Aconteceu nos últimos dias 15 e 16 de julho, na cidade de Adis Abeba, Etiópia, a 19a Cúpula da União Africana. O encontro discutiu a necessidade o desenvolvimento econômico do continente por meio do comércio intra-africano e a parceria com novos atores emergentes. Fui convidado pela organização Fahamu do Quênia para participar na condição de correspondente para o site de notícias Correio Nagô. O objetivo da minha participação foi justamente fazer uma análise sobre a participação do Brasil na cooperação com o continente africano.

Como se sabe, o Brasil vem aumentando significativamente sua influência no continente africano. Somente na gestão do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) foram abertos 17 postos diplomáticos, tornando o Brasil o país latino-americano com maior número de representações diplomáticas em solo africano, com 37 postos. Essa nova relação com o continente africano demonstra o crescimento do país e uma escolha nacional por uma maior diversificação de suas parcerias comerciais, o que fez, por exemplo que o Brasil tivesse um desempenho melhor durante a crise econômica de 2008. Além disso, faz parte de uma estratégia brasileira de consolidar-se como um dos líderes na zona do Atlântico Sul e buscar o sonhado assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Porém, apesar dos notáveis esforços do governo brasileiro para consolidar sua liderança e influência na África, o que se pode perceber é que ainda há muitos desafios. De longe, países como China e Índia tem investido mais nos países africanos.

Um exemplo: a recém criada sede da União Africana, um prédio de 200 milhões de dólares, foi doado e construído pelos chineses e é um símbolo dessa nova era da política africana, no qual a influência ocidental vem sendo cada vez mais reduzida e a chinesa destacada. Um outro exemplo são os investimentos indianos na África. Hoje, um quinto de todo petróleo usado na Índia vem do solo africano. O comércio da Índia com a África dobrou nos últimos quatro anos, de 24,98 bilhões dólares americanos em 2006-07, para 52,81 bilhões dólares em 2010-11, segundo dados do governo indiano.

 

Entretanto, as críticas aos outros países do BRICS—sobretudo, China e Índia—é que esse investimento não necessariamente tem promovido a capacitação da mão de obra local, o respeito aos direitos humanos e visaria apenas a exploração dos recursos naturais. Por outro lado, analistas veem como positivo esse novo cenário onde as nações africanas podem ter mais opções para negociar investimentos, antes restritas apenas as países ocidentais.

No caso brasileiro, os investimentos ainda estão ainda na casa dos 25 bilhões—a China tem mais que o dobro—e são feitos prioritariamente em países como Angola e Moçambique que assim como Brasil, compartilham mesmo idioma e nuances culturais. Também, compartilham temo como suas principais empresas a Petrobras (petróleo), Vale (mineração) e Odebrecht (construção). Recentemente, o Banco Nacional de Desenvolviemto Econômico e Social (BNDES) abriu uma nova linha de crédito de $1,75 milhões de dólares para empresas de construção de infra-estrutura atuarem no continente.

Essa atuação brasileira também não se restringe a parte comercial, o país mantém diversos projetos de interesse social, como uma cooperação com Gana na área agrícola, tendo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e ainda esse mês deve inaugurar em Moçambique uma indústria de medicamentos para tratamento do HIV.

Um outro aspecto importante é a inclusão da diáspora africana: É um dos debates que vem acontecendo nos últimos anos dentro da União Africana. Afinal, somente na América Latina são 150 milhões de afrodescendentes, tendo o Brasil como a maior das diásporas com cerca de 97 milhões de pessoas de origem africana.

Em junho do próximo ano, um encontro em Jonhanesburgo irá reunir representantes da diáspora africana para acelerar o processo de integração política, cultural e econômica do continente africano. No encontro da semana passada, foi anunciada por exemplo a criação da Universidade Pan-africana, que visa criar centros acadêmicos de excelência em ciência e tecnologia e que visa atrair professores da diáspora.

O Brasil, que nas décadas de 40 e 50 apoiou o colonialismo na África, tem tudo para nesse início de século promover um diálogo franco para o desenvolvimento e renascimento africano e fortalecer ainda mais os links culturais que historicamente unem os africanos dos dois lados do Oceano Atlântico. Essas relações devem se basear não apenas na exploração comercial, mas também na transferência de tecnologia e no empoderamento das instituições africanas. Só assim, o Brasil poderá minimizar os danos que causou no passado ao povos africanos, ao promover a escravidão e o reforço do colonialismo. O objetivo agora precisa ser o de criar uma verdadeira parceria para o futuro do continente que serviu como matriz para a criação do povo brasileiro.

Por Paulo Rogério. Artigo publicado originalmente na revista Americas Quarterly online. A principal revista sobre políticas públicas para a América Latina. www.americasquarterly.org

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