Considerações sobre Juventude e Militância Negra

“As trancas, as correntes, a prisão do corpo outrora

Evoluiram para a prisão da mente agora

Ser preto é moda, concorda? Mas só no visual
Continua caso raro ascensão social”

(GOG. Musica: Carta a Mãe África.)

Danilo Lima

Graduando em Ciências Sociais - UFSCar
Coletivo Nacional de Juventude pela Igualdade Racial - Conajir

 “Homem, jovem, afro-brasileiro e militante do movimento negro”. Quantas questões político-sociais estariam contidas nessa breve afirmação? Pois para muito além do meu perfil, são também, com exceção talvez da postura militante, as características de centenas de milhares de pessoas neste país. Que mais teremos em comum? Em que isso implica, frente a um Estado dito democrático?

 Sobre a democracia já bem dizia Lélia Gonzalez, um ano antes de eu nascer, na marcha Zumbi dos Palmares em 1988,1: “Antes de ser uma democracia racial, esse país tem que ser efetivamente uma democracia".

 É interessante perceber o quanto os debates políticos tem ganhado espaço nas redes sociais, seja pelo simples fato do compartilhamento de uma imagem, seja por um comentário mais à esquerda ou à direita. Sempre há um gladiador pronto à enfrentar as feras da arena política no Facebook.

 A democratização do acesso à rede mundial de computadores está notavelmente se acentuando dia após dia, e essa certamente é uma das razões dos debates políticos se tornarem ainda mais públicos.  No entanto, ouvi de uma amiga, jovem, mulher e negra uma crítica interessante: “Não gosto da postura do Movimento Negro, é um movimento que precisa de convite para entrar.”

Ato do movimento negro no Vale do Anhangabaú – SP.

 Generalizações à parte, ao meu ver, é uma afirmação no mínimo curiosa. Entretanto, penso que os debates sobre a temática racial nunca estiveram tão disponíveis a todo e qualquer interessado. Nos últimos dez anos passamos por discussões públicas fundamentais no campo das políticas de igualdade racial: a aprovação da Lei 10.639, do Estatuto da Igualdade Racial, das Cotas nas universidades públicas, e recentemente também nos concursos públicos. Certamente, desde a constituinte de 1988, poucos temas ganharam maior envolvimento social que os direcionados à problemática das relações raciais.

 Mas essa afirmação também me remeteu a um aparente paradoxo: somos o Movimento Negro ou estamos no Movimento Negro?

 Bem, em minha trajetória, há um fato curioso que gostaria de compartilhar para esse debate: durante minha formação básica, desde a infância em nenhum momento tive contato, por exemplo, com a história da Frente Negra Brasileira - FNB, do Movimento Negro Unificado Contra Discriminação Racial, hoje o respeitável MNU, ou do Teatro Experimental do Negro - TEN de Abdias do Nascimento, nem tão pouco de importantes personagens de nossa história como Luiz Gama, Solano Trindade e Tereza Santos. Porem hoje boa parte dessas histórias sobre o nosso Brasil Negro, e mesmo da diáspora africana estão acessíveis. Como a coleção de História Geral da África, disponível para download na rede.2

 Mas não. Conheci o Movimento Negro por acaso, explico: até os 17 anos eu mesmo não sabia se quer que existam organizações negras espalhadas pelo país com suas várias formas de organização e militância. Antes de morar no centro de São Paulo não sabia o que era a Educafro, organização onde fui iniciado no Movimento Negro, e onde também mais tarde assumi a função de coordenador de juventude. Daquele momento em diante tive contato com outro universo, pois compor a militância negra organizada me possibilitou conhecer dezenas de outras iniciativas no campo da promoção da igualdade racial. E, desta experiência, o “ser um jovem negro nesse país” passou, então, a ter outros significados.

     Charge, Carlos Latuff, disponível em: http://ppaberlin.com/

 Particularmente, e assim como, acredito eu, para qualquer outro ativista pelos diretos humanos, vinculado a uma estrutura organizacional ou não, é motivo de indignação verificar quaisquer dos indicadores sociais nacionais, seja de distribuição de renda, qualidade de vida, saúde, educação, moradia etc.. Sobretudo, se fizermos um recorte racial ou seja, se analisarmos as especificidades da população negra em relação à população branca, a constatação é trágica. Nos quais, mesmo sendo metade da população a soma de pretos e pardos (51,3%), os negros figuram nas piores posições nesses dados e não representam hoje nem 1/3 dos postos de poder do país.

