Fortaleza é pioneira na criação do Fundo Rotativo Solidário voltado para a produção negra

Texto: Aby Rodrigues, correspondente do Correio Nagô no Ceará

Fotos: Divulgação

Integrantes do Fórum da Economia do Negro

Em Fortaleza, a Coordenadoria Municipal de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial – COPPIR vem fortalecendo o trabalho de muitos empreendedores negros através da implantação do Fórum da Economia do Negro. Criado em 2009, o fórum tem como eixo de atuação o fortalecimento da cadeira produtiva protagonizada por negros e negras da cidade. Essa experiência de gestão social pautada na economia solidária e orientada pelo recorte étnico racial é fomentada pela união de três políticas públicas: política de crédito, promoção da economia solidária e da igualdade racial. De acordo com informações da Secretaria de Direitos Humanos de Fortaleza, esta é a primeira cidade a organizar um fórum para discutir o empreendedorismo social com recorte racial, com o protagonismo dos afrodescendentes, com incentivo à participação direta de iniciativas econômicas de negros e negras, adotando os princípios da economia solidária. 

Luiz Bernardo, atual coordenador da Coppir, conta que a ideia surgiu “numa conversa informal com alguns colegas. Eu sempre tive a curiosidade de saber qual era a participação do povo negro na economia brasileira. Somos um país majoritariamente negro e eu me perguntava qual era nossa parcela de responsabilidade no PIB, qual o nosso peso na riqueza do país, que local ocupávamos no mercado financeiro”, questiona o coordenador. Na busca por parceiros para a concretização do fórum, Bernardo comenta da dificuldade das pessoas compreenderem a proposta, contudo não tardou muito para que a ideia finalmente pudesse se tornar realidade. O Programa de Apoio a Projetos Produtivos Solidários do Banco do Nordeste (BNB) decidiu investir e propôs, além da criação do fundo rotativo, a formação técnica dos beneficiados.

Após a realização de seminários de caráter informativo e de instrumentos organizativos, dentre eles a formação do Comitê Gestor do Fundo Rotativo, os primeiros grupos produtivos foram integrados de acordo com sua área de atuação. Ao todo, são 13 grupos divididos em cinco segmentos: Cultura, Beleza Negra, Artesanato, Comunicação e Reciclagem. Segundo dados do Comitê estão envolvidos 100 componentes diretos e, pelo menos, 90 famílias indiretos, além dos recursos destinados para o Comitê Gestor acompanhar os grupos produtivos.

Marcas - O Ateliê Gerasol, localizado no bairro da Jacarecanga, é um desses empreendimentos. Antonia Karla de Almeida, coordenadora do Ateliê, fala sobre as mudanças geradas após a participação no projeto: “Com a contribuição do fundo estamos produzindo bolsas de estampa afro e investindo no potencial da cultura negra para dar um salto de qualidade nos nossos produtos, e claro, evidenciando as cores e formas da nossa ancestralidade africana. Já conseguimos adquirir alguns equipamentos que hoje são fundamentais para o crescimento do nosso negócio. Outro bom exemplo é o de Robério Batista, conhecido como Mestre Ratto. Coordenador Geral do Centro Cultural Capoeira Água de Beber  - CECAB, ele e os demais companheiros comercializavam elementos da capoeira como instrumentos e vestimentas, no entanto de forma ainda precária. A entrada do fundo rotativo possibilitou então o criação da marca Lúna, voltada para o público praticante da capoeira. “Com o investimento, nós adquirimos materiais de melhor qualidade que deram suporte para a ampliação do nosso trabalho. Além do nosso estado, já conseguimos vender para clientes da Europa e de boa parte do país através das redes sociais”.

Luiz Bernardo, coordenador da Coppir

Além do caráter financeiro, Luiz Bernardo chama atenção para a importância dessa ação no tocante a identidade negra. “Precisamos explicitar a produção negra desse país, evidenciar que somos nós os realizadores de tantos produtos dos quais nossa autoria nunca ou pouco é lembrada, precisamos dizer ”isso é nosso”! É necessário entender que o debate da economia do negro também é uma ferramenta de combate ao racismo e de resistência. Nosso patrimônio cultural é gigantesco e devemos aproveitá-lo para injetar em nós um sentimento de orgulho e de consciência da nossa força produtiva no desenvolvimento do Brasil”, finaliza.

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Comentário de haldaci regina da silva em 23 abril 2012 às 10:36

Parabéns! Fortaleza dar um exemplo para toda sociedade brasileira, pois uma das reivindicaçoes do movimento negro é a inserção do negro no mercado de trabalho e sua visibilidade na economia do país.Não somos apenas consumidores , somos produtores , empreendedores e precisamos ter a ousadia de nos mostrarmos como tal.Infelimente/felizmente ainda temos que depender de poucas pessoas que possuem a sensibilidade e o compromisso em fazer algo pela negrada.Infelizmente porque todos/as independente da cor ou etnia  precisa entender que a politica de inserção e oportunidade não tem cor. Parabéns e vamos copiar esta ação positiva.

Comentário de Mia Lopes em 20 abril 2012 às 19:13

Aby,

Fortaleza deu um passo muito importante, o debate sobre empreendedorismo negro é recente e as políticas públicas de potencialização do empreendedor negro  é mais ainda.

O SEBRAE constantemente divulga dados no qual o Brasil esta entre os países que mais fomentam a criação de empreendedores individuais, mas onde estamos? Trabalhando como baianas de acarajé, ambulante, manicure, taxista e etc.

A fala de Luiz Bernardo nos remete a importância da visibilidade das nossas produções, tem muita gente fazendo coisas legais nas comunidades, mas que não tem capital de giro pra fazer uma simples iniciativa vira um negócio de sucesso.

Por esses e outros motivos que a criação do Fórum da Economia do Negro é fundamental.

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