Jornalistas brasileiros visitam experiências e iniciativas norte-americanas pela igualdade racial

Há exatamente 15 dias, um grupo de jornalistas brasileiros esteve nos Estados Unidos, nas cidades de Washington e Atlanta, a convite do Departamento de Estado Americano, a fim de conhecer iniciativas e programas de políticas para eliminar a discriminação racial e étnica. As visitas, culminaram na quarta reunião do Plano de Ação Conjunta entre Brasil e Estados Unidos para Eliminação da Discriminação Etnorracial e Promoção da Igualdade (JAPER), realizada nos dias 20 e 21 de maio, em Atlanta, com a participação de representantes dos governos, da sociedade civil, de empresas e universidades dos dois países.

Para a cobertura da reunião foram convidados os seguintes veículos: Correio Nagô (BA), Jornal A Tarde (BA), Jornal do Comércio (PE), Revista Raça (SP), Jornal O Globo (DF), Afronews (SP), Afropress (SP), Empresa Brasileira de Comunicação - EBC (DF) e Rádio Jovem Pan (SP).

Washington, D.C

No Programa de Visitas Itinerantes, os jornalistas brasileiros estiveram na capital dos Estados Unidos, onde participaram de um briefing (um conjunto de informações, uma espécie de roteiro passado em uma reunião para o desenvolvimento de um trabalho) no Departamento de Estado, no local conversaram com o chefe do Escritório para o Brasil e Hemisfério Sul do Departamento de Estado dos EUA, Milton Drucker. Na ocasião, Drucker ressaltou a importância do JAPER para o fortalecimento dos dois países no reconhecimento e celebração das ricas contribuições dos afrodescendentes e das populações indígenas para ambas sociedades.

“O que estamos tentando fazer é unir as pessoas para que elas possam lidar com os problemas que a discriminação racial gerou e gera. Não podemos esconder o fato de que existem os que não querem enxergar o problema, e isto acontece nos aqui e no Brasil”, ressaltou Drucker.

Jornalistas reunidos com o chefe do Escritório para o Brasil e Hemisfério Sul do Departamento de Estado dos EUA

Ainda na capital norte-americana, dentro da programação estava inclusa um tour pela Casa Branca, mais a maioria dos jornalistas decidiram trocar a visita na residência oficial e principal local de trabalho do Presidente dos Estados Unidos, por um passeio ao bairro Anacostia, que tem a sua população formada 92% por africano-americanos, além de ser conhecido pelas altas taxas de criminalidade.

No bairro, está localizado o Centro Histórico Nacional Frederick Douglass, líder abolicionista americano, editor, orador, autor, estadista e reformista, conhecido como "O Sábio de Anacostia" e "O Leão de Anacostia", Douglass foi uma das mais proeminentes figuras da história dos afro-americanos e dos Estados Unidos, tendo sido o primeiro afro-americano indicado para ser vice-presidente dos Estados Unidos. Além disso, era conhecido por seus pronunciamentos sobre a condição da raça negra e sobre outras questões, dentre elas os direitos das mulheres.

Imagem do Centro Histórico Nacional Frederick Douglass

Casa do líder abolicionaista Frederick Douglass, em Anacostia, Washington

Baltimore, Maryland

Além do Departamento de Estado de Americano, em Washington, os jornalistas visitaram a Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. O centro de ensino e pesquisa que tem mais de 130 anos de fundação, possui um Centro de Doenças que atende grupos minoritários da população, em especial, de afrodescendentes. O diretor do centro, Thomas Laveist, falou que a situação desta população nos EUA vai além da do status da saúde, ela está presente também nos poderes político e econômico, e juntos fazem com que os afrodescendentes não se desenvolvem como deveriam.

