Por Luciane Reis

Todo ano eleitoral é isso. Reunião dos movimentos sociais com os candidatos negros que mesmo com seus nomes nas legendas, poucas são as possibilidades de sucesso eleitoral. Afinal esses entram sem nenhum apoio do partido (falo dos que tem compromisso com a pauta de raça e gênero) e são aceitos para garantir um coeficiente de paridade do TRE. Política importante, mas ainda para inglês ver, afinal por falta de ações mais enérgicas, ela acaba por justificar o machismo e racismo. Fortalecendo argumento de que não se elegeram por não ter “base” e o “partido fez sua parte, até apoiou”.

Salvo uma ou outra candidatura que venho acompanhando a algum tempo, nossas candidaturas pretas já saem com a certeza do fracasso, afinal voto disperso não elege ninguém. Precisamos se quisermos sair de fato eleito, construir um processo de conscientização do tal alardeado empoderamento e projeto de cidade, a partir do dia 04 de outubro. Temos que parar com esse amadorismo de que nos elegemos e conscientizamos os nossos no período eleitoral. Willian Linch e a intelectualidade branca na diáspora, fez um trabalho primoroso na construção da auto depreciação negra. Falamos de combate ao racismo, mas ainda colocamos no branco as nossas esperança de mudança da nossa realidade.

Não digo isso para desanimar, mas para mostrar a necessidade de sermos realista sobre a dinâmica da corrida eleitoral e de poder e suas nuances. Quando mais comprometido de verdade com as pautas raciais, menos chance de ter o apoio das legendas, financiadores e de alguns “pretos empoderados “para ser eleitos ou ocupar espaços que viabilize o fortalecimento de políticas estruturais. Afinal, os “pretos empoderados” estão fidelizados ao poder branco e não tem como alterar neste primeiro momento. Eles também precisam sobreviver. Ainda somos os escravos cuidando dos nossos senhores, a diferença é que agora temos uma caneta e um terno e podemos nos expressar.

 

 

Sempre gostei de organogramas, eles permitem entender o processo hierárquico de qualquer instituição. Fui olhar os organogramas ( plano de governo) dos principais candidatos do pais e acreditem, nós homens e mulheres negras que vem adoecendo principalmente por desemprego, não estamos lá. Não existimos no processo hierárquico destes. Não fazemos parte com seriedade dos seus projetos de sociedade justa, somos um parágrafo confuso e sem fundamentação disfarçado de economia solidária, fomento a novos empregos, e a palavra da moda, empreendedorismo. Não existimos, essa é a realidade.

Recentemente a campanha “Não vote em seu inimigo” tem me chamado atenção e feito refletir, quem de fato é nosso inimigo? O que de fato é ser empoderados? O que de fato é ter ou dá poder?  Passamos tanto tempo dizendo que o outro lado é nosso inimigo, que não nos atentamos que o tal “empoderamento preto” foi construído em um castelo de areia, que a primeira onda que bateu derrubou. Como sempre, se algo dá errado no país, 52% desta população que é ótima como base de discursos em palanque e reforço de imagem de sociedade igualitária nas propagandas eleitorais, paga em primeiro lugar.

A igreja do Rosário dos Pretos na Bahia, tem uma canção em seu ritual litúrgico que diz que “Negro sem emprego, fica sem sossego”. Vi meu irmão ter um surto psicótico em um momento de desemprego, passei um ano sem trabalhar e achei que iria enlouquecer ( Tentei me matar) e olhe que cumpro os requisitos empregatícios. Vejo todos os dias homens perambulado pela cidade de Fortaleza, Salvador e outras regiões em busca de um lugar ao sol, sem nem saber pra que lado ele se põe ou nasce. Entendo deste desassossego. Compreendo como isso afeta nosso psicológico e por isso, um projeto de pais ou de cidade que não tem a nossa empregabilidade e garantia de direitos básico no topo de seu organograma, constrói castelos de ilusões com a nossas necessidades.

 O mercado político se sustenta nos moldes do modelo mais barato dos produtos chineses. Do mesmo modo que a economia chinesa, o desenvolvimento econômico brasileiro é falso e lucrativo. Ele  não empodera ou dá real estrutura de mudança, a mais de 52% desta população. Exemplo disto é que no primeiro momento de dificuldade, voltamos pra situação de miserabilidade, agora com diploma.

Ter consciência disso é empoderar para além de discursos vazios que continua sustentando o status co do poder branco, sem alteração do poder ou nossa realidade cotidiana. Temos discursos novos em referências de opressão e modos operantis velhos. É combater as relações desiguais entre brancos e negros, de forma que elas tenham poder sobre suas escolhas e principalmente possam manter sua autoestima e dignidade com algo que sempre deram a esse pais, sua força de trabalho.

Os mecanismos de dominação se repetem e pior se tornam mais perigosos, pois como já dizia Steve Biko, tem atingido a mente dos oprimidos. Nossos desenvolvimento econômico passa pelo respeito e valorização dos nossos saberes locais. Exige uma especificidade não desenvolvida, pois diferente dos empreendedores que querem ganhar milhões, os nossos só querem ter dignidade de moradia e de poder sustentar seus entes queridos. Isso é poder para uma grande parcela da população brasileira, viver com dignidade.

Nem todo mundo quer está no salão oval (lembrando de Olivia Pope, em Scandal) perceber que a concepção de empoderamento para a maior parcela da população negra, é poder pagar uma conta de luz e levar alimento pra sua família, infelizmente ainda não foi entendido pelos organogramas e planos de governo.

Luciane Reis é Publicitária, idealizadora do Merc’Afro, plataforma que desenvolve metodologia de fortalecimento e viabilidade financeira   para negócios étnicos. Vem cada dia mais se metendo no mundo do Etnoempreendedorismo e inovações de negócios sociais étnicos e de economias vulneráveis.

 

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