Matrizes africanas na palma das mãos e diante dos olhos, por Marcel Bane

Pós-Doutor em Antropologia pela UNESP e pesquisador de temas relacionados ao candomblé e à matriz africana , Vilson Jr lança hoje,08/6, o projeto Na Palma da Minha Mão: Temas Afro Brasileiros e Questões Contemporâneas,em parceria com o artista plástico Rodrigo Siqueira. Trata-se de um livro e uma exposição, composta de 20 telas em óleo, que versam sobre a modernidade e as mudanças sofridas pelo candomblé, o sincretismo religioso e a contribuição africana para as ciências. A exposição fica em cartaz até o fim do mês, no na Biblioteca Pública do Estado. Nessa entrevista, Vilson fala sobre o projeto, preconceito e o legado dos Africanos.

 

Qual a contribuição africana para a ciência, a tecnologia e a medicina?

As civilizações africanas deixaram para as próximas gerações não apenas um conjunto de conhecimentos sobre o corpo, como também noções como as de infinito, genética e probabilidade. Inventamos também a escrita e nossos pais foram capazes de mapear todas as partes da terra. É esta história que temos que passar para as nossas crianças. Devemos contar para elas a trajetória de civilizações como as do Egito e tantas outras. Devemos falar para elas que não somos descendentes de escravos, mas de reis, rainhas, príncipes, princesas, artistas, médicos. Basta olharmos para a cidade que nos cerca. Em todas elas há o traço africanou ou um traço afro-brasileiro.

 

As pesquisas para este livro envolveram terreiros de todo o Brasil é um recorte dos terreiros baianos?

Mais do que isso, elas basearam nos relatos, histórias de vida e lembranças de anciãos e anciãs das religiões de matrizes africanas com os quais tenho convivido por quase 30 anos. Daí a riqueza de detalhes e histórias para fundamentar os textos.

 

É um livro que interessa ao público em geral ou o público alvo são os pesquisadores do tema?

É um livro que todos deveriam ler, inclusive as crianças. As ilustrações facilitam isso. Se os pesquisadores vão se interessar, isso é o que menos importa. A Academia esta sempre a procura de teses para contestar. Esse livro não foi escrito para isso, mas para falar sobre questões filosóficas, religiosas, sociais, éticas e outras que ao longo do tempo foram utilizadas para estigmatizar as religiões reorganizadas no Brasil a partir das tradições africanas.

 

Professor, o Sr. sente um crescimento do interesse das pessoas em conhecer as religiões africanas, e consequentemente, uma diminuição do preconceito em relação a elas?

Considero coisas distintas. Por exemplo, no final do século XIX havia um interesse por parte de alguns grupos em conhecer as religiões de matriz africana, ao mesmo tempo em que foi neste período que se constituiu dentro das chamadas Ciências Sociais uma serie de discursos racistas que nos chamavam de animistas e fetichistas. Precisamos ter na verdade uma mudança no nosso olhar sobre estas religiões. É verdade que nós, povo de axé, estamos falando mais sobre nós mesmos. É digno de nota a abertura que temos em alguns meios de comunicação, agora, vencer o racismo é ainda um de nossos principais desafios.

 

Por que o projeto se chama Na Palma da Minha MãoPor que tudo nas religiões de matriz africana começa nas mãos, basta observarmos que é esfregando uma mão na outra que o sacerdote ou sacerdotisa evoca os orixás e é jogando os búzios sobre uma mesa que a nossa ancestralidade é revelada e assim por diante. O título surgiu ainda, observando o trabalho de Rodrigo Siqueira, que ilustra o livro, que assim que lia os artigos ia dando forma, cor, enfim vida, a escrita. Dai nasceu a idéia de Candomblé na palma da minha mão, significando que os conteúdos dessa religião esta ao alcance de todos. Por um descuido meu, desapareceu a palavra candomblé e ficou apenas: Na Palma da minha mão: tremas afro-brasileiros e questões contemporâneas. Rodrigo não gostou muito pois já há no mercado dois trabalhos com o mesmo nome. Então eu sorri e disse a ele, mas nenhum é igual ao nosso.

 

Publicado originalmente no Caderno 2 - A Tarde

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