O dilema da cor e da orientação sexual - Ser negro e gay no Brasil

Gostaria de dá atenção a um e-mail que me chamou atenção, e com o consentimento da pessoa que me enviou, quero comentá-lo aqui, salvaguardando a identidade da mesma.  Segue o e-mail:
“Prezado Patrick,
Me chamo R. tenho 23 anos, vivo em Brasília, sou gay, negro e universitário. Atualmente curso bacharelado em Relações Internacionais. Seu artigo chegou aos meus olhos, num momento impar. Vivo um dilema com a minha cor e com minha orientação sexual. Eu já não sabia mais o que fazer, uma vez que: estudo numa turma onde a maioria é branca, de classe média, os gays da turma escondem sua orientação sexual, por medo de serem desprezados, e também não tem coragem de compartilhá-la. Venho de uma família, razoavelmente estabilizada, mas ainda assim, não consigo ser muito aceito na sala, o que impõe mais ainda o meu dilema com a minha orientação sexual. Penso que se eles souberem que sou gay, seria como você mesmo disse no seu artigo, um preconceito duplo: pela cor e pela orientação sexual. Eu sinto e percebo, que não sou chamado muitas das vezes para as festas, para os grupos que se encontram fora da faculdade, por eu ser pobre e negro, e até que ponto também não paira uma indagação a respeito da minha questão sexual, já que eles nunca me viram com mulher e ainda sou taxado na sala de ser educado e delicado demais. Jamais passou pela minha cabeça, olhar a questão pelo viés que você apresentou, me abriu uma outra perspectiva para entender esse dilema tão presente em nosso país. Confesso que o esclarecimento do seu artigo me possibilitou de certa forma enfrentar a questão de frente sem fugas.
Obrigado, pelo brilhante artigo e, sobretudo, por me ajudar nesse momento tão complexo pra mim. Um abraço R.”
            Bom, de fato o assunto é inesgotável. Esse e-mail me chamou muita atenção como eu disse anteriormente, até por que ele denuncia de forma prática, as questões que o artigo da semana passada evidenciou.  Por isso meu desejo de continuar discutindo um pouco mais essas questões nessa semana a partir do e-mail acima.
            Como ficou bem evidenciado R. vive um dilema particular. É particular, mas ele traz muitas vozes, muitos gritos e muita opressão – no dilema de R. fala, grita o dilema de muitos jovens negros do nosso país. O mesmo não conseguiu ainda se colocar com liberdade diante da sua orientação sexual, é gay, mas se sente ferido, incomodado e de certa forma angustiado. Vejo que a faculdade é muito importante para R., até por que parece que vive profundamente este momento, onde toda sua rotina está organizada em torno da mesma.
            A turma de R. é eminentemente branca, o que faz o mesmo sentir-se sem espaço, estranho e não acolhido. Poderia ser diferente, mas não é o que R. sente. Ele se sente estranho, não aceito, não acolhido, o que faz o mesmo viver de forma solitária seu dilema. A questão indagadora é que o dilema cor e raça, que muitos insistem achar que caiu por terra, passam também pelo dilema social. Até que ponto para ser aceito num grupo, não é preciso ter uma condição financeira/social como os membros do grupo? Isso parece estranho, mas é real, R. deixa isso claro, no seu e-mail.   
            Fico imaginando os muitos R espalhado pelo Brasil a fora, que estudaram numa escola que os ensinaram a desprezar a si mesmo, suas origens e suas raízes. Que estudaram numa escola que não permitiu que a beleza negra fosse olhada, notada. Uma escola que não deu espaço para a expressão homoafetiva de garotos e garotas. Uma escola que na sua essência é branca, e continua branca, uma escola que é heteronormativa e continua tal como, uma escola que não sabe colocar em pauta as diferenças. O mal-estar de R. tem haver com essas estruturações psíquicas e sociais.
            Uma série de medidas educativas, de políticas públicas e também ações afirmativas vem sendo tomada, a fim de corrigir tais dissabores – primeiro foi à lei 10.639 de 2003, que institui a obrigatoriedade do Ensino de História da África e Africanidades nas Escolas Públicas e Particulares do Ensino Fundamental e Médio de todo país, uma possibilidade de contar uma outra história do negro no Brasil. Segundo, agora recentemente, a aprovação no Supremo Tribunal Federal – STF, do casamento gay (união estável homoafetiva). E em terceiro, também recentemente, apesar da polêmica gerada - o kit anti-homofobia, suspenso pela presidente Dilma Roussef, após protesto da bancada evangélica. Isso ainda está em pauta, é preciso votar e aprovar o Estatuto da Diversidade Sexual, que criminaliza a homofobia, e assim os professores poderem levar com liberdade as questões de homoafetividade, da homossexualidade e das diferenças sexuais para dentro de sala.
            A questão de R. convocá-nos a este debate: de que o dilema da cor e da orientação sexual para muitos jovens, ainda é doloroso. Cada um tem a sua historia, e cada um lida com ela a seu modo. O processo às vezes é longo e demanda uma série de elaborações. Que R. e tantos outros jovens negros gays, possam ter espaço para construir suas identidades homoafetivas e negras.
A gente não pode esquecer que as questões em torno da identidade, são sempre delicadas e profundamente sutis. A identidade é da ordem do intimo, do privado, daí a importância de que os espaços sejam eles nos grupos, nas salas de aula, entre amigos, no movimento social - sejam sempre espaços de respeito, de vivencias e sobretudo espaços para as pessoas se tornarem cada vez mais elas mesmas.

            R. meu querido, a luta continua, não desanime, este artigo foi escrito para você e para todos aqueles que vivem um dilema semelhante ao seu. Meu abraço.

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