Thomas Laveist, diretor do Centro de Doenças da Universidade Johns Hopkins

Ainda em Baltimore, o grupo visitou a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, em inglês National Association for the Advancemente of Colored People), que desde 1909 luta pelos direitos de afro-americanos. A Associação é uma das mais antigas e mais influentes instituições a favor dos direitos civis, e combate a discriminação racial com duas frentes, a educação e as questões judiciais. Atualmente, a NAACP possui mais de 500 mil membros e 1.700 unidades ativas em todo o EUA, uma no Japão e outra na Alemanha, países onde os EUA tem representação militar. Os recursos da entidade são oriundos dos membros que pagam uma taxa na média de US$ 30,00. Entre os membros famosos, está a costureira negra, símbolo da luta anti-racista Rosa Parks e o reverendo Martin Luther King.

Na visita, os jornalistas foram recebidos pelo advogado e assistente geral do Conselho da Associação, Vitor Goode, que discorreu sobre os processos que a NAACP tem trabalhado, que tratam sobre as manifestações do “racismo sistêmico”, como exemplo ele citou casos que tem ocorridos nos estados de Carolina do Norte e Arizona. Segundo ele, este último aprovou uma lei que baniu o ensino de estudos étnicos nas Escolas do Estado. “Apesar de todo progresso e dos avanços, estamos no meio de uma batalha doutrinária e jurídica que influencia a aplicação dos direitos civis”, afirmou. De acordo com Goode, uma das batalhas enfrentadas pelo Departamento Jurídico da NAACP, é provar na justiça a discriminação racial, “nos últimos 30 anos, tem sido difícil provar a intenção de discriminar”, destacou. Segundo Goode, os juízes da Suprema Corte Americana estão utilizando uma nova interpretação da Lei que pune a discriminação, ao exigir que cabe à vítima provar a discriminação e que é necessária também ficar comprovada a intenção do discriminador.

Vitor Goode, responsável pelo Departamento Jurídico da NAACP

A Associação possui uma publicação oficial, The Crisis, fundada pelo filosófo e considerado pai do pan-africanismo W.E.B Du Bois, que aborda questões e assuntos como civil, história, política, cultura e tem o objetivo de educar e desafiar seus leitores sobre as questões que continuam a flagelar os afro-americanos e outras comunidades de cor. Segundo India Artis, umas das responsáveis pela publicação, a The Crisis é uma das revistas negras mais antigas dos Estados Unidos, “temos outras revistas que tratam dos afro-americanos, como a Ebony e a Black Enterprise, mas elas têm um foco mais de entretenimento, nossa revista é voltada para o pensamento, a opinião e análise, nestes 100 anos, a The Crisis publica opiniões de líderes, políticos, pacifistas e requerentes de justiça.”, destacou.

India Artis apresenta a The Crisis para os jornalistas

Atlanta, Geórgia

Na capital onde nasceu o líder pioneiro na defesa dos direitos civis e defensor da justiça social, Martin Luther King, o grupo de jornalista participou da IV Reunião do Plano de Ação Conjunta entre Brasil e Estados Unidos para Eliminação da Discriminação Etnorracial e Promoção da Igualdade (JAPER), que teve como tema “Uma chamada para Ação”.

Centro Martin Luther King, a cidade de Atlanta possui diversos espaços e locais em referência o líder

O Plano de Ação Conjunta foi assinado em março de 2008 pelo então Ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Edson Santos e pela secretária de Estado no Governo Bush, Condoleezza Rice. O Plano tem o compromisso de criar colaboração entre os dois governos, a fim de eliminar a discriminação racial e étnica, e promover a igualdade de oportunidades em ambos os países.

Estavam presentes na reunião o embaixador do Brasil, Thomas Shannon, o Ministro da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil, Eloi Ferreira, dentre outras autoridades do campo político. Durante os dois dias da reunião (20 e 21 de maio), grupos de trabalhos se reuniram para definir ações conjuntas em áreas como saúde, educação, cultura, comunicação e segurança pública.

O Ministro da SEPPIR, Eloi Ferreira participou da abertura da IV Reunião do JAPER

Dentre as ações e assuntos debatidos nestes dias, o Grupo Diretor, cuja representante brasileira é Magali Neves e da parte americana é o chefe do Escritório para o Brasil e Hemisfério Sul do Departamento de Estado, Milton Drucker, pretende desenvolver ações futuras em assuntos, como Habitação e alojamento público; Aplicação doméstica de leis e políticas antidiscriminação; Questões históricas e culturais que podem estar relacionadas com preconceito racial e étnico; e acesso ao crédito e oportunidades para capacitação profissional. A expectativa é que essas ações comecem a ser implantadas ainda este ano. Na ocasião, foram destacados que após a realização dos últimos quatro encontros (Brasília, Salvador, Washington, e Atlanta), a próxima fase será a de Planejamento, que se desenvolverá através de reuniões técnicas, a cada semestre, e reuniões anuais com participação do setor privado e da sociedade civil.

Representantes de governos, sociedade civil, setor privado e universidades participaram da reunião

Conferência – Dentro da programação da reunião do JAPER, aconteceu no dia 21 de maio, na Morehouse College (Universidade para estudantes negros de Atlanta) a Conferência A Influência da Mídia sobre a Percepção de Raça – trabalhando em prol da diversidade na mídia. Para falar sobre essa perspectiva, do lado brasileiro, foram convidados o publicitário e diretor executivo do Instituto Mídia Étnica, Paulo Rogério Nunes, a jornalista e coordenadora da Radioagência Nacional da Empresa Brasileira de Comunicação(EBC), Juliana Cézar Nunes. Do lado norte-americano, participaram o ator de cinema, TV e teatro, que atuou em séries como CSI: NY e City of Angels e em filmes de Spike Lee e de outros diretores, Hill Harper e a filha mais nova do Dr. Martin Luther King e de Coretta Scott King, Bernice King.

A conferência foi transmitida em tempo real pela Fundação Pedro Calmon, no auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, com a participação de mais de 200 pessoas, dentre elas, o Prof. Dr. Ubiratan Castro de Araújo, a secretária Luiza Bairros, o presidente da ACBEU, o cônsul dos Estados Unidos no RJ Daniel Aragon, a jornalista Ceres Santos, o presidente da ONG Omí Dùdú Bartolomeu Dias, além de estudantes e militantes do movimento negro baiano.

O ato Hill Harper falou sobre como a indústria interfere incisivamente no cotidiano e na auto-estima da população negra mundial. “Do modo como as coisas esta sendo tratados no Brasil, me afeta diretamente aqui no EUA, acredito que o negócio do entretenimento fez muita coisa mais para destruir a auto-estima dos jovens, mais do que toda a mídia junta”, destacou. Harper acredita que a mídia norte-americana, assim como a mídia brasileira, fazem com que o(a) jovem não sinta valor próprio, “estamos falando de um negocio predatório, que esta juntando o poder aquisitivo com o entretenimento”, resumiu.

Já para Bernice King, que começou sua jornada de oratória aos 17 anos, quando falou nas Nações Unidas e hoje dá palestras ao redor do mundo, a imprensa negra sempre teve dificuldade de contar a historia do cidadão afro-americano. “Existe um esforço para garantir que tenhamos uma voz e uma reflexão correta de quem realmente somos na nossa comunidade e cumpramos nosso papel de imprensa negra independente”. King ressalta que a situação está indo bem, mas acha que durante esse trajeto alguns se desvirtuaram e erros foram cometidos nesse sentido, como a perda da identidade. “Há uma tensão, da referência da imagem de quem eu sou, como afro-americano e ao mesmo tempo me assimilar culturalmente. Para nos integrarmos na sociedade, precisamos integrar nossa sistema de valor, de ter integridade própria”, defendeu.

