Negra loura e a África tanzaniana: uma reflexão


 

Por Márcio Paim[1]

           

Este texto é uma breve reflexão sobre a “polêmica” instalada sobre a personagem “negra loura” criada por Cláudia Leite para o carnaval de 2012 em Salvador. Por ser produto de rápida análise, o texto foi redigido de maneira corrida (pois à medida que pensava materializa meu pensamento nessas palavras) e sem as formatações da ABNT. Penso que, a ausência das “ABNT” não deve servir como instrumento/argumento de “desqualificação” intelectual, já que, o objetivo é a liberdade de expressão e não a construção de um texto acadêmico.

 

Sábado 10/12/2011, ao retornar para Salvador vindo de Valença, percebi certa euforia de um grupo de pessoas no Ferry boat em torno de uma “nêga loura”, só que não dei muita atenção por achar que se tratava de uma brincadeira entre os membros do grupo. Até aí, não tinha conhecimento do que se tratava. No domingo pela manhã, ao retornar da padaria, na passagem, encontro um amigo que diz: depois quero falar com você, e me pergunta se eu vi a “negra loura”! Imediatamente fiz a relação/ligação com a “negra loura” do ferry. No domingo à noite, o velho ditado de que: “o povo aumenta, mas não inventa” se confirmou de forma veemente só que, com a informação equivocada de que Claudinha Leite “ iria se pintar de preta”, para interpretar uma negra, no sentido de mostrar sua dívida e homenagear essa coisa louca e contagiante que é a negritude de Salvador.

O coração disparou! Se pintar de negra na maior cidade em números de negros fora do continente africano para mostrar  que também tem negro na família! Cê tá de sacanagem comigo né mano, foi o que pensei no momento! Na segunda-feira, 12/11/2011, após uma conversa com minha companheira, ela me falou a respeito da “polêmica” instalada – pois não estava sabendo - em Salvador em torno da criação de uma personagem (negra loura) interpretada por Cláudia Leite. Fui consultar a internet para obter mais informações, ou informações mais precisas sobre esse assunto, e encontrei no site: http://musica.uol.com.br a seguinte chamada: Cláudia Leite vira “negra loura” e planeja show em estádio. Descobrir que a ideia de se pintar de negra, era falsa! Ao ler a reportagem, fui informado de que esta personagem será criada a partir do apelido, dado por Carlinhos Brown, e que está cantora adotará no sentido representar as influências musicais negras que esta “estrela” introduz em seu trabalho. Não me interessa aqui nesta reflexão problematizar os motivos que levaram Brown denominar Claudinha Leite com esse nome, mas na minha interpretação, acho que esse apelido dado por ele é uma forma de dizer carinhosamente: Você é uma das nossas apesar da sua pele branca e seu cabelo louro! Na Bahia costuma-se fazer referência aos brancos “solidários” à causa dos negros como: brancos de alma negra, ou, é muito comum afirmar, a depender do contexto que há brancos tão negros quantos os próprios negros à medida que estes optam em enfrentar as adversidades para fazer parte de um “mundo negro”.

No que diz respeito ao ato de criar, penso que a criação é um ato sublime, principalmente quando o mesmo, está ancorado e comprometido em dar voz a indivíduos e acontecimentos silenciados pela narrativa dos vencedores, assim como, quando os personagens, produtos da criação conseguem tocar as profundezas da sensibilidade deixando uma mensagem que além de chorar nos faz refletir. Por isso não vejo nenhum problema no ato de criar. O problema surge quando se faz uma relação entre o personagem criado e o contexto o qual a criação está inserida! Transpondo o sentimentalismo – da reciprocidade da amizade entre Cláudia Leite e Carlinhos Brown –  o que é realmente uma “negra loura” em Salvador? Qual o impacto dessa personagem em uma cidade onde parte significativa do seu contingente populacional (negro) sobrevive nos limites da dita “linha da pobreza”? Mais, qual o impacto dessa personagem em um ambiente que reina o discurso da obrigatoriedade da lei do ensino da história da África e da cultura afro-brasileira e onde se fala da construção positiva da imagem da África e de suas populações? Será que uma “negra loura” a essas alturas do campeonato tem alguma contribuição a dar nesse sentido?  Essa discussão pode ser feita a partir de duas perspectivas: a popular e a acadêmica. Na perspectiva popular-povão, o visual é o que mais importa, ou seja, tudo está no visual.

Na perspectiva acadêmica, tem importância os discursos produzidos pelos analistas sobre aquilo que se vê. Nesse sentido, o impacto e os discursos produzidos sobre a personagem da negra loura de Cláudia Leitte devem ser analisados. Deve-se considerar acima de tudo o local de onde se fala. Salvador: capital do estado com o maior número de negros entre os estados da Federação; maior cidade em número de negros fora do continente africano; Brasil, país com o maior número de negros em seu contingente populacional fora do continente africano. Não podemos nos esquecer da conjuntura aberta pelo decreto 4228 a partir de 13 de maio de 2002 que institui a introdução de ações afirmativas e que faz da década de 2000 o período em que as autoridades governamentais, de fato, deram um passo significativo no combate ao racismo e na desigualdade gerada por ele.Imprescindível mencionar que nesse contexto, a imagem consolidada da Bahia – a baianidade nagô - para o restante do país e do mundo a partir de “porta-vozes” como Gilberto Freyre, Dorival Caymmi, Jorge Amado, Câmara Cascudo entre outros, é a de uma terra caricatural, folclórica, mítica, onde todo mundo é de candomblé, onde todas as mulheres, principalmente as negras, estão sempre dispostas ao sexo, assim como os homens negros, que ainda hoje, servem como experiências mitológicas das mulheres brancas que tem como uma de suas principais fantasias sexuais: transar com um negão e conferir de fato, se eles estão no lugar o qual a mitologia sexual peniana euro-ocidental estabeleceu para eles, os negros! Onde é verão e alegria o ano todo, onde não existe racismo, ou melhor, onde o racismo é mais “cordial” e subsumido, onde ninguém se estressa com absolutamente nada! , onde as pessoas estão o ano todo com o sorriso estampando na cara, mesmo passando fome, ou seja, uma cidade de idiotas! Um lugar onde se pode fazer de tudo que nada pega, o lugar onde é permitido a qualquer  aventureirozinho(a) – sem qualquer visibilidade em seu lugar de origem - jogar a mochila nas costas tentar ganhar a vida, fazer fama, carreira e virar autoridade, principalmente no campo das relações raciais, como tem acontecido – ou sempre aconteceu, não sei, não sou tão velho assim – em Salvador nos últimos anos.

