Grupo de rappers e movimento hip hop buscam firmar-se nos espaços sociais em Teresina

        Juventude e gênero têm sido objetos de estudo de um grupo de pesquisadores do Piauí. A professora Lila Cristina Xavier Luz, doutora do Departamento de Serviço Social e do Programa de PósGraduação em Sociologia da UFPI e coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Estudos sobre Crianças Adolescentes e Jovens (NUPEC), que funciona no CCHL-UFPI, tem apresentado projetos de pesquisa nessa linha. O interesse por trabalhar o tema juventude emergiu a partir da sua inserção no NUPEC, onde desenvolve, com outros professores, pesquisas e orientação de alunos de graduação, visando à construção de reflexões voltadas para compreender as questões juvenis dos tempos atuais. A pesquisadora também contribui com alguns estudos no ENGENDRE. 

Em seu doutorado, defendido na PUC-SP em 2007, Lila Xavier Luz analisou experiências de jovens rappers de Teresina, pertencentes a grupos de raps e, ao mesmo tempo, envolvidos em atividades de composição do rap (letra e canção) cantado em apresentações culturais. O foco da investigação foi a atuação desses jovens nas atividades culturais e sociais. Assim, a doutora recorreu a narrativas orais para apreender suas histórias de vida, objetivando compreender suas práticas sociais a partir da inserção no movimento hip hop. “O trabalho teve os jovens rappers como narradores. A concepção de juventude adotada nesta pesquisa não partiu de referências etárias para identificar os rappers de Teresina, porque trabalhamos com a ideia de juventude histórica e socialmente construídas”, explica.

A pesquisa identifica aspectos acerca da questão de gênero no movimento, evidenciando como jovens mulheres e homens ocupam os espaços, as atividades são desenvolvidas e o modo como as diferenças de gênero são explicitadas. Nesse sentido, Lila Xavier Luz esclarece que, no movimento, por um lado, existe uma “guetização” masculina; por outro, as mulheres estão resistindo, denunciando e construindo seus espaços, por meio das canções que criam, pelo modo como se apresentam nos shows, enfim, dos espaços que ocupam no movimento. “É possível afirmar que os jovens do sexo masculino vivem muito cedo algumas experiências que os possibilitam não apenas um encurtamento da fase de infância, mas também a substituição de práticas muito particulares a esta - como as lúdicas e a frequência escolar - pelo trabalho, pela mendicância, entre outras. Esta condição faz com que eles, desde muito cedo, tenham que assumir, não apenas responsabilidades como gente grande, mas também práticas incompatíveis com a vida em sociedade, como, por exemplo, a inserção em atividades ilícitas”, descreve. 

Grupo de Hip Hop A Irmandade - Teresina-PI

Por outro lado, as histórias das jovens mulheres evidenciaram no estudo que elas convivem com as proibições paternas e dos companheiros, na tentativa de mantê-las reclusas de algumas atividades em público. Os argumentos são diversos: deixá-las em casa para não namorar; não trocar experiências com as colegas e, quando elas demonstram resistências, os castigos aumentam. “Os companheiros as proíbem de se vestirem e de se pentearem da forma desejada e, quando eles não conseguem, valem-se da violência moral para colocá-las num lugar menor, de sedutora dos homens”, afirma. Segundo a pesquisadora, essas revelações na vida de jovens rappers servem de parâmetros para se entender que os jovens, os homens e as mulheres, por serem  personagens de uma época, evidenciam novas formas de reproduzir o que compreendem como sendo lugares de meninos, ou de transgredir no caso das jovens, determinações culturais tão consolidadas em relação a papeis para homens e mulheres na sociedade.

Em outros projetos sobre recorte de gênero, Lila Xavier Luz tem-se dedicado, nos três últimos anos, a estudar juventude na temática do lazer. Um dos seus eixos “Os lazeres nas sociabilidades juvenis em Teresina” tem como objetivo principal configurar o contexto das sociabilidades dos jovens a partir dos sentidos por eles atribuídos, considerando as diferenciações de gênero e de classe. Assim, o estudo visa analisar as práticas de lazer dos jovens de Teresina, com vistas a compreender como eles desempenham suas atividades de lazer e como ocupam o tempo livre. “Em Teresina, as relações de lazer de ambos os sexos evidenciam diferenças nas práticas masculinas e femininas, quando o espaço e as atividades são considerados. Essas diferenças podem estar relacionadas à tradicional relação do indivíduo feminino com o espaço privado e por que não com a condição social secundarizada e, relativamente, de controle da sexualidade dispensada, por algumas famílias, às jovens”. Em relação à condição de classe, as informações revelaram que ela é definidora dos espaços e das atividades realizadas pelos jovens, limitando suas mobilidades pela cidade em busca de alternativas de lazer: falta transporte, espaços de lazer nas zonas periféricas, bem como dinheiro para custear algumas atividades. 

      “É necessário repensar os espaços públicos de lazer como forma de melhorar a condição juvenil. Parece importante o desenvolvimento de programas públicos que possibilitem a ocupação do tempo livre dos jovens com atividades de lazer, considerando as diferenças de gênero e de classe. É preciso que o poder público organize atividades em praças e ruas da cidade, para práticas, como conversar, ouvir música e dançar. Também é preciso apoiar as iniciativas criadas por esses jovens como forma de proporcionar lazer a outros jovens, por meio do financiamento de equipamentos musicais, esportivos etc., para utilização, nas suas apresentações musicais, as rodas de brack e street dance, rodas de dança, entre outras.”, considera Lila Xavier Luz. 

Ela conclui ainda que o lazer para os jovens de Teresina foge da prescrição midiática da indústria de consumo que define lazer tendo por base um padrão de atividades realizadas por meio da aprovação e valorização das instituições tradicionais: escola, família, entidades destinadas a organizar tais atividades. “De um modo geral, os jovens da cidade vivem o lazer mediado pelo uso de equipamentos eletrônicos, tais como rádio, televisão e computador”.

Fonte: Sapiência ( Informativo Científico da FAPEPI - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí )

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Comentário de DARLIANNE COSTA DOS SANTOS em 29 novembro 2012 às 17:48

O GRUPO IRMANDADE É D+, CONHECO POUCAS MUSICAS MAIS A Q OUVI ME TOCOU BASTANTE. FORÇA A TODOS DO GRUPO E AOS SEUS SEGUIDORES. E LEMBREM - SE: RACIOCINIO SEMPRE!!! BJS

Comentário de José Balbino em 11 junho 2012 às 11:00

vale atentar que recentemente a casa do hip hop, no parque piaui, sofreu ameaca de ser fechada por parte do governo do estado. gracas a uma grande mobilizacao nacional o questao ideologica se afirmou e continuou dispondo do espaco para suas atividades. sem duvidas eh um dos maiores centros mobilizadores de juventude do pais. posso afirmar por conhecer pessoalmente as iniciativas desse pessoal! longa vida pra casa do hip hop e pro movimento hip hop que se organiza no piaui e demais estados!

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