Festa do Nosso Senhor do Bonfim e Religiosidade Panafricana


A Festa do Bonfim tem um sentido todo especial para mim, enquanto moradora da Península de Itapagipe. Neste dia, vê-se este pedaço de terra que avança para o mar preenchido por gente vestida de branco, como que querendo se transformar na própria paz. isso na mesma Península que é um dos 7 pontos mágicos de Salvador (eleita por internautas através de votação, em 2009), e que continua abandonada por autoridades locais. Contudo, a região segue resistente, altiva e, sobretudo, feliz, bem como o povo negro que ela guarda.

 

Nasci e me criei aqui e, pela primeira vez em minha vida (acreditem!), quebrei a minha resistência lógica à manifestação religiosa e segui o som que emanava dos fogos, na segunda quinta feira de janeiro. Quando cheguei ao adro, avistei os fiéis. Ao me aproximar, pude sentir como a devoção católica é linda. Aliás, toda devoção é bonita. E se vinda de uma fé que respeita as demais, que compreende a diferença, aí é mais admirável ainda (ainda que ela tenha muito o que caminhar). No fundo, todas as religiões são absolutamente iguais em seu fim.

 

Quando criança, criada pelas areias da praia de Boa Viagem e pela paróquia do mesmo nome, desejei ser freira. Mas, quando adolescente, ao reconhecer a história injusta a que o cristianismo subjugou tudo o que lhe era diferente e, principalmente, tudo o que lhe diminuía o poder, percebi que um Deus assim não fazia sentido para o meu coração.

 

Mas, naquela quinta-feira, segui. Fui corajosa e cheguei, no dia da Lavagem, ao alto da Colina Sagrada; esta que, segundo órgãos governamentais, abriga a principal festa religiosa da Bahia. Foi muito forte o encontro de minha esperança com a de meus semelhantes. Confesso que ali, quando vi uma baiana com água de cheiro, senti-me feliz. E gritei: Epa Baba! Parte dos fiéis fez uma cara um pouco feia mas, ao tempo em que o padre dizia “salve o Nosso Senhor do Bonfim”, eu respondia. Às vezes, "salve"; às vezes, “salve Oxalá!”. Pela primeira vez em minha vida vi uma possível importância do sincretismo e, acima de tudo, a lógica que moveu (e move) aquelas representantes de religiões de matriz africana que insistem em lavar um local que lhe deu (dá) as costas, durante pouco mais de seis décadas. Neste período, a lavagem da Igreja foi proibida, e suas portas fechadas às ‘baianas’. Finalmente, no ano passado, o Padre quebrou o silêncio da Irmandade e celebrou uma missa para a praça. Ganhou o povo e a Fé!

 

Igreja celebrando a Natureza

E para eu não perder de vista o calendário de festas populares da cidade, tenho visto a Igreja saudando o Mar por dois anos consecutivos na figura de Dom Gregório, em 2010. Ele tem navegado as águas da praia da Pituba, turvando a única festa popular que era celebrada sem nenhuma sombra do catolicismo, até então: a festa de 2 de fevereiro, dia de Yemanjá.

 

Desde 2009, a Paróquia Nossa Senhora da Luz vem promovendo publicamente o dia da Santa que dá nome àquela congregação religiosa, bem como a seu Colégio. Acessando o site http://www.pnsluz.com.br/not.php?id=99, os fiéis podem conferir os melhores momentos da “Festa da Mãe” (da Luz). No mesmo endereço já consta toda a programação dos festejos para 2011, com direito a fotos de todo o período da festa - desde preparativos, novenas e tudo o mais necessário para a culminância daquele evento paroquial.

 

Quanto ao número de posts relativos à Festa da Mãe (da Luz!), em 2009, dos cinco publicados em fevereiro, somente um foi sobre as comemorações do dia 2. Já em 2010 houve um crescimento de 100% nas postagens sobre o assunto, sendo que, dos dois existentes no segundo mês do ano, ambos (!) eram sobre a festa.

 

Enquanto isso, “na sala da (in)justiça”, a Fundação Gregório de Mattos, órgão que representa o nosso estado l-a-i-c-o, parece ter decidido, desta vez, fazer esta regra valer. O nome da festa virou, de um dia para o outro, Festa do Rio Vermelho- Iemanjá: http://www.culturafgm.salvador.ba.gov.br/index.php?option=com_conte.... Nem o “Y” do nome da Iyabá sobrou para contar história...Imagine se os pescadores, coitados, não abrirem os olhos rapidinho.

