O direito a identidade africana

Nesta quarta-feira, dia 23 de junho, o colunista da Folha de São Paulo, José Geraldo Couto, publicou artigo intitulado "A África não veio", no qual, entre outras coisas, escreve que: A unidade africana é uma construção intelectual e ideológica recente, ligada ao
discurso anti-imperialista das
esquerdas. Conta com pouca
base real
; e finaliza: a ideia de uma pátria africana comum é uma quimera tão frágil quanto o futebol das equipes africanas.

Ou seja, ele relaciona os resultados ruins em campo aos problemas geopolíticos do continente, subjetivamente, fadados a continuidade ao se relacionarem com a idéia de unidade africana. Resolvi enviar um e-mail ao articulista tecendo comentários, que provavelmente não será lido e respondido:

Caro José Geraldo, sem dúvidas o continente africano está em frangalhos, bem como as relações entre as centenas de etnias e
religiões. Massacres, desagregação dentro dos estados nacionais e
xenofobia são questões recorrentes no berço da humanidade. O
reconhecimento de que os problemas atuais têm procedências semelhantes
no continente nos últimos 500 anos, foi fundamental para formar as
diversas interpretações do Pan-Africanismo.


É falso dizer que esse tem mera origem na esquerda. Não. Mussolini se inspirou num dos percursores do Pan-Africanismo, Marcus Garvey, para desenvolver o facismo italiano.
O Pan-Africanismo se trata de um leitura histórica bastante apegada as
questões raciais e civilizatórias, o que justifica os embates
internacionais distintos do imperialismo que vigorou e vigora na
América Latina. Ou seja, o Pan-Africanismo é complexo suficiente para
ser delegado ao anti-imperialismo e as esquerdas.


Com isto não quero diminuir a importância do Pan-Africanismo. Longe disso, quero reafirmar sua importância, em especial na Copa Do Mundo. As vitórias das seleções
não vieram, e aí?! O alcance político e econômico do esporte não se
resume ao placar. Estar realizando com êxito a competição e ouvir as
vuvuzelas (mesmo chatas) soarem mais alto quando africanos estão em
campo, são de consequências imensuráveis ao continente. A formação da
identidade africana só trará coisas boas quando o caos reina. Por isso,
os africanos têm o mesmo direito que a América Latina e Europa tiveram
para dar impulso a formação dos seus blocos econômicos.Mesmo
contrariado, por ter orientação de esquerda, ouso dizer que estes
países também têm direito a formarem burguesias nacionais e regionais,
estimuladas pelo apaziguamento dos conflitos étnicos, religiosos e
nacionais.


O curioso é que esta identidade Pan-Africana não é estimuladas pelas vitórias nas conquistas a outros continentes povos, como os europeus ao "novo mundo". Ao contrário. É a terra arrasada que
começa aos poucos a brotar flores. Como a classificação sofrida de Gana
e a derrota dos bafanas bafanas, comemorada com orgulho em Soweto.


Abraços
Pedro Caribé


Aos que se interessarem, segue o artigo completo da FSP. Pensei até em escrever mais coisas, por exemplo, que os resultados no futebol nem sempre reflete questões geopolíticas tradicionais, haja vista que China, Rússia e Índia não estão na Copa. Mas foi suficiente.

São Paulo, quarta-feira, 23 de junho de 2010






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JOSÉ GERALDO COUTO


A África não veio


Fracasso das seleções do continente na Copa do Mundo esvazia discurso pan-africano


A TV SUL-AFRICANA tem exibido um comercial
(não me lembro de quê) em que aparecem astros de
futebol de vários países africanos, com um texto
que diz o seguinte: "Eles saíram daqui para ganhar
a vida em outros lugares, mas agora voltaram à sua
terra para viver seu grande momento".
Que ilusão. Primeiro, porque os africanos são a
grande decepção da primeira Copa do Mundo disputada no continente. Ao que tudo indica, só Gana,
e olhe lá, deve passar à próxima fase.
Ontem foi a vez de os donos da casa, os Bafana
Bafana, despedirem-se do Mundial com uma vitória melancólica sobre a combalida França.
Uma boa explicação para o fracasso continental
foi dada aqui por Tostão: os africanos, ao tentar
copiar os europeus, perderam a espontaneidade e
o atrevimento que encantaram o planeta em outras
Copas do Mundo.
Mas a maior ilusão é a de que há uma "terra africana", uma pátria
supranacional comum a indivíduos desse imenso bloco de terra, da
Argélia à África do Sul.
A unidade africana é uma construção intelectual
e ideológica recente, ligada ao
discurso anti-imperialista das
esquerdas. Conta com pouca
base real.
Cada país africano é uma
confederação de povos que
"vazam" para outros países,
atravessando as fronteiras artificiais traçadas pelos colonizadores europeus.
Só na África do Sul há nove etnias nativas predominantes, cada uma com sua cultura e sua língua,
sem contar os imigrantes europeus, asiáticos e de
outros países africanos.
A relação com estes últimos não é harmônica. Os
moçambicanos e os zimbabuanos disputam com os
nativos preciosos postos de trabalho não qualificados. Os nigerianos são tidos como a ralé, de onde
saem ladrões, traficantes e prostitutas.
Na África do Sul, há desde uma Província zulu (Kwazulu-Natal) até
cidades onde ainda só entram brancos, como Orânia. Nem é preciso ir tão
longe: cada distrito de Johannesburgo é como uma nação à parte. Se já é
difícil fazer desta Babel uma cidade republicana e democrática com a
qual todos os cidadãos se identifiquem, a ideia de uma pátria africana
comum é uma quimera tão frágil quanto o futebol das equipes africanas.


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Comentário de Paulo Rogério em 28 junho 2010 às 2:09
Como sempre a mídia consegue distorcer o real significado das coisas. O pan-africanismo é uma conquista política lenta e que exige esforço comum dos povos em encontrar semelhanças para constrrução da unidade regional, essa identidade não é algo "natural" nem na África em em lugar algum. Na África não existiam "negros", esse nomeclatura racista foi criada pelo europeu quando no continente africano classificou povos diferentes dentro de um estereótipo racial. O que temos por lá são Iorubás, Bantos, Somalis, Xhosas, Zulus etc. Agora eu pergunto, e a União Européia foi construída como? Pelo que sei demorou bastante tempo para juntar as "tribos" - Visigodos, Sérvios, Francos, Germanos - em estados-nacionais e mais recentemente em em uma unidade política-econômica que funciona relativamente bem.
Comentário de Valter DaMata em 27 junho 2010 às 8:14
Quando leio um artigo desses, vejo como é fácil ganhar dinheiro em alguns segmentos desse país.
O imbecil mistura alhos com bugalhos (e eu nem sei o que é bugalho), associar desenvolvimento com resultados no esporte e com o panafricanismo.
Frágil é a retórica por ele utilizada, pois se assim fosse, jamais o Brasil seria pentacampeão de futebol, uma vez que os ganhamos enquaqnto nos encontravamos mergulhados nas sombras da pobreza, ditadura e outras misérias criadas pelo homem.
O que não é quimera é o racismo destilado nas linhas desse pseudojornalista, que ainda encontra espaço pra que com sua caneta, venha desqualificar a nossa herança ancestral negra.

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