Negros não passam de 4% nas últimas cinco bienais

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Negros não passam de 4% nas últimas cinco bienais

Obra de Emanoel Araujo é raridade na cena de arte contemporânea do país

Afrodescendentes estão fora das grandes galerias e têm presença tímida nos acervos dos maiores museus do país

SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Um enorme livro branco lançado na semana passada esmiúça a trajetória do maior artista negro vivo no Brasil.

No texto, o crítico Paulo Herkenhoff chama a obra de Emanoel Araujo de "superação da melancolia sem expectativas" num "ambiente contemporâneo com presença escassa de artistas negros".

Nome consagrado, institucionalizado e agora em vias de digestão pela história da arte, o baiano de Santo Amaro da Purificação se firmou como escultor construtivo depois de sólida trajetória no campo da gravura, também alicerçada na geometria.

"Essa é uma linguagem universal", conta Araujo. "Mas juntei geometria e um simbolismo afro-brasileiro, partindo dos mitos e lendas de um vocabulário religioso."

Herkenhoff enxerga o mesmo uso dessa "inteligência plástica africana" na obra de Rubem Valentim, morto há 20 anos, que também figura na historiografia pouco farta dos negros da arte brasileira.

"Este é um país preconceituoso em tudo, que tem pouca memória e onde as pessoas são mortas-vivas", diz Araujo sobre a quase ausência de negros na arte contemporânea daqui. "Ninguém quer olhar para o Brasil."

Nas últimas cinco edições da Bienal de São Paulo, a presença de negros escalados para a mostra não passou de 4%, em média, sendo que nenhum deles era brasileiro.

Eles também estão ausentes dos times das maiores galerias do país -Fortes Vilaça, Luisa Strina e Millan- e têm presença discreta nos acervos do Masp, do MAM de São Paulo e da Pinacoteca do Estado, que já foi dirigida por Emanoel Araujo.

"Não existe um botão 'negro' para fazer pesquisa", diz Teixeira Coelho, curador do Masp, sobre negros no acervo. "Nunca foi uma preocupação saber se o sujeito é branco ou preto. Temos algo de arte africana, mas nem sempre o artista é negro."

Coelho também atribui a ausência ao fato de poucos desses artistas chegarem a "existir como profissionais".

Na turma que acaba de se formar em artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, uma das escolas mais tradicionais do país, não havia negros.

"Tem um que é bem mulato, mas nenhum negro", diz Marcos Moraes, professor da Faap. "Não há um número significativo, mas acho que a gente não olha mais com essa perspectiva étnica, racial."

Nesse ponto, Herkenhoff enxerga um "vínculo de interesses econômicos" entre universidades e galerias, que causa uma "obstrução ativa" do mercado para negros.

"Quem perde é a história quando põe de lado esses artistas", diz Herkenhoff. "Emanoel Araujo mostra como nossa história é decepada, cheia de buracos. É uma riqueza tratada como um problema."

'NEGÃO 100%'

Outro problema é identificar um artista como negro num país miscigenado como o Brasil. Luisa Strina, uma das galeristas mais poderosas do país, diz que nunca trabalhou com artistas negros porque não conhece nenhum.

Mas Araujo e Herkenhoff apontam Marepe, representado por ela, como um exemplo de um bom artista negro. "Se você achar que negro é um negão 100%, então não há negros", diz o crítico de arte Rodrigo Naves. "Mas existe esse complicador indiscutível na nossa sociedade."

Naves também lembra o paradoxo da era colonial, em que brancos não faziam trabalhos manuais, como escultura e pintura, o que fez com que os mestres do barroco, como Aleijadinho, fossem negros, filhos de escravos.

EMANOEL ARAUJO ESCULTOR

AUTOR Paulo Herkenhoff
EDITORA Via Impressa
QUANTO R$ 160 (324 págs.)

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Em suas obras, artistas brancos buscam beleza negra

DE SÃO PAULO

Brancos olham muito para os negros. Se os negros não costumam estar por trás das obras em grandes mostras, eles figuram em fotografias, vídeos e telas como objeto da criação de artistas brancos.

Na Bahia, ponto de partida de artistas como Emanoel Araujo e Rubem Valentim, fotógrafos brancos como Pierre Verger e Mário Cravo Neto dedicaram suas carreiras à documentação de rituais religiosos e da vida cotidiana de afrodescendentes.

Em imagens em preto e branco, a cor da pele virou elemento plástico, de fortíssimo contraste, contra o sol esgarçado dos trópicos.

Cravo Neto explorava essa pele escura com destreza, criando composições quase táteis, em que os poros de seus retratados pareciam se fundir com a película fotográfica, o que críticos chamaram de "carnalidade da imagem".

Esse mesmo elemento também fascinou o norte-americano Robert Mapplethorpe, que tratava seus modelos quase como esculturas de mármore, identificando no corpo dos negros um aspecto pétreo que tentou imortalizar em sua fotografia.

Miguel Rio Branco, em fotografias coloridas, também explorou essa beleza de cores vibrantes quando retratou boxeadores no Nordeste.

Íntimo do apartheid, o sul-africano Pieter Hugo, branco descendente de holandeses, fotografa negros com ar exótico em vários países africanos, como atores da indústria cinematográfica da Nigéria ou grupos que criam hienas e outros animais selvagens como bicho de estimação.

Na contramão disso tudo, a última Bienal de São Paulo abriu espaço para alguns artistas angolanos, todos negros, que refletem sobre questões políticas, em especial resquícios sangrentos da guerra civil, em suas obras.

Mas, mesmo nesses trabalhos, parece prevalecer um olhar mediado, a busca por uma espécie de futurismo africano, plástico e fantástico, que não agredisse olhos europeus -mais um abismo em preto e branco.

(SM)

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