"Mais médicos negros virão de mais negros universitários", por Flávio Passos

A ausência de médicos negros na periferia e na zona rural brasileiras está diretamente relacionada com a ausência de estudantes dessas regiões nos cursos de Medicina.

Flávio Passos*

O ano de 2013 já pode entrar para a história como tendo sido marcado, por um visível recrudescimento, no Brasil, da onda reacionária vinda da requentada Casa Grande. No entanto, esse conjunto de situações reflete, não só o medo por parte de quem não aceita mudanças de paradigmas propulsoras das transformações sociais e políticas, mas também serve para percebermos os avanços em termos de consciência e das conquistas da cidadania negra no Brasil. E os revezes da direita nos dão a dimensão da complexidade que é este país.

No início do ano, a Comissão Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal passa a ser presidida por Marco Feliciano, pastor fundamentalista, declaradamente homofóbico, sexista e racista, o qual, além de permanecer no cargo – não obstante milhares de manifestações nas ruas e nas redes sociais – foi um dos articuladores do projeto denominado “Cura gay”. Em fevereiro, a mídia solidarizou-se com a indignação das madames contra a aprovação da PEC das domésticas. Um mês depois, a virulência das campanhas midiáticas a favor da redução da maioridade penal. Em maio, intensificou-se a sistemática criminalização das lutas indígenas no Mato Grosso do Sul e Bahia. Em junho, o Brasil assistiu atônito à centenas de manifestações perigosamente esvaziadas das bandeiras sociais. Em julho, todo o recuo à proposta da tão premente Reforma Política. Soma-se a essas reacionaridades o não aprofundamento do debate sobre a necessária desmilitarização da polícia militar que continua matando Maicons e Amarildos impunemente.

No final de junho, ainda sob os ventos das manifestações que chacoalharam o país, manifestantes vestidos de jalecos, bem mandados e resguardados por organizações corporativistas médicas, bradaram, em passeatas sem pautas populares, palavras de ordem – e ira – contra o anúncio do programa “Mais Médicos”. Os mesmos que, em agosto, mobilizaram mais de 17 mil falsas inscrições para o programa. Não bastassem fazer feio em casa, eles foram praticar mais violência na chegada dos colegas cubanos aos aeroportos. Os médicos da Ilha Socialista já assustavam pela medicina que trazem no coração e nas mãos. E, de repente, ao desembarcarem, trazem no silêncio de sua cor uma mensagem gritante que nos desmascara enquanto um país igualmente negro, comparado a Cuba. E contra os colegas espanhóis e portugueses não se viu essa fúria.

Uma fúria racista expressa nos comentários da jornalista potiguar na rede social ao dizer que médicos tem que ter “postura” e “cara”, chegando a declarar que a “aparência de empregada doméstica” das médicas cubanas colocaria em xeque a sua credibilidade profissional. Ela chega a dizer ter pena da população que será atendida pelos médicos cubanos. Num cúmulo do cinismo, mesclando ironia, xenofobia e racismo, ela insiste no critério da “boa aparência” enquanto garantidor da confiança “imposta” dos médicos. E lembrar que essa exigência continua implícita em anúncios de empregos para domésticas, vendedoras e secretárias, mesmo com as leis antirracismo vigorando no país. No entanto, ainda aguardamos a veiculação de uma digna matéria na TV aberta sobre a expectativa das comunidades e suas lideranças quanto à chegada de médicos para atendê-los. É preciso desmascarar o racismo que, nas duas pontas do processo, na porta da universidade e na porta do posto de saúde, barra o acesso da população negra á saúde pública de qualidade.

E eis que, há duas semanas, o governo federal acertou em cheio ao começar trazer os quatro mil médicos cubanos. E é a população majoritariamente negra a que mais precisa e não tem quem vá lá porque quem se forma (99% de brancos) em Medicina no Brasil – com nosso suado dinheiro – acha que sua profissão tem “muito valor" pra ser desperdiçada com pobres (e negros). Essa mesma elite branca e raivosa abomina cotas raciais, por não querer perder a perpetuação do loteamento dos espaços de poder e privilégios e por querer manter o restante da população nos "lugares" de sempre. O “medo branco da onda negra” ainda está bem vivo. Após 10 anos do início da instituição das cotas no ensino superior, mais de 90% dos alunos de Medicina ainda são brancos, mesmo na Bahia. E isso também é reflexo de nossa estrutura racista de sociedade.

Demorou para que o governo federal resolvesse agir com coragem e encarar o classismo dos enjalecados, na busca de garantir serviços de saúde para os mais pobres, investindo na recuperação da qualidade da atenção

básica, uma das bases da medicina preventiva e que pode solapar o modelo de uma saúde pública transformada em um balcão de vendas dos laboratórios transnacionais.

Um governo que, ao priorizar o social, não mexesse na estrutura mercantilicista do sistema de saúde brasileiro, continuaria a reproduzir os mecanismos racistas que mantém as assimetrias sociais e raciais. Nesse cenário, é preciso corrigir o que aconteceu com o Programa "Ciências Sem Fronteiras" que, ao enviar mais de 30 mil pra estudar fora excluiu os pobres e os negros, ao exigir dos candidatos um bom desempenho acadêmico e o domínio da língua do país de destino.

É hora de a população sair às ruas em apoio à chegada dos médicos, especialmente, os cubanos. E que essa pauta alcance, além das manifestações contra as posturas do Conselho Regional de Medicina, em São Paulo, os demais CRM’s e a sede do CFM, em Brasília. O momento é agora. Acolher bem os médicos brasileiros ou estrangeiros será um passo importante na consolidação de um novo paradigma na saúde. Acolher e fiscalizar que eles estarão lá cumprindo sua agenda. Já nesse segundo dia de apresentação às Unidades de Saúde, vários municípios registraram casos de desistência dos médicos contratados, alegando “falta de estrutura”. A realidade nua e crua desconcerta.

Nas Pedrinhas, bairro negro e estigmatizado de Vitória da Conquista, cuja Unidade Básica de Saúde tem passado, nos últimos anos, por alta rotatividade de médicos, um dos quatro médicos do "Mais Médicos" começa suas atividades esta semana. É a comunidade da periferia sendo respeitada pelo poder público, em seu direito à política pública de qualidade. O mesmo bairro que tem a jovem Jolucia Alves Santos iniciando esta semana o curso de Medicina na Escola Latino-americana de Medicina, em Havana, capital cubana, através de uma bolsa integral conquistada através da Rede Educafro de Cursinhos Comunitários, em 2012.

Entretanto, precisamos ir além da acolhida aos médicos estrangeiros. O que já aprendemos nesse momento é que a ausência de médicos negros na periferia e na zona rural brasileiras está diretamente relacionada com a ausência de estudantes dessas regiões nos cursos de Medicina. Não adianta esperarmos que os filhos da burguesia formem-se em Medicina e vão atender de bom grado para além das fronteiras de seu mundinho. O Governo Federal precisa garantir uma medida que promova o real ingresso, permanência e formação de qualidade de pobres, negros e negras nos cursos de Medicina, daqui e de outros países. Não é aceitável que a quinta economia mundial trate os sonhos de sua juventude com descaso.

Acolher os médicos cubanos é importantíssimo. Tão importante quanto é acolher os médicos que estão reprimidos dentro de milhares de jovens pobres, negros, indígenas, quilombolas e das demais comunidades tradicionais nas periferias do Brasil. As formas existem, ao menos, enquanto possibilidades: FIES MEDICINA, Bacharelado Interdisciplinar de Saúde (UFBA), PROUNI, COTAS, CIÊNCIAS SEM FRONTEIRAS. O governo federal precisa investigar o porquê esses programas não têm sido suficientes para formar mais médicos negros.

A criação de pré-vestibulares específicos para as populações tradicionais é uma forma de promover o real preenchimento das vagas reservadas para negros e pobres e as vagas adicionais específicas para quilombolas e indígenas. Em Vitória da Conquista, desde 2009, o Pré-Vestibular Quilombola, mantido pela Prefeitura Municipal enquanto política pública de ação afirmativa, através do Núcleo de Promoção da Igualdade Racial, mobiliza o voluntariado de 20 professores e as parcerias com o Conselho das Associações Quilombolas do Território e a UESB, tendo já promovido a aprovação de 143 quilombolas nas universidades públicas da Bahia, inclusive, para Medicina. Dos atuais 60 alunos, 03 buscam a realização de serem médicos e voltarem para atuar em suas comunidades. O cursinho quilombola também mantém o Núcleo Medicina Conquista, projeto de mobilização e preparação para candidatos a Medicina e que cursaram escola pública. Acredito que medidas dessa natureza ajudem com que muitos jovens das comunidades pobres olhem para o seus sonhos com outra perspectiva.

Concretamente, espero que o Governo envie milhares de jovens brasileiros pra cursar Medicina fora do país – em especial, para CUBA – o que sairá relativamente mais barato que um curso particular aqui no Brasil ou que a manutenção de médicos estrangeiros a R$10.000,00 reais por mês. Que haja um significativo investimento na formação de novos médicos - "especialistas em gente", como disse o ex-ministro Jatene. E tal ação – incluindo as universidades brasileiras – só será um passo efetivo na superação do racismo se, no mínimo, 50% das vagas para Medicina forem para jovens negros e negras, filhos e filhas das guerreiras empregadas domésticas das quatro regiões do país. Respeito e Reparação, já!!!

Flávio Passos é militante negro, mestre em Antropologia pela PUC-SP, professor de Filosofia no Colégio Estadual Carlos Santana, em Belo Campo, BA, e assessor técnico no Núcleo de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Contato: br2_ebano@yahoo.com.br

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