Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite*

   

       A cada ano, no dia 02 de fevereiro, em Porto Alegre, ocorre uma das maiores manifestações populares de caráter cultural e religioso: a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. De tradição açoriana, ela reúne católicos e adeptos de religiões de matriz africana.  Este encontro da diversidade religiosa foi reconhecido como o primeiro patrimônio cultural imaterial da capital gaúcha e ocupa o 3º lugar entre as mais importantes festas populares que ocorrem no Brasil.      

    A imagem da santa foi esculpida, em Portugal, no ano de 1871, pelo artista lusitano João de Affonseca   Lapa. Um grupo de lusitanos, composto por João José de Farias, Joaquim Assunção, Antônio Campos e Francisco Lemos Pinto, foi o responsável pela encomenda da escultura. Como não havia uma igreja dedicada à santa, a imagem foi depositada, na Capela do Bom Fim, em frente do Campo da Várzea (atual Parque Farroupilha). Neste local, aos domingos, os negros realizavam seus batuques com a presença da legendária mãe Rita. A imagem permaneceu, por curto período, naquele local, e foi conduzida numa procissão fluvial até a capela do Menino Deus.

     Em 1875, a portuguesa Margarida Teixeira de Paiva doou um terreno, no qual foi construída uma capela de madeira, na zona norte de Porto Alegre, para homenagear a santa. Os comerciantes do antigo Arraial, atual bairro do Menino Deus, relutaram bastante quanto ao translado definitivo da imagem, ficando esta, por um período, na igreja da Nossa Senhora do Rosário; porém logo cederam diante da construção da nova capela, especialmente, erigida em honra de Nossa Senhora dos Navegantes.  Encerrado o impasse, a imagem foi transportada via fluvial até o novo local. Infelizmente, esta primeira capela de madeira foi destruída, por um incêndio, e reconstruída, em 1896, no mesmo lugar, desta vez de alvenaria.

    Com imensa tristeza, em dezembro de 1910, o ano em que o Cometa Halley cruzou o céu, novamente, os moradores do lugar vivenciaram outro incêndio, que destruiu completamente o templo, restando apenas o cálice da comunhão. Neste sinistro, a imagem da santa sofreu danos irreparáveis. Com o empenho da comunidade, o templo foi concluído, em 1912, e reinaugurado, em 1913, com a presença de outra imagem de Nossa Senhora dos Navegantes que foi esculpida pelo mesmo artista lusitano, João de Affonseca Lapa, autor da imagem original de 1871.  

     Mergulhando no passado, em 1500, na esquadra de Pedro Álvares Cabral havia uma imagem da Nossa Senhora da Boa Esperança na Nau Capitânia. A figura da Virgem Maria  protegia àqueles que enfrentavam as tempestades e demais perigos presentes no mar e nos rios à época das grandes navegações. A tradição, que associa à figura da Mãe de Jesus, com a água, é antiga, pois este elemento representa a vida, a renovação e as emoções humanas no imaginário de diversas culturas desde a Antiguidade.

     Em Porto Alegre, no mês de janeiro, a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes é transladada, numa procissão terrestre, para a Igreja Nossa Senhora do Rosário, no centro da capital, onde permanece, por um período, recebendo a visitação de milhares de fiéis.  Pela manhã, no dia 02 de fevereiro, a imagem retorna à sua igreja de origem. Neste dia, Porto Alegre acorda diferente. Há um sentimento de fé que contagia o porto-alegrense. Acompanhando a procissão, católicos e adeptos das religiões de matriz africana reverenciam “A Mãe da Humanidade”. Um “mar de devotos” segue a imagem da santa num cenário múltiplo de cores, composto por velas, flores, rosários, patuás e hinos  em louvor à Nossa Senhora dos Navegantes ou Iemanjá, a “Rainha do Mar”.  O trajeto da procissão até o atual bairro Navegantes, na zona norte da cidade, iniciou somente no ano de 1875, quando foi construída, no local, a igreja em honra à santa, conforme registro no início do texto. 

    Por longos anos, o estuário do Guaíba foi o cenário deste importante evento religioso e cultural da cidade. A tradição, por via fluvial, foi interrompida, em 1989 , devido ao naufrágio do barco Bateau Mouche, no Rio de Janeiro, quando se alertou o país inteiro quanto ao perigo de passeios fluviais em embarcações desprovidas de equipamentos de segurança adequados. Ainda ocorre uma procissão fluvial paralela à terrestre, em menor escala, porém sem a dimensão dos tempos de outrora. Neste ano de 2015, este tradicional evento religioso comemorou 140 anos com a presença de milhares de fiéis.

            No dia 02 de fevereiro, nossa orla marítima se cobre de flores e perfumes que são ofertados, pelos adeptos das religiões de matriz africana, à Rainha do Mar. Milhares de devotos, ao som dos atabaques, prestam em nossas praias suas homenagens para Iemanjá, conhecida, também, como Janaína ou “Mãe Sereia”.  A origem do nome Iemanjá é Yorubá.  A expressão “Yèyé  omo  ejá “, traduzindo para o português, significa a mãe cujos filhos são peixes. O sincretismo deste orixá de origem africana, com a Nossa Senhora dos Navegantes, remonta à época da escravidão e faz parte do imaginário popular, a exemplo do orixá Inhansã, senhora dos ventos e das tempestades, que é associada à Santa Bárbara. 

    Infelizmente, em algumas culturas, estas diferenças, principalmente, no campo religioso, geram guerras e conflitos como registra a história. A Festa dos Navegantes e outras de caráter popular e sincrético, que ocorrem no Brasil, demostram para o mundo que é possível conviver com a diversidade e suas múltiplas manifestações, onde a fraternidade e o amor sejam o fio condutor, para que um dia possamos vivenciar uma sociedade mais justa e fraterna.

   Salve Nossa Senhora dos Navegantes!   Àsé minha mãe Yemojá !  Odoyá,  Omiô, Odofiaba! 

                  

                          Pesquisador e Coordenador do Setor de Imprensa do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa*

  

Bibliografia:

    ANJOS, José Carlos Gomes; ORO, Pedro Ari. Festa de Nossa Senhora dos Navegantes / Sincretismo entre Maria e Iemanjá.  Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura (SMC), 2009.

   FERREIRA, Walter Calixto. Ago-iê, vanos falar de orishás? Porto Alegre: Renascença, 1997.

    LICHT, Henrique. Nossa Senhora dos Navegantes / Porto Alegre 1871-1995. Porto Alegre: Editora UE, 1996.

    ORO, Ari. Religiões Afro-brasileiras do Rio grande do Sul: Passado e presente. Estudos Afro-Asiáticos vol. 24, nº 02, Rio de Janeiro, 2002. 

http://memoriacarris.blogspot.com.br/2015/02/procissao-de-nossa-sen...; Acessado em 18 /04/2015  01h:05

 

                                                                              

Exibições: 563

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço