Não seriam todos os brancos travestis? por Leandro Colling

O que ainda pode e deve ser dito para criticar o chamado “mito da democracia racial” no Brasil e o uso do argumento da miscigenação para atenuar ou mascarar os preconceitos raciais que ainda vigoram no país? O livro Aqui ninguém é branco (Editora Aeroplano), da professora Liv Sovik, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, oferece algumas respostas para essa pergunta que, é bom frisar, não está formulada dessa forma simples na obra.

A tese central do livro é que o brasileiro branco se invisibiliza para que tudo se mantenha como está, para que o preconceito para com os negros sobreviva. Não é mesma coisa que dizer que aqui não há preconceito porque somos miscigenados racial e culturalmente. É defender a ideia de que aqui não há brancos para que os brancos, com sua branquitude (que não é apenas um dado da genética, mas, fundamentalmente, simbólica), permaneçam exercendo o papel de senhores perante os seus escravos.

De forma resumida e incompleta, essa é a tese que atravessa todos os ensaios que compõe o livro da professora que ficou conhecida na academia brasileira por organizar o livro Da diáspora, identidades e mediações culturais (Editora UFMG, 2003), de Stuart Hall. Antes disso, Hall era pouco conhecido no país e hoje é leitura obrigatória em vários cursos de graduação e pós-graduação brasileiros. Aliás, Hall parece ser o grande guia do olhar de Liv em Aqui ninguém é branco.

Depois de dois ensaios, considerados por ela por “teóricos”, nos quais também analisa a imprensa em geral e cita algumas coberturas e questões em particular (por exemplo, como os rostos brancos eram maioria na transmissão televisiva do Carnaval em Homenagem à África, o Carnaváfrica, em 2002, em Salvador), Liv apresenta outros quatro ensaios chamados de “musicais”. Certamente, o leitor que não gosta de textos mais “acadêmicos” vai se sentir muito mais atraído para ler esses quatro textos, nos quais a pesquisadora analisa como a tese central do livro aparece na música brasileira: na bossa nova, em Angela Maria, em Caetano Veloso e, por último, em Daniela Mercury, Gabriel o Pensador e Marcelo Yuka.

Provavelmente, o texto sobre Daniela deverá causar polêmica entre os fãs da rainha da axé- music, considerada por Liv como uma “travesti”. De longe, é para Daniela que Liv direciona suas críticas mais incisivas, mas Caetano também é considerado, ao fim do texto em que ela analisa o CD e show Noites do norte, alguém que é “mais o senhor do que escravo”. A bossa nova também recebe críticas por sua branquitude e por ter apagado Angela Maria, uma “mulher, negra e operária”. De todos os artistas, o menos criticado é Marcelo Yuka, considerado por ela um cidadão.

Mas o que Liv quer dizer? Para entender os seus argumentos, é vital enfrentar os ensaios ditos mais “teóricos” que abrem o livro. Isso porque a proposta, frisa Liv, não é “denunciar a branquitude essencial que está por trás” dos artistas que ela analisa, mas de “examinar as diversas posturas sobre a raça que se encontram na música popular”. Então, façamos um esforço para voltar aos ensaios teóricos para depois retomar as análises musicais que, lidas isoladamente, podem gerar incompreensões e polêmicas gratuitas.

Liv pretende revelar como a branquitude, pouco discutida dentro e fora da academia brasileira, se tornou, de forma consciente ou não, uma estratégia para que os brancos permaneçam brancos senhores perante os negros escravos. Um dos vários argumentos que ela aponta, que chama atenção para um leitor atento, é mais ou menos o seguinte: os brancos que valorizam a cultura negra, que convivem com os negros, não fazem isso para parecerem negros, para aceitarem a cultura negra. Fazem isso muito mais para evidenciarem a sua branquitude (cujo prestígio se exerce, diz ela, silenciosamente no cotidiano).

É claro que a autora não pretende fazer generalizações, mas essa não é uma constatação pertinente? O quanto a mestiçagem é usada como “fiel escudeiro” da branquitude? Silviano Santiago, no prefácio com rasgados elogios ao livro, diz: “Do romancista afro-americano Ralph Ellison, que na segregação norte-americana enxergou a invisibilidade do negro, Liv roubou o avesso para vesti-lo no branco brasileiro. O modo social da invisibilidade do branco no país da mestiçagem”.

Liv releva também de onde tirou o título de seu livro. Na época em que era professora da Faculdade de Comunicação da UFBA, em uma discussão sobre afro-baianidade, perguntou para um aluno como era ser branco na Bahia: “’Aqui ninguém é branco´ foi a resposta que ouvi. A resposta me dizia, implicitamente, ‘só você, aqui, é branca’. Difícil negar, pois minha brancura estrangeira já se comprovou gritante, era de parar taxista”.

A autora nega que aqui ninguém seja branco, mas não para usar uma dicotomia negros versus brancos, muita usada onde ela foi criada, nos Estados Unidos, e muito criticada, por alguns que desejam usar esse modelo para analisar as relações raciais no Brasil. Aliás, Liv também gasta várias páginas para discutir o uso do modelo americano para pensar a problemática brasileira.

O que Liv pretende demonstrar é que, ainda que sejamos miscigenados genética e culturalmente, aqui há, sim, brancos. Caso contrário, não teríamos distinções. Como ela diz: “Ser branco, neste país arco-íris, é uma espécie de aval, um sinal de que se tem dinheiro, mesmo quando não existem outros sinais, é andar com fiador imaginário a tiracolo. Ser branco estrangeiro é entrar em condomínio fechado ou restaurante de luxo, suado e malvestido”.

Ora, se isso é verdade, e é difícil não concordar com essa afirmação, em especial se pensarmos em cidades como Salvador, os brancos existem. A distinção existe e quem leva a pior nesse processo é, em geral, o negro.


Quanto mais a cultura negra consegue se expandir, mais a branquitude apela para o discurso da miscigenação para que o reconhecimento da negritude não desbanque os brancos das classes dominantes. Por essas questões, Liv defende que “é necessário analisar a articulação silenciosa da hegemonia branca”.

As reflexões de Liv seguem esse caminho e são muito mais refinadas do que consta nessa rápida resenha, mas, dito isso, podemos voltar para as suas análises sobre a música popular. Nelas, Liv tenta identificar como a branquitude aparece nas produções, nas performances dentro e fora dos palcos e também em entrevistas (ela própria entrevistou Caetano, em 2002). Liv conta que “são muitas as vozes ouvidas em Noites do norte”, CD inspirado no abolicionista Joaquim Nabuco. A autora elenca as várias vozes, mas destaca que elas “chamam a atenção pela sua capacidade de extrair o bom do ruim”.

Por exemplo, o acolhimento afetivo do negro escravo para com o branco, a romantização do sofrimento dos escravos, entre outros. Mas, apesar de dizer que Caetano é mais senhor do que escravo, isso não faz Liv chamá-lo de travesti, como ela denomina Daniela.


Ao analisar Daniela, primeiro Liv recupera uma fala de João Jorge, do Olodum, que critica a cantora por não ter, na opinião dele, dado uma contrapartida pelo uso “da nossa riqueza, nossa herança”. Depois, a professora lembra das políticas governamentais para a valorização da cultura negra, o que seria uma das razões para que as pessoas não estranhassem que Daniela cantasse “a cor dessa cidade sou eu”.

E continua: “Daniela apoiou desde cedo a valorização da cultura negra. Ela contribuiu para a mudança da hegemonia branca na Bahia, pelo menos na sua identidade cultural, para uma coloração imaginária mais próxima à da população, mas ficou numa estranha posição, para quem a vê de fora e fora do carnaval, de uma espécie de travesti. Ela usa a fantasia, se veste de negra, mas todos sabem que não é”. E diz mais: “Daniela se fantasia, usa máscara, finge ser o que não é”.

Já Gabriel o Pensador, não usa fantasia, segundo Liv, porque suas letras o identificam como branco. E Marcelo Yuka? “(…) ele reconhece que está incrustado em uma realidade predominantemente negra, faz parte integral dessa realidade, é cúmplice de negros oprimidos pelo racismo. O letrista articula uma crítica antirracista cidadã, sem vestir as roupagens da cultura negra, como faz Daniela”. Sim, mas mesmo guardadas as devidas proporções, não seriam, então, todos os brancos uma espécie de travestis?
O debate está aberto.

Leandro Colling é professor adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, da UFBA.

Fonte: Jornal A Tarde - Caderno 2

http://caderno2mais.atarde.com.br/

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Comentário de Naiana Sundjata em 31 maio 2010 às 17:19
Alguém ja teve acesso a esse livro? Tô muito curiosa pra ler a análise de Liv Sovick.

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