Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite*

 

      Nos primórdios do Carnaval, em nossa capital, o Entrudo de origem açoriana era uma brincadeira, na qual os foliões lançavam entre si limões de cheiro, água das seringas e até farinha. Diante do aumento populacional, o que era simples diversão tornou-se causa de desavenças e ferimentos entre os foliões e os passantes.

         Litogravura de Araújo Guerra no jornal O Século de 1880

  

    Além desse Carnaval, no qual participava a maioria da população, sob a presença  repressora da polícia, existiam os blocos e corsos das grandes sociedades que representavam a elite da cidade. A passagem do Entrudo para o Carnaval, “bem comportado”, ocorreu dentro de um modelo que reproduzia a festa europeia.

   Os festejos de Momo, em Porto Alegre, eram vivenciados, pela classe média e alta, nos cafés, teatros, confeitarias, clubes e associações. Nas ruas ocorriam jogos de confete, batalhas de flores, o lança-perfume e o corso de automóvel nas vias principais, a exemplo da Rua dos Andradas, popularmente conhecida como Rua da Praia. As camadas mais pobres da população eram excluídas dos festejos, embora houvesse a circulação de mascarados que tocavam tambores e zabumbas de origem africana em diversos pontos da cidade.

      Colônia Africana em torno de 1916.

 

     Com o passar do tempo, o nosso Carnaval de rua passou aglutinar tradições populares de origem europeia e africana, fundindo culturas e hábitos que se misturavam nos dias de Momo nos espaços de resistência cultural da população afrodescendente, considerados o berço do samba, a exemplo da Colônia Africana, Areal da Baronesa e a Ilhota.   Nestes locais surgiu uma série de blocos carnavalescos.

     

       Tesourinha

     

      Considerado, oficialmente, o primeiro jogador negro a integrar o quadro do Grêmio, Osmar Fortes Barcellos, o “Tesourinha”, participava do bloco “Os Tesouras”, donde se originou o seu apelido.  Este, a exemplo dos “Prediletos”, “Embaixadores do Ritmo”, “Ai-vem-a Marinha”, “Namorados da Lua”, entre tantos outros, era oriundo da Colônia Africana.

 

         
             Lupi

  

    Na Ilhota nasceu Lupicínio Rodrigues (1914-1974), carinhosamente chamado de  Lupi. Ainda menino, ele fugia de casa para as rodas de samba que ocorriam no local.  Aos 14 anos, Lupi que, mais tarde, ficou conhecido em todo o Brasil, como “O Rei da dor de Cotovelo”, criou sua primeira música para o Cordão " Os Prediletos", cujo título era  "Carnaval".    

   Uma característica dos blocos da cidade era a presença majoritária até os anos 50 e 60 de foliões masculinos. Os grupos femininos, dos quais se recorda a nossa velha-guarda , foram:  “As Fazendeiras”, “As Japonesas”, “As Fuzileiras”,  “ As Iracemas” e “As Heroínas da Floresta” da Sociedade Floresta Aurora.

    Areal da Baronesa

  Já no Areal da Baronesa foi coroado Adão Alves de Oliveira (1925-2013), o seu Lelé, primeiro Rei Momo Negro da capital, entre 1949 e 1952.  Em 11 de julho de 2015, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati entregou à comunidade do Areal da Baronesa a lei que dá titulação ao lugar como terras oriundas de quilombos. O Areal da Baronesa é considerado um quilombo urbano. Diante da morte da baronesa do Gravataí e da Abolição da Escravatura, ocorrida, no Rio Grande do Sul, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea (1888), o local foi sendo ocupado por negros alforriados da senzala da chácara, que passaram a trabalhar nos solares da região, dando origem a este tradicional reduto de resistência cultural da comunidade afrodescendente em Porto Alegre. Neste local surgiram os tradicionais blocos: “Ases do Samba”,  “Seresteiros do Luar”, “Nós os Democratas”, “Viemos de Madureira”, “Tô com a vela”, “Tira o Dedo do Pudim”, entre outros.

   Seu Lelé / Primeiro Rei Momo negro

    Aos poucos, os blocos superaram em quantidade as tradicionais sociedades carnavalescas, como a Sociedade Esmeralda Porto-Alegrense (verde e branco) e a Sociedade Venezianos (vermelho e branco), tradicionais rivais nos concursos carnavalescos da época, ambas fundadas em 1873.  Havia também a Germânia, a mais antiga fundada, por alemães, em 1855, e a Sociedade Floresta Aurora criada por negros alforriados, ainda, em atividade, desde 1872.      

 

 Grupo de carnavalescos da Sociedade Floresta Aurora na déc. de 30.

    

   Em torno de 1900, a importância do Carnaval para a nossa cidade foi registrada pelo viajante Frank Bennett: “O Carnaval é um dos maiores eventos realizados no ano e todo mundo participa ativamente dos festejos, conquanto, cada classe social faça-o de maneira diferente (...)”          

                                                                                               

                                                                                 Coordenador do Setor de Imprensa do Musecom*

 

 Bibliografia

   FRANCO, Sérgio da Costa, ROZANO Mário (org.) Porto Alegre Ano a Ano/ Uma cronologia histórica 1732/ 1950. Porto Alegre: Letra & Vida, 2012.

  GUIMARAENS Rafael. Rua da Praia / Um passeio no tempo. Porto Alegre: Libretos, 2010.

   MARTINI, Cyro. A Cidade Risonha de Aquiles Porto Alegre / Porto Alegre Séc. XIX. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2013.

   PORTO ALEGRE, Achyles.  História Popular de Porto Alegre. Porto Alegre: Prefeitura Municipal, 1940.

 

 

 

 

 

 

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