Movimento Negro potencializa uma nova dinâmica -

Movimento Negro potencializa uma nova dinâmica

Artigo inspirado no texto “o tempo e o papel do Movimento Negro. ’’ de Sérgio São Bernardo
“ A AÇÃO SE DA EM CURSO DE REALIZAÇÕES

DE SUAS PRÓPRIAS LUZES” Jean Paul Sartre


A questão de identidade vulnerável que ainda vemos nos articuladores sociais, e a auto-afirmação do que não se sabe muito bem, é o que aflige a maioria dos brasileiros. Caetano Veloso soube dar uma síntese o que configura a personalidade do nosso povo, “Narciso acha feio o que não é espelho”. Por conta disso todo apoio as políticas afirmativas são de fato necessárias, mas tem que se ter cuidado de ataque xenofóbicos. Acaba usando contra o opressor racista, as mesmas armas, se o que questionamos é a intolerância porque combatê-la com a intolerância. Vemos que os massacres que ocorrem em África na Nigéria, entre mulçumanos e cristãos é o que resulta esse tipo de olhar.

Esta evidente tem que se ampliarem as formas de olhar, se distanciar e observar pelo lado de fora. Para aprofundar uma discussão definir planos de ação, é importante atingir um ponto de vista fora do objeto das preocupações, assim podem saborear a eficácia e a alavanca da critica. O movimento tem em si, o peso de por em pauta, séculos de injustiça, ser herdeiros e responsáveis de rever uma história não muito explicada e nada convincente, ser arauto de uma ancestralidade que é renegada, sabendo que nem todos é o inimigo numa sociedade pluralista. Ver irmãos que preferem como ídolos, o gospel norte americano, que vem embargado do marketing, e socialmente aceito, dentro da moral cristã, do que qualquer mitologia primitiva.

Esse distanciamento é necessário para a reflexão especialmente quando se trata de fatos psicológicos, inseridos subjetivamente neles e os afastam de qualquer forma de discernimento. Olhar de fora significa apreciar sobre o ponto de vista do outro, para isso é preciso atingir um conceito satisfatório da alma coletiva européia, é um processo que leva o grupo a ir de encontro com as incompatibilidades que instituem o próprio preconceito, a peculiaridade do movimento. Em tese tudo que irrita no outro pode ajudar para o conhecimento de si próprio.

São de fato as pessoas ideais para ser porta voz de todo esse contexto. Faz-me lembrar da montagem do espetáculo teatral LEMBRAR É RESISTIR, texto de Analy A. Pinto e Izaias Alma, encenado em São Paulo, em 1999. Linguagem é extremamente realista, calcada no espaço cênico - as celas onde de fato ocorreram prisões e torturas durante a ditadura militar. O antigo prédio do DOPS em São Paulo, sendo que na maioria do elenco era formado por atores que viveram de fato o terror entre aquelas paredes, houve todo um trabalho, que os distanciassem do fato, uma forma de calibrarem seus emocionais, e retornarem a cena dando a veracidade comovente.

Num país capitalista, e pelo que se observa é ainda selvagem, conseguem olhar questões do espírito como mercado, fica difícil, emplacarmos qualquer possibilidade nova sem estar relacionado ao mercado, especificar o publico alvo. Democracia também tem que ser o direito de manifestação das minorias. Talvez seja essa nossa utopia. Assim sendo espaços são ocupados pelos detentores do capital, para tornarem mercadoria, na maioria lixo, e saber quais destinos desse espaço, com que futilidades ocupam seus editoriais, e quais as funções funestas que existem por trás, sugiro ler alguns dos artigos do nosso parceiro Edson Cadette que nos mostra com toda propriedade as quantas andam os tais espaços.

“Quem deseja e não age gera a peste”. Willian Black. Os movimentos são cônscios do panorama nada favorável para ações sociais quanto a isso não é preciso de lembranças, era, é, e será assim. Primeiro dentro do movimento precisa-se separar o Joio do Trigo. Convivo aproximadamente trinta anos, com trabalho em grupo, e dividimos idéias com aqueles que desejam matar o velhote inimigo que morreu ontem, sob o jargão de ABAIXO A DITADURA, outros fazem do seu medo de viver uma bandeira de luta, e outros contem comigo, à medida que não precise fazer nada, e sobra uma minoria que procura restabelecer a gestão e a vida do movimento – que busca objetividade de reintegrá-la a ciências humanas, restabelecendo a conexão com a literatura, história, a filosofia,

Defender ações utópicas é hoje a valorização da comoção ou sentimento de exclusão descomedido. O qual torna contraproducente para avanços sociais de fato, quando me aproprio do discurso improvisado feito por Caetano, no Festival de musica da PUC de São Paulo, “vocês são a juventude que mata o velho inimigo que morreu ontem”. Porque acredito que nenhum burguês branco de o mínimo de bom senso esta em condições de contestar a efetiva possibilidade, de avanços sociais vitalizando as diversidades, através de forças intelectuais e ações conjuntas afirmativas, contribuindo com a inclusão social de alguns segmentos ou de negar o que ocorre hoje avanços oriundos de organizações sócio-políticas nas lutas pela igualdade.

Todavia devem-se criar propostas claras para eliminação dessas desigualdades. Aproveitando da expressão do Sérgio São Bernardo “Os africanos não nos legaram a utopia.” ou “O futuro nasce de lutas que se afirmam na existência do aqui e agora Pensarmos em possibilidades históricas mais em termos de ruptura do que com continuidade com a história passada, (a contada nos padrões morais europeus) como um elemento de negação mais do que afirmação antes como um salto nítido como um progresso continuo. Não a negação pela negação, e sim a construção de uma antropologia que segue alem da teoria, mas assume como modo de vida.

A quebra do sentido utópico é justamente a negação histórica- social travestida pela generosidade colonizadora, subjugando a força social, mítica, dos demais povos, que povoam e são a alma desse país. É a tomada de consciência delas, e substituição com a nova narrativa histórica que germina nos movimentos sociais negros, como bem observa Sérgio São Bernardo. Exige uma posição muito realista e muito pragmática, uma oposição livre de todas as ilusões, mas também de qualquer derrotismo, uma alternativa que, graças a sua simples existência, saiba evidenciar, as possibilidades de avanços no próprio âmbito da sociedade existente e saber avaliar os saltos qualitativos, para que se de movimento (vida dinâmica) ao movimento.

Querendo objetar o racismo camuflado, quando mergulham em ditames sobre valores de igualdade forçosamente dando um ar de espiritualização significa a possibilidade de uma aparente igualdade. Mas teremos uma sociedade renovada com valores de fato humanitários quando seus atores forem de fato livres dessas duvidosas bênçãos do sistema. Esse espírito libertário surge em momentos sublimes um deles quando nos deparamos com textos como do Sérgio São Bernardo em que discute o tempo e o papel do Movimento Negro.

Esse espírito de renovação de valores que emerge nessas discussões, diz respeito de como dão sentido as nossas vidas e as vidas de nossos irmãos, diz respeito ao restabelecimento do significado de igualdade. Para a libertação da consciência do qual falamos precisa mais do que a discussão e sim a capacidade de como o negro opera nesse movimento em sua integridade, como nele se anuncia a vontade de viver, ou seja, a vontade de ser integrada com sua mitologia, sua ancestralidade seus arquétipos, sua vontade de viver em paz.

O movimento negro pode ainda não enxergar os efeitos positivos de suas ações, mas devem continuar exercê-la afim de ainda atuarem como cidadãos. ser felizes com as conquistas de seus valores. E não poderão ser felizes, não poderão exercer um trabalho humano, se mantiverem ligados aos valores dos colonizadores.

Nossa cidadania ainda é perversamente européia, branca e judaica- cristã. A fixação européia da palavra “bom” estar ligada distinção de “nobreza” onde se desenvolve a ordem social privilegiado quanto à alma, contrapondo com conceitos de “vulgar”, “plebeu”, “negro” na noção de mau. Surge aí que todos os efeitos etimológicos da palavra, “bom”, foram apropriados a dar suporte moral da classe superior. Seus modos, seus costumes, sua religião, a base cultural desse sistema dualista entre “bom” e “mau”. Somente uma mudança de valores morais, apontará caminhos prósperos, precisa-se construir uma abolição subjetiva, ou seja, uma emancipação dos escravos da moral, aí começaremos a ter ações vitoriosas.

A revolução dos escravos da moral começa quando essa negação chegar a produzir valores, “Enquanto que a moral da aristocrática nasce de uma triunfante afirmação de si mesma, a moral dos escravos opõe um “não” a tudo o que não é seu: este “não” é o seu ato criador. ”F. Nietzsche. Para ser criativo e efetivamente consciente da missão social que se dispõe, é importante apurar o olhar como foi dito para evitar que a carga emocional torne-se rancor, o homem rancoroso não é nem franco, nem cândido, nem leal consigo mesmo. O homem rancoroso fica obcecado pela figura do opositor, designa-o, concebe-o como um ícone, uma antítese do bom de si mesmo. O rancoroso, pode se tornar mais intolerante, que o racista.

O movimento não pode permanecer isolado, tem que ser ostensivo, levar suas idéias ao debate, apurar suas reflexões. Se ficar preso ao próprio circulo restrito, se não difundirem essa afirmação como diferentes, cultura, sociologia, crenças e mitos, que se destina a desempenhar uma função decisiva na transformação de nossa sociedade, o movimento desempenhara tão somente um papel secundário. O grande valor de toda essa discussão que se tem todas as ferramentas para emergir do ambiente restrito e ampliá-lo a ponto de nele englobar forças capazes de trabalhar material e intelectualmente pela transformação. Através de um movimento intelectual, artístico, cultural encontrará de forma criativa, meios, espaços e alternativas de mudança de valores e moral, sem rancor, mas sob os códigos do amor.


Sérgio Cumino.

Ator, Diretor Teatral – poeta, e atua na formatação de projetos de cunho social para Terceiro Setor.

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Comentário de Edson Cadette em 17 março 2010 às 1:07
Sergio,
Gostaria de parabeniza-lo por mais esta lucida exposicao da cultura brasileira. Demorei vinte anos para compreender um pouco esta cultura. Neste entendimento, aprendi mais sobre o Brasil e sua historia morando aqui nos EUA do que nos bancos escolares no pais. Tudo o que eu aprendi sobre a historia brasileira por ai joguei pela janela. Tendo uma visao panoramica sobre o Brasil e a nossa realidade depois destes anos todos vivendo aqui em Nova York. Aprendi entre outras coisas que por mais que o pais tente, e impossivel menosprezar a influencia do Continente Africano em todas as areas da nossa cultura. O problema e que pouco aprendemos sobre o Continente Africano e suas sociedades. Lembro me de ouvir por varios anos que a Africa nao contribuiu em nada para a historia mundial. Hoje fico imaginando o quanto esta idea foi difundida por todo o pais com pouquissima contestacao. Foram mais de 300 anos de relaciomento entre o Brasil e o Continente Africano e serquer temos uma diciplina trantando unica e exclusivamente deste tema. Fico pensando quantos livros deixaram de ser escritos, quantos personagens deixamos de conhecer. E como se na nossa historia este periodo nao fosse tao importante assim para ser estudado. A nossa dependencia intelectual da Europa e o mensoprezo em relacao a Africa e triste. Enquanto o negro brasileiro aceitou seu papel periferico no Brasil, a sociedade o aceitou tranquilamente. Ma como estamos observando nos debates sobre as Acoes Afirmativas, foi so ele abrir seus olhos e buscar seus direitos e um lugar ao sol que os donos do poder comecaram a usar de todos as armas disponiveis ao seul alcance para manterem o status quo. O que estamos fazendo e de grande importancia. Somos como aquele cavalo de corrida que corre por fora e acaba ganhando o Derby. Estamos anos luz atrasado em lutar pelo nosso espaco.Porem, mas uma das grandes armas das internet e que podemos compartilhar nossas experiencias com o resto do mundo. So nos resta seguir nesta luta mostando a sociedade brasileira que o tempo da nossa invisibilidade esta esgotado.

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