Da esquerda para direita: os conferencistas Juliana Nunes, Hill Harper, Paulo Rogério e Bernice King

Uma das questões que mais foram comentadas durante a reunião foi sobre a eleição do primeiro presidente negro nos EUA, e como isso serve de influência para o Brasil. O publicitário Paulo Rogério Nunes, destacou que o impacto da imagem de Obama como presidente dos Estados Unidos foi muito forte para comunidade negra no Brasil, “Naquele momento, a mídia no Brasil, refletiu que Obama era um presidente mestiço e não negro. Essa é uma das grandes esquizofrenias brasileiras de dizer que supostamente o Brasil não é racista. Como um país que diz que não é racista nunca teve um presidente negro? Ter uma família negra na casa branca, refletiu não só nos EUA e no Brasil, mas sim em toda Diáspora Africana”, ressaltou. Apenas no governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva, o negro assumiu um cargo alto na política, o de ministro.

“O atual governo brasileiro assumiu pautas, como quilombolas, assumiu políticas públicas, que a mídia brasileira não publicizou. O fato do presidente priorizar as políticas de ações afirmativas, já é importantíssima”, acrescentou Juliana Cézar Nunes. A jornalista destacou em sua fala, as representações do negro na telenovela brasileira, que geralmente são colocados como marginalizados, “tudo depende do lugar de fala. Tenho observado que mesmo esses papéis privilegiados, uma coisa que marca muito é a fala ou melhor a não fala”. Para Nunes, as representações do negro na telenovela são equivocadas, “o final da história é sempre o silêncio”, resumiu.

A conferencista concluiu que é necessário que haja a troca de experiências, com o intuito de romper os estereótipos nos veículos, privados, públicos e comunitários. “Acho que os comunicadores negros precisam se conhecer, nos conhecemos poucos, a cultura americana chega no Brasil, mas é muito pouco”, destacou Juliana Nunes.



* A jornalista e co-editora do Correio Nagô Juliana Dias viajou a convite do Departamento de Estado Americano.

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Comentário de Valdina Oliveira Pinto em 4 junho 2010 às 0:26
Fico imensamente feliz por vocês. è isso aí ! Sigam em frente e e que mais oportunidades como essa estejam nos seus caminhos.
Muito Gunzo e Axé
Comentário de maria da conceição simões mirand em 31 maio 2010 às 22:44
Parabenizo a participação de nomes como Paulo Rogério, bem como o reconhecimento da Midia Étnica enquanto um veiculo de raça e trabalho sério. Acho que deveria ser socializada essa participação e seus frutos para além dos muitos muros, nossas comunidades devem tomar conhecimento da importancia da ação, do que foi discutido e do que foi exatamente o encontro.
Um abraço a tod@s.
Comentário de DAISE ROSAS DA NATIVIDADE em 31 maio 2010 às 17:58
Muito saber que estamos caminhando para um processo de ação, após tantas reuniões de estruturação. Acredito que teremos muito a ganhar com esta iniciativa conjunta, que por ora se apresenta. Espero que a mudança governamental, permita a sua continuidade e equilíbrio de perspectivas.
Comentário de GLÓRIA TAVARES em 31 maio 2010 às 15:09
Graaaande Jú!!!! Só nos resta agora, concretizar essas ações!
Comentário de anita de jesus costa em 31 maio 2010 às 13:35
Parabens Juliana, por ter uma grande, oportunidade de passar
informaçao, igualdade racial..tendo conhecimento na politica de
de outro pais,felicidades...abraço...
Comentário de Maria do Socorro Pimentel em 31 maio 2010 às 11:50
Parabenizo a cada representação brasileira presente no evento de tão grande significado para nós afrobrasileiros/as .Esperando, que as políticas internacionais e nacionais possam chegar a todo território nacional independente da região.Afinal,somos todas/os pertencentes da Nação Brasil.Que possamos ter acesso aos pontos fundamentais discutidos e oportunidade de participações nacionais.
Socorro Pimentel- Movimento Negro Organizado da Paraíba (MNOPB)
Comentário de Meiri Rocha em 31 maio 2010 às 11:29
Fico muito feliz pelo acontecimento deste evento e fico pensando como seria relevante se a nossa comunidade dos bairros populares pudessem ter acesso a estes eventos ou até mesmo saber das discussões e das pessoas que de uma certa forma a representaram. Sucesso Paulo!!!!

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