Jovens soteropolitanos fazem intercâmbio na França com projeto de artista franco-brasileiro

Redação Correio Nagô* – Tiago, Thaison, Tauan, estão ansiosos e não escondem a empolgação frente à ideia de viajar não só de avião pela primeira vez como também de conhecer outros países. Os três jovens fazem parte do projeto piloto do artista plástico Alexis Peskine, batizado de “EmPregos: ferramentas de cultura e identidade”.

“Este projeto é o meu bebê”, adianta Peskine, filho de pai francês e mãe soteropolitana.

Na madrugada desta terça-feira(15) nublada em Salvador, os três jovens que moram em bairros periféricos da capital baiana embarcam junto com Alexis para fazer um intercâmbio na França e em Marrocos. Serão três meses de contato com outras culturas e idiomas.

“Ainda não caiu a ficha que vou viajar. Estou super ansioso. Espero ver novas estruturas e interagir ao máximo com as pessoas. Já temos uma noção do idioma”, conta Tauan Paixão, 20 anos, que mora na Mata Escura e decidiu largar o estágio que tinha numa terceirizada no Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães (Salvador) para se dedicar à viagem.

Pago pelo próprio Peskine, os jovens tomaram aulas de francês para ajudar outros participantes do projeto na periferia de Paris. Além da capital francesa, o coordenador do projeto ainda tem alunos no Senegal.

Já Thaison Paixão, 19, irmão de Tauan, diz que recusou uma oferta de emprego. “É uma oportunidade grande”, prevê o jovem que guarda um grau de parentesco com o coordenador do projeto. “Ele é sobrinho de uma tia de minha mãe”, acrescenta.

Desde setembro de 2012, os três se encontram com uma frequência variável na sede da Fundação Pierre Verger, no bairro do Engenho velho de Brotas. Juntos e com contribuições de outros artistas plásticos, eles já construíram quatro obras que pretendem expor ainda este ano em Salvador, tendo como base o uso de pregos.

“Pensamos as obras e decidimos o que queremos expressar. Já fizemos quatro e, quando voltarmos, vamos fazer mais. Fazer arte é uma extensão de nossa vida”, diz Peskine.

As obras misturam ainda fotografias, pintura e técnicas como o uso dos pregos de nove tamanhos diferentes, dando efeito de alto relevo a suas obras. “Quero que a exposição seja no mês da Consciência Negra com umas 15 obras. Quando a gente voltar para o Brasil, cada um deles vai fazer uma obra e ter a gente como assistentes”, complementa.

Primeiro, os soteropolitanos vão levar o que aprenderam nos encontros do Engenho Velho de Brotas para os jovens da perifeira de Paris. Serão três semanas de experiências compartilhadas. Em seguida, vão para o Senegal participar de uma oficina por 30 dias. No itinerário, ainda vão a Marrocos ver uma exposição.

“Eu não prometi nada e eles já estavam envolvidos. Eles são sérios e comprometidos. Foi uma meritocracia. Avaliei também quem tinha acima de 18 anos para poder viajar”, conta Peskine sobre a seleção feita por ele mesmo.

Tiago já trabalhava com reciclagem na Fundação Pierre Verger. Os outros dois participavam de projetos na Mata Escura. “Durante meu projeto, ensinei também basquete e fotografia. Filmamos etapas de criação das obras. Eles são muito eficientes”, ressalta.

O coordenador do projeto, que já foi jogador de basquete, diz que pretende repetir a dose em Salvador e aumentar o número de jovens. O projeto tem o apoio da ONG Giving Back.

Raízes - “”Tenho raízes aqui e queria realmente entrar em contato com elas”. A mãe de Peskine morava no bairro de Cosme de Farias e conheceu o pai dele, francês, em Salvador. “Fui criado na França, mas todo ano vinha para cá. O meu ideal de vida é ter um pé aqui, outro em Paris, em Nova York e no Senegal. Quero viver transitando. O mundo fica mais familiar. Isso eu também quero transmitir aos meus alunos”, resume.

Com a paixão por viajar, o artista plástico diz que um dos lugares mais pacíficos que visitou foi o Senegal, para onde também vai levar seus alunos. “Tem muitos mitos sobre a África que as pessoas pensam de forma idealista ou negativista, mas todo mundo tem que experimentar conhecer esse continente que é muito grande”, relata.

Adotar diferentes nacionalidades também trouxe alguns aspectos negativos, segundo Peskine que não gosta muito da palavra “negativo” e acredita no pensamento positivo e na lei da atração.

Criado com negros e árabes, ele diz que a nacionalidade dele era com frequência questionada. Durante anos, Peskine relembra que chegou a lutar com sua arte para mostrar que era francês. “Hoje não me importo. Sou americano, francês, brasileiro. A identidade é muito maior que uma nacionalidade. Meu trabalho fala muito de estar acima disso”, defende o artista que se formou em pintura, em uma universidade dos EUA.
“Mas desde a minha infância, eu confrontei a discriminação por causa da minha cor na França. A polícia me bateu uma vez e ouvi muitos comentários racistas. Lá, tem recusa de aluguel e emprego por causa da cor”, complementa.

No Brasil, ele, que critica a abordagem policial, diz que a discriminação é amenizada quando mostra o passaporte. “Meus primos vivem essas coisas. Comigo é diferente porque mostro o passaporte e a polícia me deixa passar, mas não deixa de ser discriminação. A polícia não deveria agir assim”, opina.

Afirmação - Nas obras, Peskine mexe também com o tema. Nas telas, corpos retratam o negro de forma “positiva” e de estímulo à autoestima. Para ele, a grande maioria dos museus e espaços culturais trazem o negro escravo ou as religiões de matriz africana como única forma de representatividade negra.

O projeto desenvolvido pelo artista plástico está concorrendo para o Prêmio Funarte Arte Negra. “Agora não estou sozinho. Quero que todo mundo se desenvolva e meus alunos criem seus caminhos. Quero continuar a fazer esse tipo de projeto. O que eu quero já estou fazendo que é viajar, criar e trocar com as pessoas e que essas coisas tragam naturalmente sucesso e dinheiro. É importante se fazer o que se gosta”, finaliza.

*Por Anderson Sotero

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