Juventude negra se une para combater o racismo nas Américas

Os países são distantes, os nomes diferentes, mas o objetivo é o mesmo: afirmar a identidade afrodescendente por meio da superação dos mecanismos que têm levado à negação dos direitos da juventude negra. Um dos principais avanços ocorridos, nos últimos anos nas Américas, é a mobilização e a participação popular da juventude para o desenvolvimento das comunidades oriundas da diáspora. Seja no Brasil, em Belize ou em Honduras, a juventude negra tem protagonizado e liderado espaços de poder em prol da criação de políticas públicas que a beneficie.


A partir da evidência de características e problemáticas que a atinge, em sua maioria, pela identidade de origem africana, a juventude dos países de Honduras, Nicaraguá, Panamá, Belize, Costa Rica, Brasil, México, Estados Unidos e Guatemala  reuniu-se no VI Encontro da Juventude Afrocentroamericana, na semana de 05 a 08 de agosto de 2010, na cidade de La Ceiba, em Honduras, para pensar, elaborar e propor aos chefes de cada nação a implantação de ações afirmativas voltadas para este segmento.


No encontro, os jovens discutiram as políticas de desenvolvimento da juventude afrocentroamericana no continente e criaram um plano de ação e de atuação em seus países, a fim de combaterem as desigualdades, ocasionadas pela discriminação racial. De acordo com Annaete Tifre, membro da Organização de Desenvolvimento Étnico Comunitário (ODECO) o principal objetivo do encontro, para além de proporcionar a troca de experiências, foi definir as demandas e traçar estratégias de fortalecimento da juventude. “Precisamos estar unidos para combater os problemas sociais e raciais que nos atingem. A experiência do Brasil, por exemplo, com as cotas raciais servirá para nós (juventude afro-hondurenha) como referência na implantação desta política no meu país e também na cobrança de sua efetivação”, destacou a jovem afro-hondurenha.

 

Políticas de Inclusão 

A América Central tem uma população de 40 milhões de habitantes, destes, 10% são afrodescendentes, e mesmo após a independência do continente há mais de 200 anos, está população ainda vive em níveis de exclusão, racismo, discriminação racial e em condições socioeconômicas deploráveis. Muitos desses problemas, segundo a Organização de Desenvolvimento Étnico Comunitário (ODECO), são provenientes da falta de vontade política das classes que controlam os estados; a falta de institucionalidade das organizações e comunidades afrocentroamericanas e a falta de lideranças comprometidas com a causa, principalmente a juventude.

Nesse sentido, com o intuito de intensificar a participação da juventude no crescimento das oportunidades e no avanço das lutas da população afrodescendente da América Central, a ODECO tem organizado encontros com a juventude de diversos países do continente, para ampliar a incidência desses jovens contra as mazelas ocasionadas pelo racismo.

“A atual situação da nossa população, em especial, da juventude afrocentroamericana é de empobrecimento e exclusão política, econômica, social, cultural e ambiental. Dessa forma, é muito importante construirmos e constituirmos uma união e uma base sólida para enfrentar as desigualdades que nos são inerentes, principalmente na educação” ressaltou o secretário de assuntos para juventude da ODECO, Ovilson Bermúdez.

Juventude afrocentroamericana reunida na sede da ODECO


O encontro, em sua sexta edição, teve como tema principal “Meio Ambiente e as Mudanças Climáticas” e, através dos debates em grupos, buscou-se fortalecer a capacidade de ação, incidência e participação dos jovens no âmbito cultural, social, ambiental e econômico. O intercâmbio de ideias e experiências para promover o desenvolvimento e enfrentar a exclusão social, a discriminação racial e a falta de participação juvenil foram os principais focos dos debates ocorridos nos quatro dias do encontro.

 

Ministério para os indígenas e afrohondurenhos

Umas das propostas que tem sido articuladas pelas organizações negras de Honduras é a criação de um Ministério para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas e Afrohondurenhos e Promoção de Políticas de Igualdade Racial (SEDINAPROPIR), tendo com base o modelo brasileiro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Secretaria Especial de Políticas para Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). O intuito das organizações é de que o ministério atue incisivamente na construção do fortalecimento da identidade negra do país.

Durante a abertura do encontro o presidente de Honduras, Porfirio Lobo Sosa ratificou um apoio absoluto às propostas dos jovens e com isso anunciou, para janeiro de 2011, a instalação do ministério. “É necessário que cada comunidade étnica e indígena melhore suas condições de vida e a criação deste espaço político será uma dos mecanismos para promover esta melhoria”, ressaltou Sosa.


Encontro foi inaugurado com a presença do presidente de Honduras, Porfírio Lobo Sosa

Nas duas semanas que antecederam o encontro, representantes da Assembléia Geral da Organização Negra Centro-Americana (ONECA) e da ODECO vieram ao Brasil visitar a SEPPIR, a fim de conhecerem o processo de construção e atuação da organização federal, que trabalha com as questões de igualdade racial e desenvolvimento das comunidades afrodescendentes brasileiras e levar este modelo para Honduras.

O gerente de programas Rui Mesquita e a consultora Trícia Calmon, ambos da Fundação W. K. Kellogg (organização internacional que atua com programas sociais em diversos países das Américas), participaram do encontro para visualizar a estrutura e a forma de sustentabilidade de organizações afrocentroamericanas, a fim de construírem uma fundação no Brasil que ajude na promoção da equidade racial no nordeste brasileiro. “Como jovem militante brasileira, foi igualmente enriquecedora a experiência, inspiradora a convivência com os outros jovens comprometidos com suas comunidades. Foi uma honra trazer, por fim, um legítimo tambor garífuna para colocá-lo na moradia da nova fundação que deve surgir no Brasil com a força do movimento negro brasileiro e da diáspora”, destacou Trícia Calmon.


Confira o que os representantes dos países da América Central falaram sobre a juventude afrodescendente de sua região:


BELIZE

Marlon Melendrez, do Conselho Nacional Garífuna
“Os jovens, em Belize, estão atuando, através de um grupo no Conselho Nacional Garifuna, lá temos debatidos os problemas que nos atinge, em principal, o problema racial, e procurando meios e alternativas de tornar a juventude mais atenta a essas questões. Atualmente, o maior problema que temos enfrentado é com relação à terra, pois é neste espaço, que nós a juventude garífuna*, temos para nos reunir, constituir família, trabalhar, dentre outras atividades”.

*Garífuna é uma etnia da América Central, que possui mais de 200 anos, formada por uma junção de índios da região e negros nigerianos.


GUATEMALA

Marta Castillo, da Associação de Mulheres Garífunas de Guatemala (ASOMUGAGUA)

“A juventude afrodescendente tem problemas que são universais aos jovens afrocentroamericanos, como a falta de oportunidades no mercado de trabalho, que gera o desemprego, e principalmente a falta de jovens negros nas universidades. Na Guatemala, são pouquíssimos os jovens que conseguem ingressar no ensino superior, isto ocorre, porque a maioria não possui uma educação de qualidade e muitos trabalham quase que o dia inteiro e não tem como manter-se na universidade. Atualmente, temos trabalhado para conquistar bolsas e políticas públicas que permitam a inserção desses jovens nesse espaço”.


HONDURAS

Annaete Tifre, da Organização de Desenvolvimento Étnico Comunitário (ODECO)

“Estamos unidos para fortalecer a juventude afrohondurenha e afrocentroamericana, através da participação da juventude, reivindicando nossos direitos e combatendo os nossos problemas. Acredito que nós podemos, através da união dessa juventude e das experiências dos jovens de cada país, construir uma política de incidência que nos favoreça. Atualmente, a maior problemática que temos em Honduras é a pouca participação dos jovens dentro das universidades, além do pouco acesso, os jovens não têm como se manter nas universidades e por isso estamos, através da Odeco, buscando bolsas para que esses jovens possam estudar e permanecer dentro das universidades”.


ESTADOS UNIDOS

Dinorah Palacios, da Hondureños Contra el Sida, em Nova York

“A juventude negra afrocentroamericana que vive nos EUA tem enfrentado um grande problema que é a assimilação da cultura norteamericana sob a cultura de nossos ancestrais. Na minha organização, temos trabalhado, através de programas de incentivos, para resgatar e preservar a cultura garífuna entre os jovens. Muito deles, às vezes não sabem nem falar espanhol, com isso estamos lutando para manter viva nossas tradições, costumes e cultura entre a juventude”.


COSTA RICA

Marshel Jackson, de la Juventud Afrocostaricense


“É importante encontros, como este, que possibilitam a união entre jovens de vários países da América Central para compartilharmos nossos problemas e buscarmos soluções. Um dos grandes problemas dos jovens da Costa Rica é com relação ao desemprego e a falta de acesso dos jovens às universidades. Esses espaços que para nós são caracterizados como espaços de incidência, dos quais a juventude afrocostaricense deve atuar, tem pouca participação dos jovens, devido à falta de políticas de ações afirmativas. Está é a segunda vez que participo desse encontro e percebi o quanto os jovens têm se unido para combater as desigualdades que nos atingem, seja no trabalho, na saúde, na educação e nos demais âmbitos”.


PANAMÁ

Marlon Jackman, da SAMAAP e ONECA

“É a quarta vez que participo deste encontro e a cada ano percebo a importância da juventude afrocentroamericana estar reunida e conectada em prol dos nossos direitos, para darmos seguimento a cada Plano de Ação que elaboramos anualmente. A partir desses encontros tenho crescido politicamente e quando retorno a meu país, procuro mobilizar mais jovens a entrarem nessa causa também, para perceberem a importância da união da juventude. A juventude afrodescendente do Panamá está criando uma plataforma de reivindicações para entregar ao governo que explicitam as nossas demandas, com o intuito de garantir oportunidades para essa juventude em diversos âmbitos”.


MÉXICO

Armando Serrano, da ODECA

“As pessoas pensam que no México não existe negros, existe sim, tanto que estou aqui para comprovar isso. E assim como em outros países da América Central, sofremos com os mesmo problemas, como a discriminação racial, que atinge principalmente a juventude afrodescendente, que não tem oportunidades no trabalho e na educação. Nosso projeto é fazer com que a comunidade e a juventude afromexicana se una para melhorar a sua situação no país, que nos exclui em diversos setores, é uma exclusão tão perversa, que nos nega enquanto mexicanos”.



Texto e fotos: Juliana Dias, repórter do Portal Correio Nagô

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Comentário de Ailton Oadq em 18 agosto 2010 às 15:38
Importante receber tal noticia e informação, parabéns.
Comentário de GLÓRIA TAVARES em 17 agosto 2010 às 15:08
Grande Jú! Cobertura completa. Informações riquíssimas.
Comentário de Inaiá Boa Morte Santos em 17 agosto 2010 às 14:16
JU, SINTO-ME BANHADO EM BALSAMO QUANDO RECEBO ESTAS NÓTICIA. PARABÉNS
MUITO AXÉ PARA VOCÊ
Comentário de André Luís Santana em 17 agosto 2010 às 11:35
Valeu, Jul, por trazer para a comunidade negra brasileira informações sobre a luta dos nossos irmãos afrocentroamericano. Conta mais sobre o povo garifuna e a importância deste tambor trazido por Tricia para o Brasil. Parabéns.
Comentário de Marilda Marcela da Luz em 16 agosto 2010 às 21:57
Como mulher negra, sinto-me honrada em ser representada por você Juliana, num evento de suma importância para toda a comunidade negra. Parabéns!
Comentário de Paulo Rogério em 16 agosto 2010 às 18:21
Parabéns, Juliana. O conhecimento da realidade social dos nossos irmãos da América Central é de importância fundamental para uma maior articulação entre a diáspora africana.

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