“Esses oportunistas” enxergam em Salvador a oportunidade de construir – ou aumentar - sua prosperidade e suas fortunas – à custa dos um bando de ‘idiotas”, pois é isso que algumas pessoas do “Sul”, acham que nós baianos, somos - bem dentro daquela visão que os primeiros conquistadores tinham da América e da África quando invadidas desde o século XVI! É difícil constatar, hoje, que a ideia de uma Bahia mítica com seus habitantes “super-tranquilos” consolidada durante a primeira metade do século XX, está ilustrada na forçação de barra da personagem “negra loura” de Cláudia Leite que bando de bostéticos quer colocar goela abaixo da população com a justificativa de “diversidade cultural criativa”. Não se trata de crítica ao livre arbítrio da criação, e sim as pessoas que as fazem e da maneira irresponsável como fazem! É sórdido e intragável forma como a apropriação da cultura africana e afro-brasileira é feita descaradamente por pessoas que tem uma afinidade muito maior com a geração e os hábitos dos colonizadores, do que qualquer descendência com aqueles que foram colonizados! Uma personagem como essa, em um país, um estado e uma cidade que possui o maior contingente populacional de afrodescendentes fora do continente africano é um menosprezo a capacidade de raciocínio da comunidade afrodescendente que aqui habita,  além de esculachar a possibilidade de auto definição identitária, ou seja, na Bahia/Salvador em termos de identidade: somos tudo e não somos nada ao mesmo tempo! Na Bahia pode tudo e tem de tudo, tem até “negra-loura”! Fica muito claro que a personagem de Claudinha Leite é pura jogada de Marketing, fica muito claro que a dita cantora, não nutre qualquer tipo de relação com a África, nem com a cultura afro-brasileira nem com influência musical africana coisíssima nenhuma! Seu único compromisso, é com o lucro que a possibilidade da utilização da cultura africana pode trazer para ela ( como é muito comum no meio artístico – musical soteropolitano) , principalmente quando analisamos suas palavras ao dar uma entrevista dizendo: "Sou negra quando canto esse tipo de música, são minhas raízes"

Ser negro, mais do que a cor da pele, é ter consciência do passado histórico e da ancestralidade a qual pertencemos e não a partir da música que cantamos. Pra mim, esse critério é novo! Uma declaração destas, vindo de uma pessoa com um imenso poder de mobilização pública – quantos políticos conseguem colocar mais de cinco mil pessoas em um ambiente público para ver seus discursos enfadonhos? – demonstra a apropriação descarada da cultura africana e afro-brasileira. Pior ainda, é seu figurino está influenciado nas indumentárias de tribos africanas. Pergunto-me, qual a concepção de África e de negro que está criatura – Cláudia Leite - e sua produção possuem, onde, para ilustrar a influência africana tem que buscar indumentárias de tribos? O conceito de tribo teve um uso bastante corrente no âmbito da antropologia do século XIX e da primeira metade do século XX, como uma forma de demonstrar a “incapacidade” das populações africanas de acompanhar o desenvolvimento urbano que tinha como parâmetro as habitações europeias. Devido a sua ambiguidade, passou-se a utilizar termos como: sociedades tradicionais ou sociedades antigas como uma forma de demonstrar a dinâmica das sociedades africanas em detrimento do conceito “racista” de tribo. Só que para Cláudia Leite e sua produção, esse tipo de discussão é para acadêmico e não para cantores de axé!  Fica nítido que a concepção tarzaniana[2] da África sustentada por Claudinha Leite e sua produção não é diferente da visão nutrida pelas elites racistas e monopolizadoras do Brasil e da Bahia. Para coroar a forssação de barra de Cláudia Leite como negra loura, temos que saber que: Sua equipe está viajando ao continente em busca de adereços e referências.

Ter que sair da cidade mais “africana” e negra, fora do continente africano para procurar adereços e referências sobre África pode significar três perspectivas: a primeira: apropriação simples e descarada da cultura africana, partindo do pressuposto de que na Bahia existe um monte de idiotas sem qualquer tipo de consciência racial onde qualquer moda que se lança cola, inclusive uma “negra loura”! A segunda; mostrar a capacidade que as pessoas tem de se “transformarem em negras” na Bahia, independente da cor da pele, ou seja, na Bahia tudo se ajeita, sem stress!;  a terceira, incutir na cabeça da comunidade afro-soteropolitana que essa ideia de conscientização racial é uma balela de militantes negros ressentidos que tentam enegrecer a história, e que na Bahia tudo é lindo, alegre, divertido e super-tranquilo. Outros exemplos de negros fabricados pelas mídias – principalmente a musical - e empurrados goela abaixo da população são bastante frequentes na Bahia. Basta ter que lhe dar com Daniela Mercury usurpando o título de representante da axé music, da Bahia e de sua cultura ( a cor dessa cidade sou eu, o canto dessa cidade é meu, dela no caso!) e vê uma negra lindíssima e charmosa como Margareth Menezes – com muito mais tempo de carreira – ficar secundarizada, embora com “sucesso”.

