Geopolíticas do Conhecimento: construindo uma afro-epistemologia a partir da América do Sul por Monica Carrillo

Peru, Lima - Extraterrestres, forças sobrenaturais, elos perdidos da história. São os argumentos da cultura eurocêntrica e ocidental para explicar aqueles sistemas de conhecimento cuja elaboração ou concepção têm um nível tão elevado que a ciência moderna ainda não pode desentranhar. Assim acontece com as pirâmides do Egito, as cabeças de pedra com rostos de imperadores de ascendência africana na cultura olmeca do México, os sistemas de drenagem e os calendários na região andina da América do Sul.

Qual é o papel dos/das investigadores/as nessa reconstrução e reengenharia do conhecimento? É possível pensar a partir de nossa afro-descendência, sem remeter-nos à determinação do processo escravista? Existe uma cosmovisão e paradigmas dos/das afro-descendentes da diáspora que permita a (re)germinação do pensamento americano a partir desta perspectiva?

Falar de temas como epistemologia (fundamentos e métodos do conhecimento) e hermenêutica (a utilização do mesmo) dentro de contextos tão agressivamente racistas pode parecer descontextualizado para os/as
afro-descendentes que demandam soluções concretas que permitam o desenvolvimento e o rompimento com a cadeia de pobreza estrutural.

Apesar de existirem importantes estudos a partir dos/das afro-descendentes da América do Sul, ainda não existe um pensamento crítico que coloque a experiência particular dos afro-descendentes da
diáspora e a determinação dos processos de mestiçagem e indigenismo nos processos de resistência, com características diferenciadas do pensamento afro-norte-americano. Isto é, um pensamento que não seja a
atualização do pensamento europeu, estadunidense, senão – como assinala W. Mignolo – “a descolonização do conhecimento partindo de nossa experiência histórica”. O qual, por sua vez, não pode ter pretensões de
ser universal, porque existem muitos universos que não podem reger-se nem entender-se a partir da perspectiva do nosso.

Segundo esses/as pensadores/as, as geopolíticas do conhecimento determinam que este tem mais valor dependendo de onde e por quem foi criado. Na mesma linha, Max Weber aponta uma categoria nos sistemas de estruturas de poder denominada “match”. Implica que os grupos subordinados atuem determinados pela lógica e características impostas pelos dominantes, estabelecendo sua cosmovisão baseados nas definições
que tem o sistema ocidental e eurocêntrico sobre desenvolvimento, civilização e cultura. Quer dizer, recordando a frase da investigadora Juderkis Espinoza, a característica do subordinado expressa o porquê de
sua subordinação.

Dentro da proposta de descolonização do pensamento, Mignolo propõe três perguntas que resultam interessantes como pontos de partida para uma reflexão profunda:

1) Que tipo de conhecimento queremos/necessitamos produzir e transmitir?
Para quem e para quê?
2) Que métodos/teorias são relevantes para o conhecimento que
queremos/necessitamos produzir e transmitir?
3) Com que fins queremos/necessitamos produzir e transmitir tal tipo de
conhecimento?

Resulta importante retomar a proposta de grandes pensadores e investigadores como o senegalêsCheik Anta Diop, que antes de que o mapa genético provasse que a raça negra foi a origem de todas as existentes,
colocava esta teoria com achados científicos que foram ignorados pelos intelectuais europeus e/ou eurocêntricos. Além de aportar elementos sobre a presença africana na Índia, recordar-nos a africanidade do Egito e a presença negro-africana na América do Sul antes das civilizações pré-incaicas.

Esta perspectiva não propõe o afro-descendente como a exceção da regra. Transcende a proposta de introdução do étnico e intercultural como perspectiva. Estipula construir o conhecimento a partir do/da
sujeito afro como parte de uma população da qual se desprende uma ancestralidade de pensamento, desenvolvimento e espiritualidade que propõe uma nova forma de relacionar-se e uma cosmovisão e maneira
diferenciada de relacionar-se com o ambiente.

O processo escravista, a partir desta perspectiva, deixa capacidades e sensibilidades instaladas que permitem estabelecer uma conexão solidária com outros/as seres humanos, grupos ou povos que sofrem uma
experiência de racismo e discriminação. A lógica com a qual foram construídas e desenvolvidas formas de resistência e organização se baseia em uma sabedoria que pode ser útil para que outros grupos ou povos desenvolvam os seus, não tomando o modelo afro como paradigma, mas os elementos mais importantes da base do conhecimento sobre o qual se assentaram as formas de resistência e re(criação) cultural.

Esta descolonização do conhecimento através do pensamento crítico não se constrói a partir de alguns poucos artigos e livros, senão da constante produção articulada que permita que (re)germinem aquelas
matrizes e conhecimento ancestral que esperam ser despojadas da carapaça que aparenta ser uma semente fossilizada, mas que mantém os essenciais nutrientes necessários para seu desenvolvimento e florescimento.

Monica Carrillo é peruana e participa do LUNDU – Centro de Estudios y Promoción Afroperuano, em Lima. Tradução de Lunde Braghini Jr, publicado originalmente no Irohín.

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Comentário de Paulo Rogério em 4 julho 2010 às 9:36
Leia também esse artigo sobre o racismo no Peru: Ativistas hostilizados por denunciar racismo http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=590FDS007

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