O Brasil é um país, no mínimo interessante, no que toca a sua política racial interna. Como  negro filho de pais humildes, mas que enxergaram na educação um rito de passagem para a uma camada da sociedade “menos desfavorecida”, cresci sob a inspiração de alguns mantras repetidos diuturnamente pela minha mãe. Alguns dessas instruções paternas me direcionavam inquestionavelmente para fora do âmbito das questões raciais, enquanto eu, por outro lado, percebia na escola, diferenças entre o acolhimento dispensado pelos professores e funcionários aos meus colegas de pele clara. Um exemplo que guardo bem na memória foi o da preferência notória de um professor de matemática, pelos alunos de pele mais clara, e o desprezo em igual intensidade dispensado aos seus alunos negros: Em uma sala composta por quarenta e cinco jovens adolescentes, todos os seus alunos claros tinham apelidos carinhosos cunhados por ele, com base nas suas respectivas características físicas individuais. Na hora da chamada tinha a “Rapunzel”, o “Imperador”, “Helena de tróia”, “Perseu”, e por aí. Na minha hora, e nas respectivas horas de dois colegas (por coincidência (?) também negros), ele sempre errava os nomes, que pronunciava entre os dentes, de forma seca e lacônica: Imagine vocês um adolescente de quatorze anos vivendo essa situação.

Ouvia dos meus professores, vizinhos, amigos dos meus pais, parentes, etc.: o ensinamento, que o Brasil era uma democracia racial, enquanto que nos Estados Unidos o negro era discriminado, odiado e que inclusive, havia leis de segregação racial, e coisa e tal. Quis checar essas informações diretamente. Pedi aos meus pais para me matricularem em uma escola de Inglês, ao que eles responderam que não tinham condições para bancar esse estudo. Estudei Inglês sozinho e quando pisei pela primeira vez em uma escola de Inglês, aos dezoito anos, passei no teste para professor. Aí comecei a comparar a nossa “democracia racial” com a realidade americana. De lá para cá se passou algum tempo. Hoje estou com 56 anos. Nessa manhã, ao verificar a minha caixa de entrada do e-mail percebi um email enviado por uma amiga, contendo um texto jornalístico encimado pela seguinte manchete:

Brasil aponta o seu primeiro embaixador negro

E a matéria segue dizendo: “...Filho de um contínuo, Benedicto Fonseca Filho, 47, foi promovido em dezembro a embaixador, o primeiro negro de carreira. E o mais jovem. Passou por Buenos Aires, Tel Aviv e Nova York. Vai chefiar o departamento de Ciência e Tecnologia. Ele declara orgulho de ser negro e filho de pais humildes que o educaram para chegar ao topo na casa mais aristocrática do país.

Nasci no Rio, em 1963. Mudei para Brasília em 1970 porque meu pai veio ser funcionário do Itamaraty. Ele foi agente de portaria, que é um contínuo...”

Parabéns aos pais e a esse nosso Irmão, que nos enche de orgulho, esperança e fé na nossa resistência.  Aí eu volto meus olhos para a realidade dos nossos irmãos nos Estados Unidos, e constato que lá o primeiro embaixador negro foi Edward Richard Dudley, apontado pelo Presidente Harry Truman para o cargo de embaixador dos Estados Unidos na Libéria em 1949.

Para exercício da memória, recuperei uma informação que julgo oportuna para a ocasião: Adhemar Ferreira da Silva, atleta negro brasileiro campeão do salto triplo antes de João do Pulo.  Adhemar Ferreira da Silva nasceu em 29 de setembro de 1927, na cidade de São Paulo. De família pobre, começou a trabalhar muito cedo para auxiliar no orçamento familiar.

Trabalhando de dia e estudando à noite, o jovem Adhemar só iria conhecer o atletismo aos 18 anos, quando começou a treinar em sua hora de almoço. Em seu primeiro salto, considerado excepcional para um iniciante, conseguiu a incrível marca de 12,90m.

Ao saltar 15m, conseguiu se classificar para as Olimpíadas de Londres em 1948, a primeira a ser realizada depois da Segunda Guerra Mundial. Sua participação lhe rendeu um modesto 14º lugar, com o singelo salto de 14,46m. Esta situação se reverteria no campeonato sul-americano de atletismo de 1949, quando estabeleceu seu primeiro recorde de 15,51m. A partir daí, por cinco vezes foi campeão olímpico sul-americano na modalidade de salto triplo. Por estas qualidades, foi Adido Cultural na Embaixada Brasileira em Lagos, na Nigéria, entre os anos de 1964 e 1967. 

Na mesma matéria, aparece outra citação importante:

 

“...Brasil é mesmo uma terra de contrastes, estamos agora discutindo democratização da banda larga e não queremos a do século XX, mas a do XXI (Alô, alô, @paulo_bernardo), mas precisamos eleger um presidente operário para ter o primeiro ministro do STF negro – Joaquim Barbosa...”

O Dr. Joaquim Barbosa nasceu em Paracatu, noroeste de Minas Gerais. É o primogênito de oito filhos. Pai pedreiro e mãe dona de casa, passou a ser arrimo de família quando estes se separaram. Aos 16 anos foi sozinho para Brasília, arranjou emprego na gráfica do Correio Braziliense e terminou o segundo grau, sempre estudando em colégio público. Obteve seu bacharelado em Direito na Universidade de Brasília, onde, em seguida, obteve seu mestrado em Direito do Estado.Como grande jurista e dono de um currículo sólido, foi em 8 de maio de 2003, foi nomeado para o Supremo Tribunal Federal – STF, pelo então Presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Ora, nos Estados Unidos o Dr. Thurgood Marshall (2 de julho de 1908 - 24 de janeiro de 1993) um jurista americano, foi o primeiro  Africano-americano a servir na Suprema Corte dos Estados Unidos como ministro. Ele foi nomeado pelo presidente Lyndon Johnson em 1967.
A minha esperança é queos nossos irmãos negros entendam que os fenomenos do esporte são eventos esporádicos louvávies de sucesso profissional, mas que não podem servir como via de regra para a busca, alcance e consolidação da emancipação. A educação é o único caminho de verdadeira libertação e superação da condição perversa que nos é imposta pela sociedade brasileira, hoje ainda desigual e palco do exerício do pior tipo de racismo, qual seja o racismo instiucionalizado.

A Organização das Nações Unidas – ONU escolheu o ano de 2011 como o Ano Internacional do Afrodescendente.  

 

Sou Adelson Silva de Brito, professor de Física e pesquisador com atuação na área de radiação ambiental ligado ao Laboratório de Física Nuclear Aplicada – LFNA da  Universidade Federal da Bahia  – UFBA

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Comentário de Cilene Amorim em 20 janeiro 2011 às 7:50

 

Muito bom!

Comentário de Vanice da Mata em 19 janeiro 2011 às 16:51
Perfeito, esta foi a observação feita por P. Rogério, no mesmo post. Um abraço, amigo =)
Comentário de Adelson Silva de Brito em 19 janeiro 2011 às 15:34

Alô Vanice

A bem do que é claro e justo, Raimundo Souza Dantas, grande escritor ao nível de outros com Lima Barreto e Solano Trindade, foi apontado embaixador de Gana em 1963, pelo então Presidente Jânio Quadros. O embaixador retratado na intervenção "primeiro embaixador negro do Brasil" cursou o Itamaraty e é o primeiro Embaixador Negro Brasileiro de carreira formado pelo Itamaraty, onde seu pai foi porteiro. Essa é a novidade.  Reproduzo abaixo um trecho de um depoimento atribuido ao Embaixador Benedicto Fonseca Filho:

"..

Quando eu tinha nove anos, toda a família foi para a [antiga] Tchecoslováquia [no leste europeu], quando meu pai foi removido para Praga por três anos.
Naquele tempo, todos os funcionários das embaixadas eram de carreira. Hoje, esses são terceirizados.
Foi essa experiência internacional que me despertou o interesse pelo Itamaraty. Talvez por ter estudado em escolas internacionais, na escola francesa e na americana.
Meu pai e minha mãe, na sua humildade, nunca pouparam esforços para nos proporcionar as melhores condições de estudo.
Hoje, meu pai tem 84 anos, já é aposentado há 14. Minha maior satisfação foi eu ser promovido com ele ainda vivo. Ele ficou tão ou mais contente do que eu.
Fiz o concurso [do Itamaraty] em 1985 e entrei de primeira, aos 22 anos. Quando saiu a lista dos aprovados, um jornal de Brasília fez uma matéria que dizia: “Mulher e negro passam em primeiro lugar no Rio Branco”. A mulher foi o primeiro lugar e eu, o segundo.
Vinte e cinco anos depois, uma mulher passar em primeiro lugar já não causa tanto espanto. Naquela época, tinha só uma mulher embaixadora..."
Abraço e boa sorte!
Comentário de Adelson Silva de Brito em 19 janeiro 2011 às 15:08

Alô Vanice

Muito obrigado pela informação. É nova para mim e, com certeza, também para o irmão que veiculou o artigo que me serviu de motivo para a intervençao em destaque. No mais, a ausencia de uma linha de sequencia unindo eventos desse natureza na dimensão temporal´fucniona com um forte catalizador de reações paranóides no nosso psíquico.

Abraço e boa sorte.  

Comentário de Vanice da Mata em 19 janeiro 2011 às 12:23
Isso, Adelson. Quanto esforço temos que fazer, não é verdade? Contudo, ainda vale a ressalva que Paulo Rogerio (leia-se IME) fez sobre o primeiro embaixador negro do Brasil ter sido Raymundo Souza Dantas, "em 1961...servindo em Gana e inaugurando a diplomacia brasileira na chamada África Negra.". Confiram nos comentários do post 1º embaixador negro do Brasil

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