 Outro dado importante é que vivemos o período com a maior população jovem de nossa história (51 milhões3, o fenômeno chamado “onda jovem”), e a situação ainda se agrava se fizermos o recorte de raça e gênero. Desta forma entenderemos sem grande dificuldade, no que se refere à violência, porque de um lado a principal pauta de luta do Movimento Negro tem sido o enfrentamento ao genocídio da juventude negra, pobre e periférica.

 Segundo diagnóstico produzido pelo Governo Federal apresentado ao Conselho Nacional de Juventude – CONJUVE4  em 2010, 26.854 jovens entre 15 e 29 anos, foram vítimas de homicídio, sendo que 53,5% do total de homicídios do país; 74,6% dos jovens assassinados eram negros. E por outro lado, porque temos a necessidade de unir a militância negra contra os feminicídios (mortes de mulheres por conflito de gênero), que tem sido uma das principais causas da morte de mulheres no Brasil. Pois segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA5 a estimativa é que, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil feminicídios. Ainda segundo o estudo do IPEA, mulheres jovens e negras foram as principais vítimas do total (61%). Diante disso, faço coro com Carla Akotirene6 quando diz:

        “Compreendo que o racismo, agravado pelo machismo, constitui-se no principal motivador da perda do nosso   maior bem  ancestral, a saúde. Em 2014, não adiantará estarmos bem fisicamente, com as pernas fortes para nossas marchas, se mais uma vez não estivermos de mãos dadas para darmos adeus a todas as relações e emoções militantes tristes.”

 Sobretudo, mais do que atestarmos o terrível estado de marginalização e violência que afligem a juventude negra não é chegada a hora de repensarmos o nosso ser e fazer militante, seja na forma real ou virtual? E, se vivemos o maior fenômeno jovem da história do país, como a juventude brasileira tem se pensado enquanto um ator político, agora legitimado pela recente aprovação da Lei de nº 12.852/2013, o Estatuto da Juventude?

 Outros fatos importantes a se considerar são a necessidade de que a luta negra, para ser legítima, deva pautar as demandas reais da população negra, afastando-se do individualismo ou oportunismo político. E que as organizações negras não podem se tornar fortalezas ou feudos contemporâneos, mas em vez disso, que estejam sempre abertas à participação popular, principalmente, da juventude negra.

Jovens da ONG Educafro em protesto em frente ao Palácio do Planalto - Brasília.

O racismo é um problema sistêmico e estrutural que nos traz implicações de menor ou maior grau, em função da cor de nossa pele, idade, origem social (veja o texto de Eliane Brum: Os novos “vândalos” do Brasil) ou até mesmo do nosso endereço. Esses fatores podem ser determinantes para, inclusive, nossa expectativa de vida. Mas independentemente de quem somos ou de onde estamos sempre podemos reagir à opressão e a violência do racismo. Sendo assim, se nós jovens negros somos as principais vítimas da violência, que também sejamos os principais protagonistas da luta contra ela.

Nessas breves linhas escolhi lançar um olhar sobre o social, porém da perspectiva de um jovem afro-brasileiro. Longe de pretender esgotar esse debate, esse rascunho, mais pelo contrário, visa provocar e convidar à reflexão outras e outros jovens sobre sua condição neste país.

Referências:

1 http://www.youtube.com/watch?v=BFnvKcsLqJI [ACS2] 

2 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_%20content&view=article&id=16146

3 http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-09-05/com-51-milhoes-de-pessoas-juventude-brasileira-representa-desafio-para-governo

4http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-violencia-contra-jovens-negros-no-brasil/

5http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/09/lei-maria-da-penha-nao-reduziu-morte-de-mulheres-por-violencia-diz-ipea.html

6http://correionago.ning.com/profiles/blogs/ent-o-natal-e-o-que-fizeram-s-mulheres-negras-1


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