Ter que aturar músicos, artistas e cantores como protótipos de negros e representantes da Cultura negra da baiana – só porque se vestem com batas africanas - e vê uma voz como a de Lazzo, ter que desfilar em trio independente às 3 da manhã por não querer transformar sua música, em “música popular” como todas as outras; ter que engolir que um reggaeman como Edson Gomes com mais de vinte anos de carreira e que fazia reggae no Pelourinho antes de sua transformação turística, ou seja, desde o tempo em que o pelourinho era área de diversão para ladrões e profissionais do sexo, quem alcançou esse tempo? É duro vê o reggae de um cara como este, ser substituído na representação do reggae de Salvador, por uma caricatura de cantores de reggae representados por um grupo de playboys de classe média-alta que, ao terminarem seus “shows” voltam pra casa em seus próprios carros ou no dos amigos! Estou citando Edson Gomes que é o mais famoso, pois como ele temos outros cantores como: Dionorina, Ubaldo U’waru, Geraldo Cristal, Kebra Nagast, Kamafeu Twa e outros que jamais tiveram ou terão oportunidade de fazer sua música enquanto os abutres estiverem por perto! Esse é o tipo de igualdade (a deles) que está a se consolidar em Salvador.

São esses tipos de relações que fazem essa elite branca - na sua maior parte, de fora de Salvador - celebrar a “perfeição” da miscigenação baiana! É muito lindo celebrar essa miscigenação quando o maior contingente populacional que faz ela acontecer está na base da pirâmide, sem levar qualquer tipo de ameaça as elites monopolizadoras do poder! A “negra loura” de Cláudia Leite é a continuação desse  circo descarado, armado desde os períodos da escravidão, mantido e continuado com a ideia criminosa de “baianidade” a qual as elites brancas sulistas se deliciam. A “negra loura” de Claudinha é um desrespeito à memória de muitos e muitas que serviram de escada e “capacho” para os ancestrais daqueles que hoje se apropriam, enriquecem e ridicularizam a cultura africana e afro-brasileira. É um desrespeito aqueles que nunca tiveram a oportunidade de conhecer sua própria história para poder repudiar essa harmonia racial que eles estão querendo empurrar! Não podemos nos esquecer de que a euforia de muitas pessoas em querer ser negra (o) agora e se identificar com a África faz parte de um movimento fortíssimo de AFRO-CONVENIÊNCIA que está consolidando (sem esquecer suas ambiguidades e “benefícios”) em Salvador e tem atraído muitas pessoas de outros estados que agora se descobrem negras.

Eu pergunto, caso não tivesse havido a lei 10.639, o decreto 4228/02 e a lei 11.645, quantos desses fariam questão de se dizer negro? Ser negro hoje, a depender do contexto, para alguns, é estratégico, pois se abriu um mercado de africanidades e conhecimentos africanos e diaspóricos que até o momento quem domina e tem acesso, não é a maioria afrodescendente. Hoje todo mundo tem um avô e uma avó negros (e de forma alguma, quero negar que tenha havido casos em que isso tenha ocorrido) um namorado e outras coisas mais com alguém de cor, hoje é lindo, muito bonito ter acesso ao bônus de ser negro, o ônus ninguém quer! Isso se torna mais gritante quando transpomos os “limites” da música e adentramos a educação. Percebe-se que parte significativa de pessoas que falam de África, de racismo e de relações raciais nos espaços onde os conhecimentos são produzidos (em âmbito mundial) dificilmente passou por qualquer situação racial constrangedora. O que deixa chateado, é saber que muitos que falam da/sobre África e o racismo, dificilmente em suas vidas, foram constrangidos em abordagens policiais (Acreditando que abordagem policial não é, de forma alguma, condição para dizer quem é ou quem não é negro, correto? Mas só para se ter uma noção dos constrangimentos) com a “famosa” justificativa de que: estamos contribuindo para sua melhor segurança!; É muito difícil coabitar e saber que muitos que falam de África, do racismo e de outros assuntos correlatos raramente passaram pela experiência de, na época de suas graduações serem confundido com um funcionário dos SERVIÇOS GERAIS, só porque usava uma camisa da mesma cor (gola pólo azul) que o “pessoal da limpeza” e a professora nem sequer se deu o trabalho de olhar no rosto para saber que ela estava a tratar com o aluno da sua própria disciplina! Quando falo dos SERVIÇOS GERAIS, é bom deixar muito claro, não o faço no sentido de desmerecer o trabalho, pois todo o trabalho desde quando seja honesto, é digno! Mas falo no sentido de destacar que a função de SERVIÇOS GERAIS, hoje, na maioria das repartições públicas e privadas é quem mantém, estruturalmente, as instituições de ensino superior em funcionamento. Geralmente as maiorias das pessoas que fazem esse serviço são negra (o)s.

