevância para registro e difusão das ações culturais já desenvolvidas nos 27 territórios de identidade.
Pra quem esteve em Rio de Contas, saudades de uma cidade bonita e limpa, com um passado que se faz presente, um povo educado e acolhedor. Fica a expectativa para o próximo encontro, no final de Abril, quando se aprovará o Regimento e será eleita a Coordenação do Fórum, responsável por sua articulação pelos próximos dois anos. A anfitriã será São Francisco do Conde, no recôncavo baiano, cidade que possui cultura rica, juventude organizada e uma administração política popular. Tod@s artistas e militantes culturais da Bahia estão convidad@s. Rumo a São Francisco do Conde! Vida longa ao Fórum Estadual de Cultura da Bahia!
 
*jornalista e mestre em ciências sociais; membro da ACANNE (Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro) e do Fórum Estadual de Cultura da Bahia.

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