Encontrei esse belo artigo no Blog de Luis Nassif, que postou reportagem da Folha de São Paulo sobre a "mestiçagem" nos genes brasileiros. Na parte de comentário tem um texto da escritora  Ana Maria Gonçalves, questionando o apoio e Ziraldo a Monteiro Lobato e citando o artigo que encaminho o resumo e introdução, além do link para ler na integralidade.

 

Abraços

Pedro Caribé





Noções de Raça e Eugenia em Monteiro Lobato: vida e obra.

 

Maria Ana Quaglino, Ph. D. in History - UCLA.

 

Resumo: O objetivo deste trabalho é o de relacionar as representações de raça e eugenia apresentadas na obra de Monteiro Lobato com teorias e noções “científicas” que as inspiraram. Para explicar a passagem de fragmentos de um discurso tido então como científico para o universo do senso comum, através de um mediador privilegiado e de uma literatura produzida explicitamente para o mercado, considerarei a trajetória de vida do renomado escritor, analisando em particular a formação de seu habitus “racial” e as representações de raça e eugenia presentes em sua obra. Mais de 50 anos após a morte de Monteiro Lobato, sua obra infantil continua sendo reeditada com sucesso sem que se faça qualquer esforço para apresentá-la como um produto historicamente datado e que merece ser lido enquanto tal.

 

 





I - Introdução:

A obra infantil de Monteiro Lobato há muito envelheceu no que diz respeito a representações de raça, sem que suas reedições tenham o cuidado de alertar o leitor para o fato. A quase contínua presença de várias versões adaptadas das histórias do “Sítio do Pica-pau Amarelo” na televisão brasileira, desde os anos 1950, e o sucesso dos livros entre crianças de gerações passadas—hoje pais, avós e bisavós—impulsionam estas reedições, onde o editor não esquece de modernizar as ilustrações, de fracionar os livros em folhetos para diminuir o volume de texto a ser lido, de excluir os textos que contêm informações desatualizadas de história, geografia ou gramática, mas não lembra da fundamental tarefa de reeditar a obra contextualizando-a. As escolhas do que reeditar da obra não escondem—e nem devem, como tentam fazer os adaptadores de Lobato infantil na TV—uma característica da obra e do “habitus” deste autor: a presença de fragmentos de teorias e noções sobre raça e eugenia, que tratavam da identidade “racial” do brasileiro, hoje sabidamente equivocadas e que agora só tem a função de manter vivos preconceitos.

A bibliografia que analisa as questões de raça e de eugenia em Monteiro Lobato tende a analisar—quando chega a tanto—apenas parcialmente a vida e a obra do autor. Pouco ou nada trata a respeito da formação “filosófica” do autor e do impacto desta tanto na sua obra de adultos quanto na obra infantil. É muito comum encontrar trabalhos que tomam o episódio da revisão da imagem do personagem “Jeca Tatu”, inicialmente apresentado como “caboclo” e “degenerado,” como evidência de que Lobato abandonara ali—em virtude do seu contato com o movimento higienista, particularmente com Artur Neiva e Belisário Penna—as teorias de raça que bebera em Gustavo Le Bon, Hippolite Taine e Ernest Renan. Uma análise da correspondência do autor com cientistas da época (como os já mencionados, bem como Oliveira Vianna, Renato Kehl), literatos, editores estrangeiros, amigos e parentes, assim como da obra adulta e infantil do autor revelam que Lobato até o fim da sua vida, em 1948, não repudiou tais idéias e que estas estão presentes ao longo de sua obra.

Neste trabalho estarei apresentando, de forma condensada, alguns dos argumentos que desenvolvi na minha tese de doutoramento sobre raça, gênero e identidade nacional na vida e obra de Monteiro Lobato, bem como na primeira adaptação para a TV da obra infantil do autor. Utilizando como referencial teórico os conceitos de “habitus” e “disposição,” de Pierre Bourdieu, argumentarei, em primeiro lugar, que as disposições filosóficas1 de Monteiro Lobato, que informavam suas concepções de ciência, religião, história, raça, gênero, política e identidade nacional, se conformaram entre 1900 e 1904, embora sofrendo ajustes e reforços significativos até finais da década de 1920. Estas disposições no que tange a questão de raça, independente das oscilantes declarações do autor de fé ou de descrença nas teorias do branqueamento, se mantiveram em Lobato por toda a sua vida e aparecem, de forma mais ou menos fragmentada, tanto nas suas observações sobre o quotidiano quanto ao longo de toda a sua obra. Argumentarei também que predominaram no autor uma visão “pessimista” das teorias do branqueamento e da miscigenação, fundadas nas idéias de degeneração racial.

1 Lobato começou a adquirir opiniões próprias sobre questões ontológicas por volta dos 18 anos, através de uma variedade de leituras que podem ser classificadas como sociologia, psicologia, história, além de filosofia. Estou empregando a expressão “disposições filosóficas” no sentido de princípios que forjaram sua concepção adulta do mundo. Nos seus escritos, Bourdieu define “habitus” como um sistema de disposições que são princípios ou estruturas mentais que geram, ajustam e organizam as percepções, representações e práticas dos “agentes”. Seguindo Bourdieu, eu também entendo que os indivíduos—definidos por ele como “agentes” para marcar uma posição teórico-metodológica diferenciada das versões mecanicistas do marxismo e do estruturalismo – e suas “consciências” não são o epifenômeno das forças materiais e sociais. Na verdade, os indivíduos modelam, até certo ponto, a realidade social através de concepções e representações anteriormente produzidas sobre o mundo. Pierre Bourdieu.The Field of Cultural Production. New York: Columbia University Press, 1993. 1-25, 162-163, 181-182, 234, e 269.

 

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Comentário de Vanice da Mata em 19 fevereiro 2011 às 18:45
A propósito do tema, obrigatória a leitura de Carta Aberta a Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves. Tudo isso via 'antena parabólica' Ricardo Riso

Translation:

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