São os mesmos os quais muitos de nós passávamos todos os dias, durante os anos que estivemos nas nossas universidades, e nunca nos preocupamos em dar um bom dia! Eu particularmente, por onde passei, tive em contextos diferenciados, uma relação melhor com essa (e)s funcionários do que com muitos professores! As relações são mais abertas quando nos identificamos, pelo menos inicialmente! É importante deixar claro, antes que me interpretem mal, que sou contra a ideia de que só negros devem falar da África e do racismo, por entender que tanto um, quanto outro está direta ou indiretamente relacionado com a sociedade brasileira e não apenas ao contingente afrodescendente da população total do país! Corta a carne, saber que muitas professoras que hoje falam de África e de racismo, poucas vezes ou nunca, tiveram que passar pelo constrangimento (isso é só para se ter uma ideia dos constrangimentos a que mulheres negras estão submetidas)  de serem confundidas com “profissionais do sexo” por desfrutarem de um ambiente que a sua condição econômico-acadêmicas permitiu, ou seja, mulher negra em determinados ambientes, ou é doméstica ou “trabalhadora do sexo”[3]! Enfim meus amigos esse é o contexto racial de Salvador que tem sido celebrado e o qual tem sido confrontado nos últimos anos.

Quem fala de racismo é quem nunca sofreu, quem fica preso são os inocentes, quem fala de fome são os que sempre andaram de barriga cheia, e ainda temos que ouvir o pessoal dizer como nós temos que nos posicionar em relação ao racismo ou que fazemos o discurso das vítimas! É mole ou quer mais! É essa ideia de democracia, igualdade e liberdade (para eles) que as elites querem consolidar em Salvador. Consolidar não, empurrar goela abaixo na população! E nós, que não concordamos com essa inversão descarada de valores que querem impor, somos acusados de querer o retorno a uma África estática, de fazermos racismo às avessas e de todos os rótulos e termos que possam silenciar e ridicularizar as vozes discordantes, ou seja, ou aceitamos ou somos ridicularizados como atrasados! Talvez essas palavras caiam no esquecimento hoje à noite, pois no momento que as escrevo, descubro que haverá o show da “negra loura”. Também não me importo, o que eu queria já fiz: me expressar. Mostrar a essa elite super-legal, que na Bahia há pessoas que raciocinam e discordam. Certa vez me perguntaram se eu percebia um progresso da situação racial em Salvador, parafraseie Malcolm-X quando um repórter lhe perguntou se a situação racial nos Estados Unido havia melhorado ao que Malcolm respondeu:

Não, não. Eu nunca direi que está havendo progresso. Se você me apunhá-la e tira a metade do punhal, não há progresso. Se você o retira todo, não há progresso. Progresso, é curar a ferida causada pela punhalada. Você nem admitirá que o punhal está lá.

 

Penso que a esta frase, com todas as suas reservas, ilustra de maneira irrefutável a ilusão da “falsa igualdade” das relações raciais na Bahia. E nesse sentido, mesmo sendo ridicularizado por não concordar com essa hipocrisia que assumo a célebre frase de Huey Newton, fundador do partido Black Panther (Panteras negras): É melhor morrer de pé do que viver a vida toda de joelho, só que para morrer de pé, os fundadores do partido Huey Newton e Bob Seale (no seu contexto estadunidense) tiveram que enfrentar dois problemas centrais: a inércia e a ignorância da comunidade negra. Esse problema (a ignorância sobre o passado africano), por sua vez, parece ser o mesmo empecilho que mantém “insensível” uma parte da comunidade afro-soteropolitana e contribui para coexistência com este tipo de contrassenso! É pela falta de questionamentos a esses tipos de forçação que a BAHIA E O NEGRO É, SERÃO CARICULTURALMENTE LINDOS!  



[1] Graduado em História (bacharelado) pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL) – 2006. Mestre em Estudos Africanos pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia CEAO/UFBA – 2011.2.

[2] Termo derivado da série americana Tarzan: o rei das Selvas que de uma forma indireta terminava por ser implicitamente a saga de conquista do homem branco nos territórios africanos colonizados.  África tarzaniana foi um termo ouvido por mim de um antigo professor de história – Guimário - ao fazer uma pergunta em um curso que participávamos sobre a história contemporânea de Angola.

[3] Essa situação “dantesca” me foi relatada por uma pessoa muito próxima à minha família! 

Exibições: 1889

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Comentário de Márcio Luis da Silva Paim em 19 janeiro 2012 às 21:09

...

mal disfarçado do RACISMO EPISTÊMICO. Em inúmeros contextos esse mesmo discurso tem assumido a forma de “ridicularização discursiva” por intelectuais que, ao mesmo tempo em que se dizem engajados na luta por uma sociedade diversa e igualitária, esvaziam os discursos que fogem à lógica do “academicamente correto”.

