Revista Raça


Ensino afro: humanamente possível
Avançar
na construção de práticas educativas e pedagógicas não é uma tarefa fácil.
Romper preconceitos, superar velhas opiniões e explicar a desigualdade racial
no Brasil requer uma dinâmica própria em que vários caminhos podem ser
trilhados

Por Marla Rodrigues






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Yomar Seixas, Ricardo Carvalho e Zé Carlos Bastos formam o Grupo Humanas




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África: um continente que sorri para o futuro


Descobrir esses caminhos foi o que fizeram três professores baianos na primavera de 2007, quando decidiram cruzar a distância que o separava deles mesmos, numa viagem de
volta aos ancestrais. O destino? Angola, no Conti- nente Negro. Zé Carlos
Bastos, Yomar Seixas e Ricardo Carvalho, professores de Português, Geografia e
História, respectivamente, trouxeram de lá um farto material didático,
depoimentos fortes e comparações pertinentes entre a África que enxergamos e a
África que existe, de fato. O resultado, aliado a imagens e depoimentos
colhidos em Salvador, deu origem ao documentário África e Africanidades - Mbondo, Nossas Raízes Africanas,
do Grupo Humanas, que já vendeu mais de 20 mil cópia s. “O documentário ficou
maravilhoso, melhor do que esperávamos, porque na realidade queríamos usar esse
material na sala de aula, enriq uecer nosso en sino e mostrar aos no ssos
alunos como a África se parece com o Brasil e como o Brasil deve tanto a
África”, conta Yomar. O Grupo Humanas
é mais um a colaborar na execução da Lei 10.639, que determina o ensino de
História e Cultura da África e Tradições Africanas nas escolas do Brasil.
Professores de Ciências Humanas, nascidos em bairros populares de Salvador, os
três amigos já trabalharam com várias temáticas, mas a questão racial sempre os
incomodou. E isso não tem nada a ver com a cor de suas peles. Brancos?
“Preferimos afrodescendentes de pele clara, como já nos definiu o amigo Jorge
Portugal. A consciência vem de muito estudo, de uma descendência negra direta,
da origem humilde e da convivência em uma cidade onde, apesar de atavismos
racistas inevitáveis, ser negro é referência. Referência de luta, de coragem,
de beleza e resistência”, afirma Zé Carlos, coordenador do Grupo Humanas.


"O GRUPO HUMANAS FAZ PALESTRAS, SEMINÁRIOS E AUL AS INTERDISCIPLINARES PARA ALUNOS DE ESCOLAS PÚBLICAS E PARTICULARES E AS SAL AS ESTÃO SEMPRE LOTADAS"


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O grupo trouxe de Angola um rico material em fotos e vídeos que deu origem ao documentário África e Africanidades


A ideia de ir a Angola e trazer de lá algo que pudesse fomentar em crianças e jovens o interesse por sua própria história não foi um projeto fácil. Sem dinheiro, os
três contaram com o apoio de políticos baianos ligados à questão racial. “A
vereadora Olívia Santana e o deputado Valmir Assunção nos aju daram,
acreditando que esse projeto poderia trazer algo de bom e que contribuísse na
redução da desigualdade. Mas quem realmente deu o impulso maior foi o Gilberto
Gil (então Ministro da Cultura) que nos indicou artistas e músicos como o
Felipe Mukenga, Corneliu Calei – um dos maiores historiadores da África – e
tantos outros que abriram caminhos e nos abraçaram. Nossa intenção era fazer
com que a lei fosse aplicada de uma forma que, além do didatismo, tivesse um discurso
ideológico, de visibilidade”, ressalta Ricardo Carvalho. Para o grupo, falta
maturidade acadêmica de algumas instituições e uma ação mais incisiva do
Ministério Público para que a Lei 10.639 seja cumprida. Mas o principal é a
carência de material didático. O bom é saber que a receptividade é grande. O
Grupo Humanas faz palestras, semin ários, aulas interdisciplinares para alunos
de escolas públicas e particulares e as s alas estão sempre lotadas, tamanho é
o interesse pelo assunto.


LUANDA E SALVADOR: DUAS ÁFRICAS


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Luanda ainda vive as sequelas da guerra civil, mas seus cidadãos caminham com esperança


No roteiro dos três professores em Luanda, capital de Angola, muitas surpresas e emoções. “A gente ouviu muito dos africanos que eles conhecem mais o Brasil d o
qu e os b rasileiros conhe cem a África. Isso é uma coisa que precisa ser
revista”, alerta o grupo. E pelas ruas, cada depoimento foi, segundo os
professores, um sobressalto e uma emoção que, muitas vezes, os levaram às
lágrimas. “Intelectuais, artistas e gente do povo com uma consciência histórica
e um orgulho de sua africanidade de dilacerar a nossa visão estereotipada de
uma África frágil e caótica. O professor Cornélio Kaley e sua ciência
emocionam, o motorista que espontaneamente narra os horrores da guerra ou o
anônimo que grita com a força moral das ruas. ‘Meu avô saiu daqui escravo!
(...) Deus fez o branco, o mulato e o negro, porque o negro é que foi escravo?’
.
São versos nobres que engrandecem o documentário.’”, observa Zé Carlos.


E quais seriam as semelhanças e diferenças entre as duas Áfricas – Luanda e Salvador – a partir das impressões dos professores baianos? “Social e racialmente,
estivemos pis ando na mesma cidade, apesar de continentes diferentes.
Obviamente o contingente de brancos é menos visível em Luanda. São cid ades
negras e, o mais import an te, cidades ‘de negros’. Luanda ainda vive as
sequelas da guer ra, q ue nã o atingiu d iretamente a c idade, mas as feridas abertas ainda se
percebe pelos sentimentos que cortam muitas vezes, com dor e angustia, os
depoimentos que recolhemos”, analisa Yomar Seixas. A experiência adquirida por
Zé Carlos, Yomar e Ricardo, rendeu, além de mais conhecimento sobre as questões
africanas e suas próprias raízes, outro documentário do Grupo Humanas: A Cor do Racismo, tema que
aparece de forma paralela nos depoimentos e narrativas do primeiro
documentário.


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"A GENTE OUVIU MUITO DOS AFRICANOS QUE ELES CONHECEM MAIS O BRASIL DO QUE OS BRASILEIROS CONHECEM A ÁFRICA. ISSO É UMA COISA QUE PRECISA SER REVISTA"


Além do material didático, o Brasil precisa de professores qualificados e atualizados, com atitude e consciência nas questões das desigualdades raciais, e ainda um
esforço de querer fazer acontecer em todos os âmbitos da sociedade para que a
realidade da educação rompa os preconceitos criados ao longo da História. A
pergunta que fica é: a sociedade brasileira e, principalmente os políticos,
querem mesmo modificar essa realidade?


Contatos: www.grupohumanas.com

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