 

Missão para a SEMUR

 

Águas à parte, sejam elas de Oxalá ou de Yemanjá, ou mesmo da Paróquia católica, julgo importante estas observações porque em política nada é por acaso. Nada contra o Rei dos Orixás ser vinculado a Nosso Senhor do Bonfim (ou vice-versa). Mas daí não deixar o povo negro desta terra ser livre em sua Fé, ao menos em uma data festiva, é crueldade demais.

 

Que cada embarcação presente na festa de Yemanjá, neste 2011, hasteie uma bandeira gigante do Brasil para que este país possa viver junto com cada Pescador, com cada fiel (e não ‘adeptos’, como a imprensa insiste em diferenciar), a alegria de viver esta Fé que engrandece todos os seres humanos. Certamente, a mesma que eu senti quando cheguei ao adro da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, na Lavagem deste ano, e reconheci na força de cada um dos ali presentes a minha própria.

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Pela liberdade da Fé! Que se possa neste dia 2 de fevereiro exaltar aos quatro ventos, com devoção e respeito, Odoyá, Yemanjá!

 

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Comentário de José Cezário Miguel Aschar em 28 março 2011 às 5:28

Parabéns pelo texto! Embora não seja praticante sou um profundo admirador das manifestações de matiz africana e tenho grande respeito por isso.

Sou católico por formação familiar, assisto às missas semanalmente, mas não sou fanático. Tenho a minha Fé em DEUS-PAI.

Sempre tive vontade de estar presente na Festa de Iemanjá e neste ano pude fazer isso. Gostei muito. Fui no Rio Vermelho, levei flores e enrtei na Casa de Iemanjá para reverenciá-la. Senti uma forte energia! Apesar do comércio que se instala (na desculpa de que somos um País Capitalista) é um dia especialmente muito lindo quando multidões fazem filas para saudar Iemanjá, Janaína, a Rainha do Mar.

Tive a oportunidade de ir de barço depositar flores para Iemanjá em alto-mar quando lindas embarcações acompanham o cortejo. Tudo muito lindo e cheio de energia! A água do mar fica num azul totalmente diferente, muito mais forte! E isso nos dá a forte sensação de que Iemanjá está ali presente unida e celebrando com a gente.

Estive também na missa da primeria sexta-feira do mês na Igreja do Bonfim. É tudo tão emocionante que não dá para conter as lágrimas diante da grandeza de Nosso Senhor do Bonfim.

No ano que vem com certeza me farei presente novamente.

Axé para todos os Homens e Mulheres de bem da Boa Terra!

Comentário de Vanice da Mata em 15 janeiro 2011 às 16:02

E não é, Luciene?

Para reforçar a sua fala, quem é capaz de esquecer a carta do Povo de Orixá apoiando a candidatura de Dilma; povo delicadamente silenciado durante os ataques de seu opositor, José Serra, pelo fato da então candidata ser atéia ou fiel católica. Imagine o dia em que um candidato afirmar: Sou fiel do Candomblé!  Ave maria! Aí é que o Brasil "sulista" vai queimar esta pessoa viva. Com Dilma eles nos afogaram, lembram? Há muito ainda o que se educar, e nisso pelo menos tenho alguma esperança, acompanhada de vigilância e atitudes.

Comentário de Luciane Reis em 15 janeiro 2011 às 14:29

Perfeito texto, o problema é que até nossos gestores "ditos"  do candomblé  se renderam aos evangêlicos ou ao ecumênismo.Vide gestão municipal que diz ter dois gestores do Candomblê ou que pelo menos nas palavras dizem que são , que não dizem pra que vieram.Todo ano vou ao bomfim cedo para ver as falas " ecumênicas " criadas pelo prefeito e este ano foi interessante ver o padre exaltar todas as religiões" Budismo, islã, evangelicos e católicos" .Perguntei ô mas não é uma abertura ecumenica? Kd o povo de Candomblê ? Uma vez que  a lavagem do Bomfim é deles?.Imaginei que esta  lavagem seria um momento do povo de santo ir  a rua e cobrar respostas sobre o caso de Ilheús ,o que vi foram meia dúzias de evangêlicos no auge de sua " fé",com cartazes desqualificando Oxalá.rsrsrr

Enfim, com ogans ou não ogans o povo de santo na política continua por sua própria conta, e contando somente com nossos orixás.Povo de santo serve pra na epoca das eleições aparecerem meia duzia emm nossas festas pra pedir voto e atrapalhar as celebrações pois no final das contas eles só contam com eles.

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