De acordo com sua interpretação, fecho os olhos para o que interpreta como uma “blindagem” em relação aos negros, precisamente a Carlinhos Brown, privilegiando críticas aos “brancos”. Como negro, não tenho porque manter ou fazer qualquer tipo de “blindagem” à pessoa de Carlinhos Brown. Inclusive penso que, sendo uma pessoa com grande capacidade de mobilização, ele poderia exercer junto à comunidade afro-soteropolitana uma influencia muito maior do que a exercida até os dias correntes. No entanto, dirigir minha crítica a Carlinhos Brown requer que informações importantes não sejam deixadas de lado. Com seu trabalho musical, Brown fez um trabalho muito sólido na comunidade onde ele nasceu, fundou a escola de música PRACATUN onde parte significativa dos jovens (negros) aprendem a compor partituras, música clássica, inglês e informática. Isso deve ser levado em consideração quando se sabe – não sei se sabe disso – que parte significativa dos jovens afrodescendentes é analfabeta. Embora tenha construído seu império “tocando tambor” Brown mudou a realidade de, pelo menos, parte significativa dos jovens negros (e são milhares) de sua comunidade, pois, criou uma alternativa ao “velho” o discurso de que tambor é coisa de negro. Com a fundação dessa escola, o bairro do Candeal Pequeno (de maioria negra) e historicamente esquecido pelos poderes públicos, conseguiu ganhar certa visibilidade para captar recursos e promover uma revitalização que levou mais dignidade aos moradores do bairro, além de dar visibilidade internacional para o local, com a construção da casa de shows Candeal Gueto Square que, diga-se de passagem, foi fechada após a elite da redondeza (o Alto do Itaigara) sentir-se incomodada, mesmo sabendo que seus filhos eram os frequentadores assíduos do lugar. Cabe destacar que Carlinhos Brown, não é a comunidade afro-soteropolitana e sim um indivíduo que faz parte desta e para muitos em Salvador, além de não mais surpreender, é “conhecido” o seu posicionamento em relação à questão racial. Penso que será difícil para o senhor compreender, nesse contexto, o sentido e a importância da palavra REVITALIZAÇÃO em um bairro pobre e de maioria negra a depender da posição social que ocupe na sociedade em que vive. O que tem feito Claudia Leitte para a população negra?

O centro da minha crítica é a apropriação da cultura negra pelas elites soteropolitanas, pois Salvador é a cidade onde habito e que me dá legitimidade para emitir algumas opiniões.

Sobre Gilberto Freyre, Jorge Amado, Câmara Cascudo, como Mestre de Estudos Africanos e filho de uma professora universitária que leciona disciplinas de Cultura Baiana e Cultura Afro-brasileira, é muita pretensão da sua parte achar que me arriscaria a citar o nome desses autores sem conhecê-los. Chama atenção em sua crítica o pressuposto de que repeti um padrão comum a todo grupo étnico e para isto cita Norbert Elias para reforçar a legitimidade da informação. Padrão comum a quem? A suposição de que os grupos étnicos possuem padrões de comportamento uniformes e imutáveis não é um argumento considerado entre os estudiosos das relações étnicas, campo que já produziu uma ampla gama de pesquisas. Vale a pena tomar conhecimento delas.  

Comentário de Márcio Luis da Silva Paim em 19 janeiro 2012 às 21:04

Olá José Augusto

Embora estejam fora da ordem minhas pontuações, li atentamente as suas críticas – pontuais, mas apreciáveis – e, considerando o fato de estarmos num estado “democrático”, penso que algumas observações devem ser feitas. A primeira delas: cabe esclarecer que não pertenço a nenhuma instituição de sigla partidária ou qualquer outro movimento “social”, portanto, sou “independente”. Também não faço parte de nenhuma organização do Movimento Social Negro – embora não deixe de reconhecer o espaço e importância que duas organizações do movimento negro (CEAFRO e Steve Biko) ocuparam na minha formação política. É muito comum às pessoas relacionar o posicionamento racial de qualquer indivíduo negro à militância, ou seja, qualquer negro que fala de racismo ou assuntos correlatos é militante do movimento negro. O racismo é um problema da sociedade brasileira e não apenas dos negros do Brasil, ou do movimento negro, como sua crítica deixa implícita. Pensar dessa forma é reproduzir um pensamento mesquinho – para não dizer racista – que parte do pressuposto de que discutir racismo é coisa de militante negro. Por outro lado, ao desqualificar o lugar do qual falo ao afirmar que não devemos eleger a causa de nossa militância para objeto de nossas pesquisas é reiterar uma posição de suposta neutralidade científica contestada com vigor desde, pelo menos, a década de 1960, momento a partir do qual os chamados “subalternos” (negros, mulheres, indígenas) “começaram a falar”. Sugiro que leia a obra de Franz Fanon, pioneiro dos Estudos Pós-coloniais, e das companheiras feministas, que há séculos questionam a neutralidade científica e desconstroem a “objetividade” da ciência ocidental.

O texto escrito por mim é a materialização de uma breve reflexão de um negro que pensa e que não se limita apenas a reproduzir o pensamento dos outros, como expresso na introdução. Não submeti meu texto ao rigor acadêmico reivindicado em sua mensagem e nem faria sentido, pois não é à academia que me dirijo. Como um profissional com o título de Mestre em Estudos Africanos pode temer o “rigor analítico” da academia (eurocêntrica, diga-se de passagem), já tendo passado por ela? Uma afirmação desse tipo me faz pensar em duas possibilidades de respostas. A primeira é que você acredita que o meu título foi obtido sem nenhum mérito ou rigor acadêmico. A segunda é a prepotência em afirmar ironicamente que, detendo o título de mestre, não sei escrever. Questiono: será que não sei escrever ou o senhor não sabe interpretar? Quando afirmo que o meu texto se propõe a uma breve reflexão, o faço no sentido de deixar explícito para os leitores – inclusive, mas não apenas os acadêmicos - que no momento de transferência das minhas idéias para o papel o que menos me importou, além da “materialização da minha revolta”, foram os vieses interpretativos e os “formalismos normativos” comuns à academia. Não me importei com a estética textual acadêmica por acreditar em uma forma de expressão denominada LIVRE PENSAMENTO! O teor da sua crítica, por sua vez, me faz constatar como o LIVRE PENSAMENTO é utópico, pelo menos quando se trata de negros que expressam suas ideias e experiências. Nesse sentido, o rigor acadêmico pode ser estratégico e conveniente, restando a nós, a depender do contexto, saber para quem! Não podemos esquecer que, a depender do contexto: a suposta ausência de rigor científico, dependendo de quem esteja realizando a análise, serve como instrumento deslegitimador e de censura aos discursos que vão de encontro às argumentações “produzidas” (ou seriam apenas reproduzidas?) no interior da academia. Longe de sugerir que deixe de tecê-las ou diminua a intensidade do teor de suas críticas, lembro que, como acadêmicos, devemos saber discernir os escritos para os quais a intensidade do rigor acadêmico deve ser direcionada, para não corrermos o risco de apenas reproduzirmos o jargão

Comentário de José Augusto da Conceição Pereir em 29 dezembro 2011 às 22:31

Olá Paim,

 

            Li atentamente seu texto, porquanto se mostre demasiado instigante.  Ele é mesmo convidativo ao debate, despido dos formalismos normativos que, comuns à academia, se quedam impróprios a media não técnicos, como é o caso deste blog.  O que, porém, não significa declinar do rigor analítico que se exige de nós acadêmicos.  Pois que, do contrário, incorreríamos em duas graves faltas.  A primeira: promover um embuste, ao revestirmos da autoridade intelectual, conferida por nossos títulos acadêmico, meras opiniões pessoais.  A segunda: privarmos a sociedade – que direta ou indiretamente financiou nossas formações acadêmicas – de informações de qualidade, pautadas no exame científico do objeto estudado.  Diga-se, tipo de exame este que, por força da tradição da(s) metodologia(s) acadêmica(s), se faz em caráter o mais profundo quanto possível, a ponto, inclusive, de não dispensar a contextualização histórica do objeto do estudo.

            Vai daí que, se nenhuma neutralidade científica existe e se, pois, estamos autorizados a ser parciais; não é franqueado a nós – mestres e doutores – o enfrentamento passional de qualquer questão-problema de nossa ciência, porquanto tal obnubile nosso entendimento e vicie nossa análise.  Aliás, é mesmo por isso que nos recomendam não eleger a causa de nossa militância para objeto de nossas pesquisas.

            Estou ciente do fato deste introito soar algo aborrecido aos leitores desta lista, contudo ele me parece de todo necessário a situar o lugar de minha “fala” e nutri-la da indispensável ponderação que refletida na moderação do discurso, assevera o equilíbrio do analista e confere inapelável seriedade a seu argumento.

            Posto isto, quero, então, revisitar, pontualmente, seu artigo.  Começo pela questão do “se pintar de negra, na maior cidade em número de negros fora do continente africano, para mostrar que também tem negro na família”, indagando a você quanto à fonte de sua afirmação.  Isto é, de onde você retira o dado de a motivação de Leitte para pintar metade de sua face de marrom se fundar na necessidade de informar a seu público uma ascendência familiar?

            Veja não se tratar de coisa pouca, vez que a informação primeira era a de que a cantora havia  inspirado a personagem – que pretende interpretar – em um codinome que lhe teria sido dado por Carlinhos Brown.  Considere, pois, que uma ou outra informação muda enormemente o contexto de produção da personagem e mesmo a mensagem que se tenta, por meio dela, transmitir.  Já que na informação pública de uma ascendência familiar se está tratando de uma questão de foro pessoal; ao passo que, na tradução corporal e literal de um apelido recebido de um terceiro, se está levando ao foro público um debate (sobre a constituição étnico/“racial” brasileira) que, portanto, vai muito além das divisas do Estado da Bahia.

            Lateralizada esta questão, para qual careço de uma resposta sua para discuti-la com maior

Comentário de José Augusto da Conceição Pereir em 29 dezembro 2011 às 22:31

profundidade, quero avançar para uma sentida ausência em seu discurso; a saber: a problematização dos motivos que teriam levado Carlinhos Brown a nomear Claudia Leitte, “negra-loura”.  É lícita  suspeitar – como fez – de que a nomeação de Leitte por Brown traduza um gesto de carinho e guarde o sentido de “você é uma das nossas apesar de sua pele branca e seu cabelo louro”.  O que não me parece adequado é, deliberadamente, resguardar o partícipe negro de sua responsabilidade quanto ao episódio para, isolando o branco, nesta cena, torná-lo alvo fácil de acusações e vilipêndios.  Por isso, deveria interessar, sim, a esta reflexão problematizar os motivos que levaram Brown a denominar Claudia Leite, “negra-loura”.  Afinal, como você próprio observou, “na perspectiva acadêmica, tem importância os discursos produzidos pelos analistas sobre aquilo que se vê”.

            A questão – a mais relevante em seu artigo – é “o que se vê”.  Porque suspeito que a blindagem que operou em relação a figura de Carlinhos Brown não foi (ao menos plenamente) consciente.  Ao contrário, ela apenas repetiu um padrão comum a todo grupo étnico (e já analisado por Norbert Elias, no seu Os estabelecidos e os outsiders) de se modelar a partir da minoria de seus melhores; enquanto fazem supor que os membros dos outros grupos portem as mesmas características “ruins” verificáveis, apenas e na verdade, entre os piores destes.

            Esta operação de constituição e/ou conservação de uma unidade (conforme o caso) étnica ou nacional exige a celebração das memórias mais convenientes à causa e o apagamento daquelas decididamente inconvenientes.  Do que aliás é exemplo a presente celebração que fazem muitos negros brasileiros em relação à África e a uma pretensa identidade africana.  Tratando a imigração negra para o Brasil como obra exclusiva de razias de europeus, notadamente lusitanos, no continente africano; ignorando, convenientemente, o escambo que comerciantes/autoridades tribais africanas faziam, de seus prisioneiros com produtos ofertados pelos estrangeiros.  E que me permita uma breve digressão: solução “ótima”, para povos que ainda não dispunham de penitenciárias, tanto menos do conceito de “segurança máxima”.

            Para além deste ponto, me encontro concorde com a afirmação de que “o impacto e os discursos produzidos sobre a personagem da negra loura de Cláudia Leitte devem ser analisados”.  Penso, apenas, que antes nos será preciso permitir a artista constituir o personagem, sem o que todo impacto que se experimente ou discurso que produza decorrerá, em verdade, do fantasma de Jim Crow (personagem de canção homônima, imortalizado pela interpretação caricatural do ator Thomas Rice que, em fins do século XIX, se apresentava com o rosto pintado de preto em pequenos esquetes de teatro).

            Sou concorde, outrossim, que se deve considerar o local de onde se fala.  Porém não acima de tudo, pois que se deve ter em conta, igualmente, o lugar para o qual se fala e o lugar de que se fala.  Neste sentido, caberia investigar como o soteropolitano representa sua cidade; como o baiano

Comentário de José Augusto da Conceição Pereir em 29 dezembro 2011 às 22:30

representa seu Estado e a capital deste; e como o brasileiro representa seu país, esta unidade da federação – a Bahia – e sua capital.  Isto é, se representam como uma cidade, um Estado, um país de um grupo de cor (entendido como raça) específico; ou como uma cidade, um Estado, um país de grupos de cor apartados; ou uma cidade, um Estado, um país predominante de mestiços; ou, ainda, uma cidade, um Estado, um país mestiços.  De outra sorte, falar de Salvador “como capital do Estado com o maior número de negros” entre os demais da Federação; ou como “maior cidade em número de negros fora do continente africano”; e mesmo, do Brasil, como “país com o maior número de negros em seu contingente populacional fora do continente africano” não se prestará a coisa alguma, senão a uma lírica logomaquia.

            Não me atrevo, aqui, a comentar sobre “aventureirozinho(a)(s) – sem qualquer visibilidade em seu lugar de origem –” fazem fama e carreira; e torna(m)-se  autoridade, no campo das relações raciais, em Salvador, porque de aqui, do Rio de Janeiro, desconhece a realidade e, mais especificamente, a pessoa sobre quem você, certeiramente, se refere.  Entretanto, não posso deixar de fazer um reparo com relação a injustiça que o movimento social negro moderno (este nascido na década de 1970) recorrentemente faz a Gilberto Freyre e Jorge Amado e que você estende a Dorival Caymmi (de Cascudo nada digo, porque não o li).

            É preciso interpretar cada autor (escritor, compositor etc.) a partir das referências de seu tempo, sob pena de se cometer o que seus colegas historiadores consideram o pecado mortal de seu campo de saber: o anacronismo.  Freyre e Amado, a seu tempo, foram aliados do movimento negro.  Seus escritos serviram à causa da militância, de então; a saber: a construção de uma democracia racial.  Freyre falou às elites e Amado aos estratos populares.  Ambos enfrentaram o racismo científico e, acusados de negrófilos, se arriscaram ao desprestígio.

            Amado, em especial, denunciou em suas obras o duplo preconceito que pesava sobre os negros: o preconceito de cor e o de classe.  Porém, como realista-moderno que era, compunha sua literatura, segundo ele próprio afirmava, a partir das muitas histórias que viveu ou tomou conhecimento.  Daí que o intercurso sexual não poderia quedar-se de fora de seus textos.

            Sobre Caymmi se pode dizer que sua música de foi sempre a trilha sonora da literatura de Amado.  E a prova cabal, símbolo maior, dessa “dobradinha” seguramente se encontre em Retirantes, canção composta por ambos, em 1946, para a adaptação teatral do romance: Terras do sem fim, de Amado e popularizada, a partir de 1976, como tema de abertura da novela Escrava Isaura.  Pondere, portanto, sobre o que foi um homem negro, chegado da Bahia, ganhar a cena musical na, então, capital federal, cantando história de vida das classes populares de sua terra de origem.  E, mais que isso, o impacto que teve estes dois homens (Caymmi e Amado) dizerem cantando provocativamente que “vida de negro é difícil”.

            É confortável, no contexto da Nova República repudiar a democracia racial, como se nela

Comentário de José Augusto da Conceição Pereir em 29 dezembro 2011 às 22:30

estivesse a origem do racismo no Brasil.  É fácil, em tempos de o sistema ONU, demais organizações internacionais, governos e mesmo de grande parte da academia brasileira abertos aos movimentos sociais e dispostos à promoção de políticas reparatórias, se apresentar como combatente contra o racismo. É, sobretudo, cômodo quando não se tem diante de si governos e academia nacional e estrangeira dominados pelo racismo científico, com que tiveram de lidar, ombreados com o movimento negro de então, estes que, agora, são tratados como negrofóbos, justo por aqueles por quem se expuseram ao lutar.

            Como pode ver, “esses oportunistas” não se restringem a Salvador.  Enxergam a oportunidade de construir ou aumentar sua prosperidade e suas fortunas em qualquer lugar deste país em que se encontre “ um bando de ‘idiotas’” que, por sua ignorância quanto à história fática, aceitem ser liderados por estes, servindo de coro ao reclame de cargos e funções públicas – não para si, mas – para eles.

            Não “é difícil constatar, hoje, que a ideia de uma Bahia mítica com seus habitantes ‘super-tranquilos’ consolidada durante a primeira metade do século XX, está ilustrada na forçação de barra da personagem ‘negra loura’ de Cláudia Leite”.  O difícil é constatar de tudo isto de que você reclama é feita parte da fortuna da Bahia, vez que sobremaneira alimentada pela indústria do turismo.  E que ninguém diga que só a “elite branca baiana” é que se locupleta disto.  Cada um o seu quinhão, pobre e ricos, negros e não-negros.  Demais disso, há, sim, uma elite negra, aí, como aqui, que enquanto elite, nada se difere da amarela, da branca ou da vermelha e que aliás, não apenas se relaciona muito bem com estas, como com elas, quase sempre, se confunde.  Repetindo, inclusive, a mesma hipocrisia e desfaçatez no trato com as classes subalternas de todas as cores.  Esta elite negra, só aparece como negra, nos espaços e ocasiões em que se lhe mostra AFRO-CONVENIENTE.

            Concordo que “ser negro, mais do que a cor da pele, é ter consciência do passado histórico e da ancestralidade a qual pertencemos”.  O problema reside em saber do que e de quem se constitui esta ancestralidade.  Se ela é feita de uma idílica Mama África e uma ficta africanidade ou se de uma brasilidade de cuja a mestiçagem biológica e o sincretismo culturalmente nos fez sua expressão negra.  Isto é, se nos reinventamos bantos, berberes, hauças, hutus, iorubas, macumbas, tutsis, vodus etc. ou nos aceitamos crioulos – nascidos nas Américas – de ascendência africana as mais das vezes ignorada; ameríndia, igualmente ignorada; e européia, quase sempre lusitana.  Em resumo, matamos a parte da família de que os tempos de hoje nos fazem envergonhar ou incluímos esta parte que tempos atrás se envergonhavam de nós.

            Eu pergunto, caso não tivesse o movimento negro moderno insistido em uma construção social da realidade brasileira como algo bicolor, pressionando as famílias multi-fenotípicas (numerosas especialmente nas camadas populares a se definirem como negras), quantos desses

Comentário de José Augusto da Conceição Pereir em 29 dezembro 2011 às 22:28

fariam questão de se dizer negro?  Ser negro, hoje, é estratégico para o movimento negro.  Pois se a maioria se diz negra a legitimidade da pauta, da agenda e, consequentemente, da própria pessoa de suas lideranças deste movimento aumenta.

            Não podemos assacar contra os outros culpas por nossos próprios atos!  Não podemos reclamar do que nós próprios demos causa!  Não podemos dar tiros nos próprios pés!  Fomos nós que reclamamos de nossa invisibilidade ao mercado e que insistimos em fazer do “afro” uma commodity.  Fomos nós, então, que abrimos um mercado de africanidades e conhecimentos africanos e diaspóricos.  Logo, não temos agora do que reclamar quando a jovem mochileira alemã, na companhia de um jovem baiano negro, bate à porta da pousada em que me hospedo no Rio Vermelho para oferecer seus serviços de afro-pilates.  Do mesmo modo, não temos agora do que reclamar se vimos a público dizer que não nos interessa aqui nesta reflexão problematizar os motivos pelos quais um de nós deu a Claudia Leitte o epônimo de “negra-loura”.

            O que deixa chateado, é saber que muitos que falam da/sobre África e o racismo, dificilmente conseguem entender que o racismo, surgido como instrumento do imperialismo e, pois, como modo de estruturação das economias capitalistas, determinou a exclusão social negro, em toda parte em que existia, até o fim da 2ª Guerra Mundial.  E desde, então, o racismo passou a ser um problema distinto da exclusão social.  Ainda que, por vezes, esta última se preste ao reforço daquele.

            É fato, o qual não me canso de denunciar, que sobremaneira a classe média negra faz o discurso do negro eterna e única vítima de racismo!  Contribuindo para status quo que esvazia de conteúdo étnico a questão indígena e a reduz a um mero problema fundiário.  E que, edificando de, modo maniqueísta, um Brasil em venturosa elite branco e malfadado lúmpen preto, despreza sem cerimônias, por exemplo, toda longa história de horrores vividos aqui pelos judeus.

            Esta classe média reclama, às custas das imagens do proletariado negro (que tantas vezes repetidas nos media povoam o imaginário social), direitos que interessam primeiramente a ela.  Preocupada que está em não ser confundida com o auxiliar de serviços gerais (cujo trabalho, embora digno, não é próprio da gente de sua iguala) no trajeto exasperado de sua ascensão às elites.

            É pela falta de questionamentos desse tipo o que permite a forçação que são os discursos demagógicos e maniqueístas forjados em termos de elite branca e massa negra a que a classe média negra aplaude e se regozija, (forçando o pobre branco apresentar-se como negro para não se tornar, enquanto pobre, um invisível), enquanto sonha em ser elite.

            Não se trata, pois, de uma caricatura, mas de um teatro (de horrores).

 

José Augusto Conceição

Bacharel em Direito pela Universidade Cândido Mendes

Mestre em Educação pela Universidade Salgado de Oliveira

Mestre em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense

Doutor em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Comentário de Jaguaracy Conceição em 27 dezembro 2011 às 12:25

Essa é uma situação que já vem acontecendo no nosso estado, vide o caso por você citado de Daniela Mercury, e a população negra ainda não saiu da letargia. No caso de Daniela há o respaldo do bloco negro mais famoso e o mais belo dos belos. É de fundamental importância a busca do conhecimento do negro e da negra para que possam entender o que é ser negro e lutar pela sua inserção no campo da educação e deixar só de pensar no futebol, no tambor e na música. Sou docente da escola pública, reduto da negritude e tenho observado o descaso para com o aprendizado. Enquanto não entendermos que só através do estudo é que poderemos mudar esse "status quo", ainda teremos muitas "negaslouras".

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2022   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço