Marighella: inimigo público número um da ditadura recebe anistia política e homenagens do Estado brasileiro

O jovem Carlos Marighella

“Liberdade”: Não ficarei tão só no campo da arte, e, ânimo firme, sobranceiro e forte, tudo farei por ti para exaltar-te, serenamente, alheio à própria sorte. Para que eu possa um dia contemplar-te dominadora, em férvido transporte, direi que és bela e pura em toda parte, por maior risco em que essa audácia importe. Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma, que não exista força humana alguma que esta paixão embriagadora dome. E que eu por ti, se torturado for, possa feliz, indiferente à dor, morrer sorrindo a murmurar teu nome. - Carlos Marighella
Marighella será homenageado pela Comissão de Anistia

SÃO PAULO - Considerado inimigo público número um da ditadura, o guerrilheiro e democrata Carlos Marighella será homenageado na segunda-feira, dia do centenário de seu nascimento, pela Comissão de Anistia. A família dele receberá, em Salvador, cidade natal do ex-líder da Ação Libertadora Nacional (ALN) , o pedido formal de desculpas do Estado brasileiro por causa da perseguição política que sofreu ao longo de toda a vida.
Entre parentes e companheiros, o evento, em que será concedida a anistia política ao guerrilheiro, é visto como símbolo de resgate de sua figura e da luta contra a ditadura.

— Pode fazer com que novas gerações se interessem em conhecer a importância do Marighella ao país — diz Clara Charf, viúva do líder da ALN.

— É o coroamento de 40 anos de luta para fazer com que o país conheça uma figura que viveu condenada a um silêncio total por todo esse período — afirma Carlos Augusto Marighella, filho do guerrilheiro com Elza Sento Sé.

Em 1964 tiro recebido ao resistir a prisão

Filho afirma que imagem de Marighella foi destruída
Para Carlos Augusto, a ditadura militar teve a preocupação de destruir a imagem de seu pai.
— Não permitiram que a família tivesse o direito de sepultá-lo. Ele era apresentado como um facínora, um terrorista. O inimigo da pátria.
Sueli Bellato, uma das vice-presidentes da Comissão de Anistia, acredita que a concessão da anistia pode ajudar a sociedade a ter mais informações sobre o papel do guerrilheiro na luta pela democracia e na construção da história do Brasil.
— A concessão da anistia traz a possibilidade, aos que não tiveram acesso na academia a esse período histórico, de saber o que aconteceu e reconhecer qual foi a contribuição que pessoas como Marighella quiseram dar ao nosso país — afirma.
A homenagem acontecerá no Teatro Vila Velha, a partir das 15h. A família entrara com o pedido de anistia política neste ano, e o processo será julgado no evento. Não houve pedido de indenização. Na ocasião, também será lançado o Pró Memorial Marighella Vive, que irá reunir acervo sobre o ex-líder da ALN. Ainda em razão do centenário, no dia 15 dezembro ocorrerá um evento na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio. Vão participar também a OAB , o MST, o Grupo Tortura Nunca Mais, a Fundação Dinarco Reis (ligada ao PCB) e a Rede Democrática.
A ideia dos organizadores é dar início ao Ano Marighella, com atividades, palestras, debates e seminários pelo país. Sindicatos de professores também serão procurados para que a história do guerrilheiro seja levada à sala de aula.
No Rio, PCB concede medalha Dinarco Reis
No evento em homenagem a Carlos Marighella, previsto para o dia 15 no Rio, o PCB, partido com o qual o guerrilheiro rompeu em 1967 por defender a adoção do confronto armado contra a ditadura, vai entregar a medalha Dinarco Reis à família dele.
— Nós nos orgulhamos de ter tido Marighella em nossos quadros — diz Ivan Pinheiro, secretário-geral da legenda.
Durante o Estado Novo, Marighella ficou preso entre 1939 e 1945 por causa da militância no PCB. Antes da implantação do Estado Novo, mas já no governo Getulio Vargas, havia sido preso outras duas vezes. Anistiado, foi eleito deputado federal constituinte em 1945. Em 1948, no governo Eurico Gaspar Dutra, os comunistas foram cassados e ele voltou à clandestinidade.
O rompimento com o PCB, onde militava desde os anos 30, na Bahia, aconteceu após conferência de líderes latino-americanos, em Cuba, para organizar a luta contra governos militares. Um telegrama do PCB desautorizou sua participação. Na volta ao Brasil, ele fundou a ALN e iniciou a luta armada.
Carlos Eugênio Paz, o último comandante da ALN

