Construir o  Juventude Viva tem sido um exercício diário. No primeiro momento foi de aprendizado do que é ser do Governo Federal, depois  como  ser incisiva sem perder aliados ainda em fortalecimento. Com esse plano amadureci, chorei, combati e combato racismo direto, indireto e as vezes tenho que relembrar todo o processo de aprendizado de quando fazíamos militância nas periferias e Quilombos educacionais.Tenho que lembrar que há um investimento sobre mim,  construindo por militantes diversos. Com o Juventude Viva, agradeço a Steve Biko por ter me dado régua e compasso como diz Suide Kinte, ao  Instituto Mídia Étnica por nunca me deixar sozinha. Ninguém imagina o que foram os  primeiros momentos. Com o plano revisitei Malcolm X e vi na prática que nem todo preto é aliado e nem todo branco é inimigo, aprendi que tinha aliados de lugares que nem imaginava e que na hora “ H” não titubeou um só momento. Vou ser grata sempre ao povo do Ceará por me amparar em momentos cruciais.Estando no  Juventude Viva,  ouvi a voz de Sueli Carneiro todos os dias  dizendo “ as branquitudes se protegem e aparecem quando ameaçadas” em suas atuações e posturas cotidianas. Mas também coloquei em prática os aprendizados direto do  lugar que me deu a 2° vida que é a Casa de Oxumaré. Afinal, candomblé ensina a ter jogo de cintura, para conviver com a diversidade. Tenho aprendizados que serão únicos, e a melhor coisa de está neste plano é que não perdi de vista qual e com quem é o meu compromisso.

Tenho o compromisso de ser fiel a mim e as minhas convicções, porque para ter o diploma que tenho foi preciso a mão e  contribuição de cada militante negro, de cada vizinho meu que morreu, de cada amigo que convivendo no tráfico, me dizia “ vá se arrumar pra ir pra escola, porque você tem que tirar a  gente da cadeia”. Sou resultado de uma colcha de retalho construída da esperança de homens e mulheres negras e por isso, não abro mão de quem sou. Não me preocupo em ser simpática e amiga de quem não entende o que é esse processo, me desentendo e não sou de voltar atrás com quem não compreende o que é esse projeto, mesmo ainda não tendo os resultados almejados, realmente pra ele sou implacável.Temos  um ano e meio de vida e somos a coisa mais cara na perspectiva da institucionalidade. Somos a primeira ação governamental com recorte de raça e geracional diante disso ter o resultado que temos, já é um grande avanço porque como diz Vilma Reis “ Trocamos pneu com carro andando quando se trata da institucionalização de políticas sociais para homens e mulheres negras”. Precisamos ao invés de enfraquecer, colocar o Juventude Viva  no discurso de reeleição da presidenta Dilma e com isso fazer chegar ao discurso de todos os demais candidatos. As campanhas eleitorais, tem que naturalizar nossa existência e necessidade de unidade para mudar essa realidade tão vergonhosa. Como diz o chefe de Gabinete da Casa Civil Diogo Santanna  "a morte de jovens negros no Brasil, tem e precisa virar a nova fome no sentido de ser combatida". Ele tem que ser enfrentada de forma que cada jovem negro que tombar de maneira violenta, seja de responsabilidade coletiva.

Para cada preto no plano, a luta de combate ao racismo é tão forte e diária quanto à de qualquer um que está nas periferias. Militamos na institucionalidade e isso nem sempre é fácil. Temos que a todos os momentos ensinar, convencer e sensibilizar gestores que transformam o governo em suas visões e educação cotidiana. O juventude Viva em um ano tem como conquista mais valiosa, o convencimento e sensibilização de gestores em 9 estados e aproximadamente 70 municípios sobre o qual articuladores vem construindo o olhar sobre uma juventude invisibilizada. Para nós militantes negros, o sofrimento de uma parcela da população é algo obvio e resultante de uma política institucional que sempre nos invisibilizou, mas para alguns gestores, ainda ouvimos a pergunta  “ porque jovens negros ? ”. Esse grau de desconhecimento fruto de todo o processo já debatido e diagnosticado, faz com que somente agora alguns gestores e a sociedade humanize jovens negros. Portanto, a equipe Juventude Viva na Seppir Paulo Victor, Felipe Freitas e da Snj parabéns. Atuar em uma pauta onde  cada jovem tombado poderia ser um parente nosso não é fácil, não ter resposta em tempo hábil não é fácil.

Terminamos na sexta (06 \ 06) o momento de avaliação do que foi a construção do plano nesse um ano e recebemos reforços valiosos. Refém, Feijão, Jenair, Rogério ( com seu jeito único, mas extremamente nosso), Nazaré ( minha liderança), Daniel ( sem comentários) ter vocês é a certeza de que nossa pauta cada dia mais vai sendo ampliada. Saio com a certeza de que aos articuladores fica a tarefa mais poderosa e que eu compararia a tarefa de nossa ancestralidade maior o senhor dos caminhos Ogum,  abrir estradas nos municípios e estados pra que o plano chegue, tarefa essa que requer a sabedoria de Oxalá, pois fazer com que governo e município atue com participação social, em uma pauta tão delicada e veja os cidadãos que atuam nessa pauta como aliados e não inimigos ainda é algo complicado e inovador.  A esses fica ainda a  tarefa de Oxossi, de alimentar com a caça gorda da sabedoria e empoderamento, comunidades que até então nunca se consideraram cidadãos,  porque a única ação que os considera assim e chega é o braço armado do estado.

Hoje, consegui finalmente processar o que foi essa semana, Severine sem comentários de quanto você é nossa aliada, Rodrigo Amaral ( nem imagina o orgulho de ver você dentro da nossa pauta), nunca tinha ouvido ele falando institucionalmente. Fernanda e Efraim conviver com vocês é um aprendizado diário. Khatyana e James nem imagina o orgulho de ver o  amadurecimento de vocês  com relação a pauta negra, quando for embora do governo, sei que temos vocês, pois como diz  Silvio Humberto “ A questão racial é algo que depois que se tira a venda, não se enxerga nada como antes” não deixaremos técnicos, mas sim aliados. As pretas e pretos no plano que estão em  Brasília e Rio de Janeiro, nossa luta é diária e passa por um exercício de aprender a ser técnica de governo sem deixar de ser militantes, a nós sempre fica a tarefa mais complicada ser técnica sem perder o compromisso com nossas comunidades. Ensinar os técnicos a ter olhar negro sobre seus projetos, números, normas e portarias não é fácil, seremos sempre os “problemáticos, os racistas, os que não compreendem o tempo e forma de trabalho do governo" mas também estamos ensinando o governo a trabalhar de forma mais humanizada e com politicas sentidas no dia-a-dia.Como diz mainha “temos que ser o melhor e não dá lugar para que desqualifique nosso trabalho e falas” portanto melhor ser considerada dificil, mas com a certeza que cumprimos nosso papel do que perder o compromisso com a nossa população . Essa foi uma semana que lembrei muito de minha trajetória social, humana e política e chego a conclusão que vamos deixando nossa marca no mundo bem estilo da música  “ I was here” da Beyonce e senti orgulho de está nesse processo.

Ministro Gilberto Carvalho, a ética profissional não me permite citar seus feitos, mas agradeço publicamente por ter seus olhos “ pretos” neste processo. Ministra Luiza Bairros, que possa se fortalecer cada dia mais pra uma tarefa mais dura que será colocar o Juventude Viva  no plano de governo da presidenta, caso ela venha ser eleita. Como disse o  ex presidente Lula, se o Brasil deu um salto de desenvolvimento, foi porque teve a ousadia de investir nos mais pobres e os mais pobres no Brasil, infelizmente são homens e mulheres negras. Portanto, melhorar a qualidade de vida e cidadania da população negra, é melhorar o país em que vivemos. Mas uma vez nós homens e mulheres negras, damos exemplo de generosidade e responsabilidade com o Brasil, pois ao contrário de uma elite que prepara seus filhos para estudar fora e desenvolver outros continentes, queremos melhorar nossas vidas para melhorar o Brasil.

Portanto, a questão racial precisa ser entendida como uma tarefa coletiva, não é problema somente de nós negros, afinal, não criamos o problema. Durante anos deixamos de cuidar de nossos filhos para cuidar dos filhos de pessoas que continuaria o circulo de nos invisibilizar e achar que poderia condicionar nosso lugar de fala, mudar essa realidade é construir uma sociedade mais tolerante, pois conviver com a diversidade  dá outra visão de mundo. Não podemos continuar como diz o professor Hélio Santos: " desperdiçando talentos por conta do racismo".

Para quem não conhece o plano, segue o link: http://www.juventude.gov.br/juventudeviva/

Luciane Reis, Publicitária, membro da equipe de coordenação do Plano de Prevenção a Violência Contra a Juventude Negra da Secretaria Nacional de Juventude da Presidência da República - Juventude Viva, Yawó da Casa de Oxumaré.

Exibições: 183

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Comentário de Valdir Campos Estrela em 5 setembro 2014 às 15:23

Lu, que lindo e forte texto. Se fosse lido no Fantástico por Lázaro Ramos faria o povo inteiro chorar como diz Antonio Adolfo em Sá Marina, pérola do cancioneiro popular brasileiro consagrada na voz do negro martirizado pelo status quo branco Wilson Simonal. Cada palavra escrita que me fez marejar os olhos contém a sua vida e de milhões de negras e negros. De fato dá orgulho saber que aquela preta linda criada na periferia da Roma Negra, culturalmente bela e perversamente desigual cresceu a ponto de se tornar uma jovem liderança política nacional da juventude negra e uma qualificada referência institucional em um tema fundamental para o futuro do Brasil: políticas para a juventude brasileira. Já coroei como boa parte da militância negra mas tô na luta e tô junto com vocês jovens guerreir@s negr@s pro que der e vier. Como vc bem enfatizou: a luta por igualdade racial é de todos, pois, não fomos nós que inventamos a desigualdade racial, porém, alguém precisa assumir o leme dessa luta. Quem melhor para isso do que os próprios intelectuais orgânicos das próprias camadas oprimidas? Bj Axé..             

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço