Movimento Negro cobra do Governo Federal ações efetivas em relação ao Plano JAPER

Discutir o papel da sociedade civil frente ao Plano Brasil-EUA de Promoção da Igualdade Racial e Étnica (JAPER), esse foi um dos objetivos de uma série de reuniões que aconteceram nas cidades de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro entre os dias 21 e 24 do último mês de março. Os encontros, que sucederam a visita ao Brasil do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, nos dias 19 e 20, foram organizados de forma independente por entidades do movimento negro e contou com a participação de jornalistas, empreendedores e lideranças religiosas e da luta antirracismo.

 

 

No Rio de Janeiro, o encontro foi organizado pela Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), do Sindicato dos Jornalistas, por meio da jornalista Angélica Basthi e produzido pela EOSS Consulting – Oportunidades Econômicas Estratégias e Soluções, consultoria da empreendedora Daise Rosas. O evento contou com a participação de lideranças negras cariocas a exemplo do gestor da Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial do Rio de Janeiro, Carlos Medeiro, do ex-ouvidor da SEPPIR, Humberto Adami e da médica e uma das dirigentes da ONG Criola, Jurema Werneck. Também presente a reunião a escritora Elisa Larkin Nascimento, diretora do IPEAFRO – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros saudou a iniciativa.

 

Na cidade de Salvador, no dia 23 de março, organizações negras baianas participaram da reunião na Casa do Benin (Pelourinho). O evento contou com a participação da representante da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Vera Galante e da assessora da Sepppir, Maraísa Almeida, que substituiu a secretária de Ações Afirmativas Anhamona de Brito. Participaram também a socióloga e presidente do Conselho do Desenvolvimento da Comunidade Negra da Bahia, Vilma Reis, o economista Silivo Humberto, do Instituto Steve Biko, representantes da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN), a coordenadora do CEAFRO, Céres Santos, dentre outros.

 

Já em São Paulo, o evento organizado pelo Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo com divulgação feita pela ONG ABC sem Racismo (responsável pelo site Afropress) e o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), mobilizou ativistas sociais paulistas para compreender melhor o papel da sociedade civil no Plano e conhecer a versão inicial do Portal Japer, ferramenta criada para monitoramento do acordo Brasil-EUA pelo movimento negro. O portal colaborativo, que tem apoio da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, possui o caráter autônomo e conta com  tecnologia avançadas, como uma ferramenta de videoconferência que pode conectar centenas de pessoas em uma mesma discussão estando estas em locais e países diferentes. A idéia é que esse recurso possibilite uma maior interação entre a sociedade civil brasileira e a americana e reduza significativamente os custos com viagens, uma vez que serão reuniões virtuais por vídeo. As organizações de comunicação negra que queiram fazer parte do comitê editorial do Portal Japer devem enviar mensagem para japerbrasil@gmail.com com dados de contato.  A idéia dos organizadores é que o site possa ter capilaridade e alcançar o máximo de organizações possíveis no Brasil e Estados Unidos.

 

Segundo Altair Lira, da Federação Nacional das Associações de Pessoas com Doenças Falciformes (FENAFAL) e um dos pontos focais do Plano Japer, “esses encontros buscaram informar o movimento social da importância de monitorar o  Plano Japer, para que a participação se dê efetivamente a partir das demandas da sociedade civil e não somente com um acordo entre governos."

 

Uma sugestão que surgiu das reuniões foi a  necessidade de pensar o portal "para além de ações do governo". Segundo Jurema Werneck, da ONG Criola, "o portal tem que trazer para além do banco de dados, um ambiente de estímulo para que esse plano dê certo". Esse sentimento, compartilhado nas três reuniões, refere-se ao fato de que há um grande potencial de interlocução entre os movimentos negros dos dois países, porém até então essa movimentação fica prejudicada por conta da burocracia governamental e pouca "vontade política" em priorizar o Plano.

 

Na contramão da lentidão estatal, sobretudo do lado brasileiro, o portal visa  proporcionar uma maior interação entre os movimentos negros, para isso contará, por exemplo, com recurso fundamental para aumentar o diálogo entre Brasil e Estados Unidos, o ensino de idioma.  Essa ação será possível, pois é fruto de uma parceria da Embaixada dos Estados Unidos com a empresa líder global no segmento de idiomas, Roseta Stone, que dará a 300  pessoas dos EUA cursos do idioma português e a mesma quantidade de licenças para quem queira aprender o idioma inglês do lado brasileiro, tudo  pelo sistema de ensino à distância dentro do Portal Japer. Nas reuniões, os organizadores solicitaram do público presente sugestões de critérios para a concessão das bolsas, e foram sugeridos critérios como a questão geracional, regional, de gênero, e de organizações com comprovado trabalho na luta contra o racismo.

 

 

Governo Brasileiro

Um característica marcou o tom dos encontros nas três cidades onde houve a escuta da sociedade civil sobre o Plano Japer,  foi o fato de que o Governo Brasileiro precisa se comprometer mais com o Plano e envolver efetivamente  organizações negras para a elaboração das ações. Até o presente momento, o Governo Federal não aportou recursos na iniciativa, apesar do acordo ter sido assinado em 2008.

 

Presente à reunião, o secretário de combate ao racismo do Partido dos Trabalhadores (PT) de São Paulo, Claudinho Silva, recomendou no encontro o envolvimento dos parlamentares negros para cobrar ações efetivas por parte da Seppir e do Ministério de Relações Exteriores e criticou a morosidade do Governo Federal em realizar ações efetivas sobre esse Plano. Clarence Lusane, ponto focal da sociedade civil dos EUA, e professor da American University lembrou que é preciso uma participação igualitária dos governos, ou seja "uma ação recíproca de engajamento, diálogo e construção colaborativa".

 

A pesquisadora Kimberle Crenshaw, professora da Universidade Columbia e presidente do African American Policy Forum, esses encontros servem para "compartilhar informações e avançarmos nos projetos, sem a dependência dos governos. É preciso colocarmos agendas que nos interessam no Plano Japer".

 

A agenda governamental do Plano JAPER deve seguir esse ano com a realização de um grande encontro com a sociedade civil no mês de junho, no Brasil. O último encontro aconteceu em maio de 2010 na cidade de Atlanta com representantes de organizações do movimento negro,- apesar da não divulgação da Seppir do critério de escolha dos participantes. Na oportunidade, foram criados grupos de trabalhos sobre temas como saúde, educação, mercado de trabalho e discussões especiais sobre a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

 

Da reunião de São Paulo, a última das três capitais visitadas, surgiu uma proposta de criar-se uma carta da sociedade civil endereçada a Presidenta Dilma Rousseff solicitando celeridade nas ações desse acordo diplomático para promoção da igualdade racial. A comissão é formada pela representante do Inspir, Regina Silveira; o jornalista Dojival Vieira (Afropress); o coordenador da FENAFAL, Altair Lira; o pastor Albert Silva (Miad); o secretário de combate ao racismo do PT (SP), Claudinho Silva e o advogado Daniel Bento (CEERT). O documento que está em elaboração deve ser encaminhado com cópia para a Ministra Luiza Bairros, da SEPPIR e será aberto às organizações que queiram subscrevê-lo.

 

Redação CORREIO NAGÔ

 

Exibições: 433

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Comentário de Mais Positivo em 8 abril 2011 às 0:01
Saudações Kassan, sua colocação tem um tom poético! e essa poesia tem que ser pura... vista que as "representações do movimento negro" que está sempre mergulhada nestas oportunas discurções, ainda não se tocou que o verdadeiro movimento está nos bairros das grandes  periferias e toda cidade, realizando a revolução cultural em amplo sentido, o trabalho braçau e travessuras que importuna aqueles dos verticais milhonarios, movimento esse! que  traça extratégias de sobrevivência a cada dia. Temos que parar com isso! oportunismo; as vezes é iqual a corrupção! Sendo que o discurso já não cabe mais, é o mesmo, está defasado, vamos criar um enlace mais profundo e verdadeiro, e parar de ser aquela liderança da "linguagem" perfeita e da fotografia de primeira pagina... temos que ensinar e aprender a fazer políticas públicas, não política pública partidaria.   Paz e arroz!
Comentário de marcia micussi oliveira em 5 abril 2011 às 20:48
Concordo com o Kassan .Considero assustador as pessoas ainda acreditarem que o que é bom para os USA é bom para o Brasil, que precisamos d@s american@s para podermos entender a realidade do nosso país e transformá-la Pessoas, estamos assistindo ao vivo e a cores e em tempo real uma ofensiva militar na África que poderá ser o início de outro processo colonial.  Vamos lembrar que ser negra ou negro não faz com que exista solidariedade com outr@s negr@s e desde quando os USA fizeram alguma coisa sem cobrar um preço alto por isso? Bolsa  de estudo para 300 negr@s brasileiros? Com aulas virtuais? Isso é considerado avanço? Não sei se é para rir ou para chorar.
Comentário de paulo alves em 4 abril 2011 às 15:01

Olá  Kassan, seu comentário é muito pertinente, pois realmente estes planos realmente acabam nos levando a refletir se realmente nos servem visto que nossa realidade é muito diferente dos negros americanos.

parabens pelo comentário e considerações etnicas.

Comentário de P. Kassan em 4 abril 2011 às 13:43
Já tinha ouvido falar desse tal de Plano Japer. Serei bastante claro é direto a respeito desse chamado Plano de promoção de ''igualdade'' racial, amplamente badalado como sendo uma maravilhosa iniciativa. Sobre minha opinião isso não passa de mais do que uma fajuta manobra Made In Usa. E preciso despedaçar essa crença de superação de racismo com uma simples dialogação da sociedade civil. Nos estamos nos Estados Unidos dos anos 60, sendo assim um mísero movimento por Direitos civis é de inútil serventia a população negra brasileira. No próprio EUA que serve de exemplo para atuação de alguns ativistas e militantes antiracistas, o movimento pelos Direitos civis foi analisado é contestado por sua falta de independência e pelo seu caráter reformista.

O que se pode observar é que tais encontros, reuniões na maior parte são pautadas pela exposição de idéias em muito fracas em seu conteúdo.

O movimento Negro Brasileiro por assim dizer, não se pode enganar a respeito desse tipo de planos de superação de racismo planejados e criados dentro de escritórios é gabinetes.

Certamente o MN não se constitui em um movimento de plataforma unificada sendo em muito fracionado por interesses partidários. O que se deve destacar em si é a existência da vertente puramente oportunista do Movimento Negro. Essa mesma vertente que se destaca na cumplicidade em relação as determinações emanadas por diretrizes de partidos políticos é pelo próprio Estado. Os oportunistas se acumulam fazendo se crêem como legitimos representantes da população negra.

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço