por: Danilo Lima

          É fato que o corpo negro escravizado construiu este país, seja cedendo seus braços ao trabalho, a produção, seja cedendo o seio farto de leite, o alimento nutritivo, à prole branca. O Brasil deve muito ao seu povo e principalmente ao povo negro, mas parece não ter consciência dessa divida.

                                                             (Revolução Haitiana 1791 a 1804)

     Historicamente lutamos pela preservação do que é nosso. Desde África há resistência negra, preservando a cultura, a religião e os valores que ainda hoje são constantemente violentados. “A casa grande jamais voltou os olhos para a senzala sem subjuga-la”.

          Mas resistimos, bravamente resistimos, e lutamos pela liberdade de nossa prática religiosa, por educação, saúde, trabalho, trabalho moradia de qualidade e fundamentalmente por igualdade de oportunidades. E o que há de mal nisso? Por que tantos se voltam contra as políticas afirmativas, sociais ou inclusivas que defendemos?

          Entendo que parte do problema é que os historicamente os privilegiados não reconhecem sua posição social, como bem diz Leopoldo Duarte em  seu texto recente “Se o mundo é racista não ser alvo de racismo já é um modo de gozar ...” Afinal a miscigenação brasileira não se verifica nos postos de poder do país.

         É necessário observar que quando o movimento negro, historicamente, denuncia a violência e as práticas genocidas contra a população negra e principalmente contra sua juventude, ele se mobiliza em favor da vida, que é um direito universal.

         É fato que a luta do movimento negro por políticas afirmativas de cotas raciais abriu também as portas da universidade pública para alunos brancos e carentes das escolas públicas.

        É fato que a luta por emancipação da mulher negra emancipa também a sociedade brasileira, considerando que negros somam mais da metade da população brasileira e que essas mulheres negras são, em suma maioria, as responsáveis pelo sustento de suas famílias.

        Mas como indica o professor Adilson Moreira, no Brasil temos uma elite branca de classe media alta, majoritariamente masculina e heterossexual, que se demonstra irredutível quanto a deixar sua posição social privilegiada, e que manda no país a partir dos postos de comando que ocupa.

        Não obstante, alguns oportunistas ainda burlam as políticas que tão duramente construímos para inclusão social do negro e tentam, mais uma vez, se beneficiarem do nosso sacrifício entrando nas vagas reservadas para negros nas universidade públicas, como ocorreu na UERJ, ou fraldando concursos públicos, como os denunciados pela Educafro em SP, ou ainda nas vagas para diplomacia  no Itamaraty.

        Se somos a maioria da população brasileira, se temos a exata consciência que o Estado brasileiro nos deve, e muito, se mesmo lutando por direitos universais somos excluídos e discriminados, se quando conquistamos direitos nos roubam as oportunidades, se sabemos que o racismo é um projeto de dominação que nos subalterniza, lhes pergunto, ansioso pela resposta: O que tem anestesiado a revolução negra contra o privilégio branco no acesso às oportunidades nesse país?

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