Assalto ao trem pagador e manifesto na Rádio Nacional

Para Carlos Eugênio Paz, membro da ALN, as principais ações do grupo foram o assalto ao trem pagador, em São Paulo, e a tomada da antena da Rádio Nacional, em Diadema, para transmitir um manifesto. Marighella lançou, na época, o "Manual do guerrilheiro urbano". Em 1969, a ALN foi convidada pela Dissidência Comunista da Guanabara para capturar e prender o embaixador americano Charles Burke Elbrick.
-— O Marighella era contra realizar a captura naquele momento. Considerava arriscado. Depois que houve a prisão do embaixador, divulgou apoio — lembra.
Os militares aceitaram a exigência de libertação de 15 presos políticos. Mas, após o fim do sequestro, em 6 de setembro, o cerco aos grupos guerrilheiros e o combate a democracia foi intensificado pelos militares e as multinacionais que colaboravam com a ditadura.
Às 20h de 4 de novembro de 1969, Marighella foi à Alameda Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo, se encontrar com dois frades dominicanos. A ordem apoiava a ALN. Mas os frades tinham sido presos três dias antes. No local do encontro, Marighella foi surpreendido pelo delegado Sergio Paranhos Fleury e morto com cinco tiros. O guerrilheiro e a mulher viviam no apartamento de um companheiro em São Paulo.
— O dono da casa tinha ficado de ir buscar Marighella. Mais ou menos 9h da noite, o companheiro entrou e eu disse: Cadê o Marighella? Aí, ele falou... — lembra a viúva Clara Charf, de 86 anos, bastante emocionada.
Clara conta que o marido manifestava a intenção de jamais se entregar caso apanhado e andava com duas cápsulas venenosas de cianureto.
— Ele não se entregaria nunca. Foi torturado várias vezes, achava que era impossível se deixar prender. Ele quase morreu em outras vezes.

Com informações do Rede Democrática 

Leia também:

Exibições: 328

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Comentário de BlogueDoSouza em 5 dezembro 2011 às 12:16

Marighella, poeta, político, guerrilheiro negro, herói e orgulho do povo brasileiro.

Comentário de Instituto Mídia Étnica em 5 dezembro 2011 às 11:42

Sua vida

Carlos Marighella nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de 1911. Era filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos haussás, conhecidos pela combatividade nas sublevações contra a escravidão.

De origem humilde, ainda adolescente despertou para as lutas sociais. Aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista, dedicando sua vida à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo.

Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos universitários no 3o ano, em 1932, quando deslocou-se para o Rio de Janeiro.

            Em 1o de maio de 1936 Marighella foi novamente preso e enfrentou, durante 23 dias, as terríveis torturas da polícia de Filinto Müller. Permaneceu encarcerado por um ano e, quando solto pela “macedada” – nome da medida que libertou os presos políticos sem condenação -- deixou o exemplo de uma tenacidade impressionante.

Transferindo-se para São Paulo, Marighella passou a agir em torno de dois eixos: a reorganização dos revolucionários comunistas, duramente atingidos pela repressão, e o combate ao terror imposto pela ditadura de Getúlio Vargas.

Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia. Na CPI que investigaria os crimes do Estado Novo o médico Dr. Nilo Rodrigues deporia que, com referência a Marighella, nunca vira tamanha resistência a maus tratos nem tanta bravura.

Recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo seis anos seguintes, ele dirigiria sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia.

Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na legalidade. Deposto o ditador Vargas e convocadas eleições gerais, foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Seria apontado como um dos mais aguerridos parlamentares de todas as bancadas, proferindo, em menos de dois anos, cerca de duzentos discursos em que tomou, invariavelmente, a defesa das aspirações operárias, denunciando as péssimas condições de vida do povo brasileiro e a crescente penetração imperialista no país.

Com o mandato cassado pela repressão que o governo Dutra desencadeou contra o comunistas, Marighella foi obrigado a retornar à clandestinidade em 1948, condição em que permaneceria por mais de duas décadas, até seu assassinato.

Nos anos 50, exercendo novamente a militância em São Paulo, tomaria parte ativa nas lutas populares do período, em defesa do monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização da economia. Cada vez mais, Carlos Marighella voltaria suas reflexões em direção do problema agrário, redigindo, em 1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, o primeiro de uma série de análises teórico-políticas que elaborou até 1969. Nesta fase visitaria a China Popular e a União Soviética, e anos depois, conheceria Cuba. Em suas viagens pôde examinar de perto as experiências revolucionárias vitoriosas daqueles países.

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2020   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço