O “complexo de vira-lata” africano por Mauricio Stycer



Ganha corpo aqui na África do Sul uma discussão interessante, no esforço de entender as razões do fracasso do futebol do continente em 2010. Das seis equipes que começaram o Mundial (África do Sul, Argélia, Camarões, Costa do Marfim, Gana e Nigéria), apenas uma se classificou para as oitavas de final.


No sábado, em entrevista a um grupo de jornalistas, Roger Milla, astro da seleção de Camarões em 1990, esboçou uma explicação para o fiasco. Milla criticou a falta de organização do futebol africano e
a desordem que reina nas federações internacionais. Questionado por uma jornalista, concordou também que há uma estranha mania de considerar qualquer técnico estrangeiro melhor do que um local.


Na entrevista, Milla observou: “Há anos usamos técnicos estrangeiros. Isso virou uma verdade absoluta. É preciso dar oportunidade para os técnicos africanos. Temos em Camarões um técnico que foi campeão olímpico (Jean-Paulo Akono, em Sydney, 2000) e até hoje não teve uma grande oportunidade”.


Eis aí um claro sintoma do “complexo de vira-lata” africano. O termo, como se sabe, é uma criação do dramaturgo Nelson Rodrigues e procurava explicar a sensação de inferioridade do brasileiro, sobretudo diante do europeu ou do americano. Segundo Nelson, essa baixa auto-estima nativa atrapalhou muito o desenvolvimento do futebol nacional e só foi superada com a vitória na Copa de 1958.


Neste domingo, no “Sunday Times”, o tema volta a ser discutido. Com exceção da Argélia, que tem um técnico argelino, todas as demais seleções africanas vieram à Copa com estrangeiros – além do brasileiro Parreira, dois suecos, um francês e um sérvio. E, com exceção de Milovan Rajevac, técnico de Gana, todos os demais foram contratados há menos de um ano. Eriksson assumiu Costa do Marfim há apenas três meses. Desde 2008, a seleção de Drogba teve cinco técnicos todos estrangeiros.


Depois de superar os Estados Unidos por 2 a 1, na prorrogação, Gana agora integra o seleto grupo de seleções africanas a chegar às quartas de final (só Camarões, em 1990, e Senegal, em 2002, haviam conseguido). A novidade é que, agora, as Estrelas Negras contam com o apoio de todo um país no seu esforço de fazer história – ser o primeiro país do continente a alcançar as semifinais do Mundial.


A alegria depois da vitória sobre os EUA lembrou conquista de campeonato. Dá para entender. Quem sabe se Gana progredir ainda mais na Copa não ajude o futebol do continente a se organizar melhor e superar o seu complexo de inferioridade.


(Mauricio Stycer)


Texto enviado por Ísis Conceição para a lista "Discriminação Racial".


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Comentário de Brisa Macelino em 27 junho 2010 às 17:43
Nossa!Ficamos no afã da copa e nem me dei conta deste técnicos exportados....
Comentário de Juliana do Carmo França em 27 junho 2010 às 16:58
É triste refletir sobre essa realidade. Todo cidadão tem a capacidade de se adaptar e de se renovar. Com certeza, na África existem brilhantes técnicos. Mas o poder exercido pela mídia não deixa essa evolução acontecer com igualdade para todos.
Comentário de maria da conceição simões mirand em 27 junho 2010 às 16:42
Refletindo sobre a posição histórica do negro no futebol brasileiro, onde ele atua no campo brilhantemente, mas os técnicos são majoritariamente brancos, desde sempre. Não acompanho futebol, mas me intriga bastante o fato.
Comentário de André Luís Santana em 27 junho 2010 às 16:16
Lembro, Paulo, do seu comentário sobre a idéia de que a força (bruta e institiva) dos jogadores africanos precisasse da mentalidade (racional) de técnicos europeus. Na prática essa lógica não tem funcionado, mesmo porque não temos certeza do verdadeiro comprometimento desses técnicos em garantir vitórias para essas nações. Um pena, essa Copa poderia contar com mais alegrias não somente para o mundo, mas, e principalmente, para os africanos.
Comentário de Paulo Rogério em 27 junho 2010 às 15:07
Notem que na Argélia, considerada "África não-negra", o técnico é argelino.
Comentário de Paulo Rogério em 27 junho 2010 às 15:03
Eu já havia comentado aqui sobre o fato de todos os técnicos das seleções africanas serem brancos, o artigo relata bem uma das causas desse fato. Fica evidente que trata-se da idéia racista - que os próprios africanos incorporaram - de não serem os negros capazes de executar tal função técnica de tamanha responsabilidade. Olhem para a Coréia do Norte, um país bastante empobrecido, com uma ditadura tirana, mas o técnico era coreano... já na África a colonização mental fala mais alto.

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