Mulheres negras empreendedoras e o discurso de Viola Davis

O discurso de Viola Davis, no prêmio Emmy trouxe reflexões que estão para além da premiação. Ela foi contemplada por sua atuação na série How to Get Away with Murder, ficção produzida por Shonda Rhimes e que a mostrar como uma professora brilhante, mas que como toda mulher negra tem problemas familiares, afetivos e raciais. Em seu discurso, visivelmente emocionada e surpresa, Viola lembra uma das grandes empreendedoras sociais negra norte americana que ela viverá o papel, Harriet Tubman. Também conhecida por Black Moses ou Moises Negra. Harriet foi responsável por construir a maior rede colaborativa de autonomia de homens e mulheres escravizados em um ambiente de total hostilidade, que era o período escravagista.

A grande “ Investidora Anjo” da população negra, teve seus pensamentos proferido por Viola  durante a premiação e   esse dizia que  “ Na minha mente, eu vejo uma linha. E sobre essa linha, eu vejo campos verdes, flores lindas e belas mulheres brancas com seus braços esticados para mim, ao longo dessa linha. Mas eu não consigo chegar lá. Eu não consigo superar essa linha”.  Ao ver esse pensamento sendo declamado, não tive dúvida de que esse com certeza é o sentimento de qualquer mulher negra que deseje empreender no Brasil. Empreender significa saber identificar oportunidades, agregar valor a elas e transformá-las em um negócio lucrativo. E aí é que está o problema. Desde que comecei a estudar sobre empreendedorismo, em especial na web é notória a disparidade na condição, possibilidade e incentivo para o sucesso do um negócio, quando esse tem a frente pessoas não brancas e em especial mulheres negras. 

As dificuldades para empreender enfrentada por essas, afetam suas condições de competitividade. Primeiro pôr os primeiros exemplos de empresas familiares como grandes negócios, estarem nos EUA e países Europeus. Logo a primeira “Linha” de dificuldade  apontada por Harriet, é a língua. O fato de não dominar a língua inglesa, tira das mulheres negras a chance de trocar experiência, se inspirar e principalmente buscar financiamentos nos protagonistas da tecnologia de consolidação de negócios considerados familiares como os não negros fazem. A segunda linha de dificuldade enfrentada pelas mulheres negras, é a desconexão do mundo empresarial ou de financiamento com a realidade das empreendedoras negras.  Não é raro ver exemplo de pessoas que se tornaram empreendedores de sucesso com menos de 30 anos, onde a mola impulsionadora foi dá continuidade aos negócios da família, salvar a empresa familiar  que está para fechar, ou ter ganho as mesmas como presente de aniversário ou casamento.  Um dos exemplos mais interessante que tive possibilidade de estudar  foi o caso de uma empreendedora  motivada por um cliente a comprar um  estabelecimento que estava prestes a fechar mesmo “sem ter o dinheiro para pagar” e claro ter êxito no negócio.  

Esses casos mostram como a “linha” que Harriet nunca conseguiu chegar, é a mesma que perseguimos até os dias de hoje.  O Interessante no discurso de Viola, foi exatamente isso. A compreensão de como essa “linha” nos segue e invisibiliza ainda nos dias atuais. As mulheres negras são empreendedoras desde que sequestradas de África. Na diáspora sempre tiveram negócios para se manter, foram lavadeiras, cozinheiras, costureiras, bordadeiras, artesãs dentre diversas outras profissões e mesmo assim não conseguiram transformas essas habilidades em negócios com a mesma rentabilidade de pessoas que entram no mesmo ramo.

Estão no mercado de trabalho informal ou autônomo há muito mais tempo, que às feministas da década de 60 e 70 do século passado e do mesmo modo que os atores negros que não acham papeis dignos, essas quase nunca tiveram incentivos financeiros ou credibilidade a exemplo das não negras, para que pudessem ter sucesso empresarial. Temos expertise na área de empreendedorismo, afinal foi com criatividade e trabalho que muitas sustentaram suas famílias ao longo dos anos e sustentam até hoje. Mas mesmo com todo nosso conhecimento e prática do mercado informal, do mesmo modo que um ator (a) negro (a), nossas empreendedoras não conseguem linhas de financiamento, investidores ou conhecimento suficiente para o desenvolvimento de seus negócios a exemplo da Embraer, que só existe por conta dos subsidio do governo brasileiro em seu momento de nascimento. Ou seja, do mesmo modo que não se pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem, não se pode falar de “ crescimento de empreendedores negros sem incentivos concretos para o desenvolvimento dos  negócios e serviços”destes.

A linha não alcançada por Harriet em 1800, é a mesma que tentamos alcançar nos dias atuais. Ainda continuamos vendo a mesma, mas ela continua distante. Compreender que a auto-organização feminina em torno do que hoje se chama empreendedorismo, é uma chave de construção de autonomia, auto estima e fortalecimento de muitas mulheres negra. É o ponto de conquista econômica que do mesmo modo que no passado, fará toda diferença na alteração deste quadro de invisibilidade. O empreendedorismo faz parte de cada um de nós, antes mesma da escravidão, pois as mulheres escravizadas já empreendiam, em condições muito mais negativas do que nos tempos atuais. Nos mercados africanos, quem trabalhava eram as mulheres e ao chegar aqui, essa tarefa continuou sobre a responsabilidade destas durante e depois da escravidão.

Com a abolição muitas se tornaram empreendedoras como forma de lutar pela inserção social, já que não tinham muitas alternativas para garantir o sustento próprio e de suas famílias. Sempre empreendemos em termos considerados como novidade para a população não negra. Sempre construímos negócios de forma colaborativa seja com as feiras livres, com os serviços de costuras ou artesanato. Um exemplo são as feiras populares no Brasil, local onde fica evidente que o empreendedorismo feminino não é uma novidade para essa população, mas algo que só começou a ser valorizado pela sociedade mais recentemente quando segmentos que historicamente foram privilegiados se fizeram presente.

Do mercado da moda à criação de produtos voltados ao segmento afrodescendente, as mulheres negras estão se fazendo notar nos tempos atuais. Analisando a categoria das mulheres que trabalham por conta própria, elas continuam concentradas em áreas semelhantes as que estariam se no mercado formal: 32,6% das mulheres atuam no setor de serviços e 29,8% no comércio.  O perfil empreendedor da mulher negra não é de agora, há muito tempo ela comanda a maioria dos lares brasileiros, são elas que levam o dinheiro pra casa e cuida da parte orçamentária da família. Muitas estão na informalidade, mas já empreendendo há muitos anos. Estão trabalhando duro, consolidando novos negócios, inovando, diversificando seus pontos de atuação, logo precisam ser fortalecidas do mesmo modo que as demais, afinal como bem disse Harriet Tubman e lembrou Viola Davis, “ A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade".

Portanto estamos muito distante de comemorar o tão alardeado aumento do número de empreendedoras, afinal essas só se formalizaram, mas continuam com negócios de sustentação familiar, de sobrevivência como informa o Anuário das Mulheres Brasileiras 2011, publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, onde quase 50%  são  as únicas responsáveis pela sobrevivência do núcleo familiar. As responsáveis pelo sustento próprio e dos filhos. E como qualquer pessoa mais atenta sabe que nas camadas de renda inferior a proporção de mulheres negras é maior, o crescimento do empreendedorismo entre elas pode significar o acesso a melhores remunerações por meio de um negócio próprio, mas ainda não as tornam empresarias e mobilizadoras de renda acima de 5 dígitos.

Luciane Reis, publicitária, dona do MercAfro - empresa de comercio eletrônico voltada para a divulgação de produtos e serviços étnicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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