O disfarce do incomum

 

(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza.

 

As pessoas me param no meio da rua e me perguntam insistentemente como passarei o carnaval e do que me fantasiarei.

As respostas a essas curiosidades se prendem ao fato da minha profissão de jornalista e, por eu ser um observador inveterado da vida cotidiana.

Serei breve.

Sucinto como um personagem de John Le Carré para não me tornar maçante e mais chato do que já me considero por natureza.

Passarei o carnaval como os demais da minha vida. Isolado. Bem longe do burburinho, das músicas barulhentas e enfadonhas. Usarei uma discreta camisa branca de mangas curtas e calça jeans surrada. Colocarei meu tênis encardido de terra e barro e um óculos seguindo o modelo surfista, com armação de plástico. E me embrenharei no meio do mato. Detesto esse tipo de bagunça a que chamam de carnaval, abomino essas pândegas descomedidas. Odeio os foliões, me antipatizo com as baterias das escolas de samba, os desfiles na Sapucaí, me sinto enfastiado, aborrecido com a falta de assunto, a ausência, enfim, do NÃO TER O QUE FAZER. 

Particularmente vejo o carnaval como uma grande desgraça anunciada, uma desmoralização pervertida, onde as pessoas se agrupam para celebrar o caos nosso de cada dia, a desordem, a baderna, cumulada com a insensatez, a burrice, a falta de compostura e decoro a um só tempo, e pior, ao vivo e a cores, como se fossem partícipes de um calamitoso big brother.

O povo, de um modo geral, se entrega a essa fantochada como se costuma dizer por ai, a boca miúda, para fugir dos flagelos do cotidiano, para esquecer e “empurrar pra barriga”, os problemas do ano inteiro. Ledo engano!

Os mais inteligentes que ainda conseguem ter um pouco de discernimento, sabem que isso tudo é uma imensa farsa, uma mentira desleixada e deslavada para enganar a própria estupidez. Não há diferença entre o espectro da asnice de um babaca e o desossar de um imbecil metido a esperto. Se colocados na ponta de uma corda, chegaremos à conclusão de que ambos estão prontos para perder o pescoço na guilhotina. Corda com guilhotina é um sarro. Lembra Tiradentes dos tempos medievais sendo enforcado em uma cadeira elétrica.

É comum, em ocasiões de folganças ruidosas, alguns canais sérios exibirem reportagens de cidadãos que deixam de fazer uma nota de compra no supermercado, de enfim, levar para casa o básico para a sobrevivência da família, para guardar o dinheiro e comprar uma fantasia para rodopiar na avenida.

Como se esse adorno de múltiplas cores e o pular feito um Zé Mané desengonçado fossem afastar, definitivamente, as mazelas que tornam a voltar com mais força e garra quando a algazarra acaba na quarta feira de cinzas.

O mais “mau”, minha gente. Existe uma galera que chama a isso de ser inteligente. Concordo plenamente: realmente, o nosso povo é inteligentíssimo, eu diria, grosso modo, “manero”.

Pois bem!

Se eu fosse pular, portanto, do que me fantasiaria? De anônimo. Vestiria, literalmente, uma fantasia de anônimo. 

“Mas que fantasia é essa que nunca ouvimos falar?”, indagarão alguns impúberes afoitos, os olhos vermelhos e arregalados de puro espanto.

Anônimo é aquela fantasia que não chamaria a atenção, como a palavra presidenta, que não existe, a não ser na cabeça dos catedráticos do exímio português pátrio. Eu desfilaria, pularia, gritaria, saltaria, rodopiaria no meio da avenida como um inexistente, e, ninguém saberia que eu sou de carne e osso como qualquer energúmeno que vive pastando por ai.

Deixaria, em casa, a minha estampa amassada e surrada de todos os dias, a roupa de palhaço. Palhaço já sou nas vinte e quatro horas do dia, o ano inteiro.

Para falar a verdade, já me acostumei a ser palhaço. Sem a patuscada de bufão, sem o uniforme de todas as horas, seja para ir trabalhar, seja para me divertir, sair com a família, ou com os amigos, acreditem me sinto como se estivesse pelado, com as mãos nos bolsos, e, na cabeça, os chifres queimando em pleno meio dia de um sol escaldante.

Sou palhaço, palhaço sou e pretendo continuar a sê-lo nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. Seja em casa, na rua, no trabalho, perante a sociedade, diante a mim mesmo. Uma vez palhaço, palhaço até morrer.

Palhaço sou porque não me sinto bem como anônimo. Ser palhaço está no meu sangue nas minhas digitais.

Ser palhaço visto por uma ótica mais caótica e estarrecedora é como o vírus de uma doença que a medicina ainda não encontrou o antídoto para, ao menos, colocá-la em quarentena. 

Englobando, nós todos, brasileiros natos, sem distinção de raça ou credo, temos orgulho de ser palhaço e vivermos, a cada momento, um dia mágico de príncipe a “la Tiririca”.

Não me sentiria bem, não me veria com os movimentos livres e a vontade à solta, se fosse me fantasiar para pular em algum sambódromo da vida.

Morreria de tédio colocar um nariz de arrelia, uma roupa larga de Carequinha e soltar a franga como um debilóide vindo de outro planeta.

Em conclusão, a raia miúda, o Zé povinho, o descamisado, o sem lar, o desabrigado, e agora o mais recente da lista -, o sobrevivente das enchentes da vida - tem cérebro de barata, a mente obstruída pela degenerescência da imbecilidade.

A imbecilidade é a maior praga daninha existente na face da terra. Como a Aidis, o câncer e outros cancros malignos conhecidos, a imbecilidade, notadamente a humana, pega numa troca de salivas. Pode ser contraída num amasso no escurinho do cinema ou até mesmo assistindo a um pacato e inofensivo filme na televisão.

A imbecilidade via outra, se tornou uma epidemia mundial. E o mais importante: não vem só.

Quando surge traz consigo a violência descomedida. Faz com que as pessoas percam o senso do ridículo, a identidade, o quem eu sou de verdade?, e, em vista disso, denigram as vicissitudes da moral e da compostura.

Nessa hora, parece que alguma coisa fora de controle faz aflorar o desrespeito ao próximo, a falta de calor humano esfria, e, no lugar do coração, se aloje uma pesadíssima pedra de gelo. Todo mundo se torna autômato e individual. O individualismo, meus amados, acarreta conseqüências aterradoras, avassaladoras.

Em conclusão, repetindo, eu me fantasiaria de anônimo. Seria meu disfarce de homem comum, dentro do incomum de todas as coisas. Eu seria visto como aquele cara povão, que enfrenta filas, que pega ônibus lotado, que cheira sovacos fedorentos nos vagões do metro, que toma uma média com pão e manteiga na padaria da esquina e, na hora do almoço, manda brasa na “malmita” que trouxe de casa embrulhada numa sacola plástica. Desfilaria em carros alegóricos como um sem nome. Sairia nos blocos tipo um João ninguém. 

Palhaço, meus prezados, sou o ano todo.  Não ficaria legal me despir dessa farda e mostrar a minha imbecilidade, o meu gostar, a minha preferência, e, em apenas quatro dias da mais pura alegria, da mais nobre e soberba exaltação da mediocridade, deixar de lado e, sobretudo, esquecer, num canto qualquer, o âmago daquilo que me encanta a vida e faz dela a minha razão maior de viver.   

 

(*) Aparecido Raimundo de Souza, 57 anos é jornalista.

     

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