Estudar as religiões de matriz africana, no Brasil, e seu universo ritualístico representa um mergulho de quatro séculos da nossa história. Existe uma diversidade ritualística do culto aos orixás entre as diferentes regiões do Brasil, embora toda a tradição provenha da “Mãe África”. Os orixás atravessaram o Oceano Atlântico dentro do coração do negro escravizado, sendo uma das formas de sua resistência cultural.  

    Em recente pesquisa na Universidade de Emory, em Atlanta, foi registrado 4,8 milhões de escravizados que vieram para o Brasil. A caminho do Rio de Janeiro, que era a porta principal de entrada de navios negreiros, 300 mil morreram, tendo o mar como sepultura.    

   A expressão “Calunga Grande”, que, em yorubá, significa cemitério, é bastante utilizada pelos praticantes de cultos de matriz africana numa referência ao mar. Este serviu de sepultura para os escravizados que morriam ou adoeciam, gravemente, durante o transporte nos tumbeiros.

cand11

   

          Tratados como animais, os escravos eram transportados nos tumbeiros (navios negreiros), nos quais se misturavam negros de diferentes locais da África, falando dialetos diversos. Esta era a forma de dificultar a comunicação entre os mesmos, enfraquecer a sua identidade cultural, enquanto grupo étnico, visando a anular, desta forma, uma articulação de insurreição, durante o transporte, ou uma fuga em massa. O tratamento desumano e  o sofrimento dos escravizados nestas embarcações, foram denunciados no épico poema “Navio Negreiro” do Castro Alves (1847-1871).  Este clássico de nossa Literatura registra a situação dos negros africanos que eram tirados da sua terra e trazidos para o Brasil na condição escravos. Segue, abaixo, uma estrofe desta obra magnífica da nossa poesia que, atravessando gerações, continua a  encantar por sua grandeza e qualidade literária. 

 

V   

“Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?...

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão! “

 

         
                                                

       No Brasil, seus orixás foram sincretizados com os santos católicos, para driblar a cultura dominante branca e cristã, a exemplo de Yemanjá associada à Nossa Senhora dos Navegantes. Este capítulo é do conhecimento da grande parte dos interessados no estudo da cultura africana; porém a questão  à qual se deve estar atento, nesse processo de aculturação imposta, é a forma como tem sido tratado este legado religioso, deixado por nossos ancestrais.  Infelizmente, em nosso cotidiano, percebemos de diferentes formas o mercantilismo desrespeitoso e de má fé, que se utiliza do universo magístico desta tradição milenar.

      

     

      A mistura de diversas Nações de Orixás, oriundas de diferentes regiões da África, torna este resgate histórico bastante difícil, embora o empenho dos pesquisadores, ligados, principalmente, às áreas da História e da Antropologia.  O Batuque ou Nação dos Orixás, como é conhecido no Rio Grande do Sul, tem suas raízes nos cultos dos povos da Costa da Guiné e da Nigéria representado pelas nações Jêje, Ijexá, Oyó, Cabinda e Nagô. O Batuque não possui um livro escrito de cunho sagrado, a exemplo da Bíblia, primeira obra impressa, em 1455, a partir da prensa criada pelo alemão Gutenberg. Na inexistência de um registro escrito, o conhecimento, baseado na tradição oral, constituiu-se num canal de perpetuação das religiões de matriz africana, até os dias de hoje, ainda que tenham ocorrido adaptações ao longo do tempo.[1]

      

       É notório que os interesses econômicos invadem os “terreiros” que representam o espaço sacralizado de uma cultura e a sua forma de comunicação com o Divino ( Orum), transformando o culto aos orixás numa simulação para "Inglês ver”. O sagrado não pode ser banalizado, na forma de um grande pregão, onde tudo se vende, incluindo felicidade. Diante desse quadro, faz-se urgente uma análise crítica e reflexiva quanto aos reais valores espirituais legados pelos nossos ancestrais, pois estes fazem parte do cadinho, no qual se formou o povo brasileiro marcado pela diversidade cultural de vários Brasis.  

  Kolofé Olorum!  (Deus nos abençoe).

 

                                     Pesquisador e Coordenador do setor de imprensa do Musecom*

 

Bibliografia:

  FERREIRA, Walter Calixto (Borel). Agô-iê, vamos falar de orixás. Porto Alegre: Renascença, 1997.

  CORREA, Norton Figueiredo.  O Batuque do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: Ed. Universidade/ UFRGS, 1992.

   ORO, Ari. Religiões Afro-brasileiras do Rio grande do Sul: Passado e presente. Estudos Afro-Asiáticos vol. 24, nº 02, Rio de Jane



[1]  Infelizmente, com o tempo muitos dos rituais iniciáticos e de formação de novos sacerdotes

( aprontamento) foram se adaptando e perdendo  algumas características  originais.

Exibições: 846

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço