Papai Noel, num próximo natal me dê de presente o reconhecimento da minha integridade: um relato soteropolitano de uma abordagem policial (baculejo)­.

Eu, Carlos Vinicius Gomes Melo, homem, preto (seguindo os critérios de raça/cor do IBGE), de 25 anos, psicólogo, residente na cidade de Salvador, Hoje na data de 24 de dezembro de 2011, recebi  um inesperado presente de natal, um “Baculejo” policial. Acordei hoje no intuído de renovação e fui lavar o carro onde de costume  aqui em Salvador, no bairro de Brotas. No meu caminho, já próximo ao local (que por coincidência em frente a faculdade onde fiz meus 5 anos de curso), no meu possante vinho, escutando a Orquestra Sinfônica de Música Jamaicana, fui solicitado para que parasse pela polícia da caatinga. Então, deste ponto começa meu relato “Eu sofri uma abordagem policial!!!” e utilizo o termo “sofre” não a toa.

 

 

Solicitado por um policial também preto (sobre meu ponto de vista) para que estacionasse e desligasse o meu carro, veio outro pedido (mais num modelo de ordem) para que saísse do veículo e me posicionasse frente a porta traseira do carro com as mãos sobre a cabeça. Pensei comigo: “Lá vamos nós a vergonha!!!”

Saio do veiculo e vejo mais dois policiais (sobre meu ponto de vista) um branco e outro pardo me fitando de todos os ângulos, tentando captar qualquer índice de marginalidade desse neguinho que dirige um carro que não é típico para sua cor. 

Não acostumado com a abordagem policial, sai do carro e ao invés de colocar as mãos sobre a cabeça, pus atrás da cabeça. Então, o policial que havia me dados a ordem, informou que iria fazer uma revista, puxou minhas mãos para cima da cabeça, afirmando que tinha me tido que era em cima e não atrás e torceu minhas mãos fazendo com que limitasse mais meus movimentos.

 

 

Na posição que ele desejava , respondi o informe dizendo que pudesse ser  feito (e me veio o desejo de dizer “não”, testando os meu direito a privacidade) mas preferi testar isto em outro momento, considerando a intimidação que me afetou. Na mesma resposta, veio o meu pedido para que seja feito sem violência e com educação.

 

 

Senti o entorse das mãos mais forte, seguido de certo silêncio da parte deles que me soou com ar de estranhamento.  Juro que esperava um soco na costela, mas ao invés do soco, vejo o questionamento junto a uma força maior às minhas mãos. “Como é que é?”

 

 

Neste momento veio outro policial com mais tato, explicando que a abordagem policial não é violenta, mas que existe violência quando de necessário e que não estavam me tratando com violência ou falta de respeito. 

 

 

Naquele momento já me sentia violentado, mas respondi que até então não percebia que tinham sido desrespeitoso, mas que a partir daquele momento não houvesse. Então se seguiu a revista corporal, de forma agressiva e despeitosa para com meu corpo, numa tentativa ate de demonstração de seu poderio policial de prontidão e efetividade e claro, de intimidação. Em seguida foi o mesmo policial para a revista no meu carro. 

 

 

Enquanto policial continuava a revista no carro. Eu tentei informá-lo sobre como abrir um compartimento do carro e este me respondeu, com a tal ‘delicadeza”: “Senhor, quando eu lhe perguntar algo você responde, caso contrário fique calado”. Neste momento retornei a minha humilde insignificância. Outro carro havia parado atrás do meu. Outro negro, mas num carro popular, com sandália Kenner, sem camisa, sem cinto de segurança e sem metade da gentileza que recebi a partir do momento que reivindiquei os meus direitos. 

 

 

Retornando a vistoria do meu carro, o policial teve outra dificuldade num outro compartimento de porta objetos. Eu no meu espírito natalino, tento informá-lo novamente como abrir (até mesmo porque se ele quebrasse, não iria ser o Estado que iria me pagar) e a replica dele foi: “Você é surdo? Já não falei para ficar calado?”. Fazendo-me Retornar novamente a minha insignificância! E que insignificância.

 

 

Enquanto este procedimento estava sendo feito outro policial veio puxar conversa comigo, perguntando se eu era professor. Eu disse que não, que era psicólogo. Então ele veio elogia minha profissão colocando a importância dela na sociedade e que ele até era interessado na temática de comportamento humano e de psicanálise. Em seguinda teceu comentários sobre a educação que eu havia solicitado, pois ele entende que a polícia tem a fama de truculenta, e que isto está na própria história policial que de fato tinha objetivo inicial de “capturar o negro no mato” e que atualmente as coisas tem mudado apesar de alguns ainda terem este comportamento truculento. 

 

 

Neste momento fiquei feliz ao ver um policial elaborando tal analise! Mas ao mesmo tempo não tão feliz pois percebia que todos os carros parados ali, sob sol das 11 horas da manhã e aos olhos de todos, eram de homens negros de meia idade e o pior é que muitos destes não sabiam onde estavam seus direitos. Então se concretizou a sensação que só fui parado por ser negro, independente da marca do carro, do óculos, ou da minha aquisição educacional ou profissional. Simplesmente fui parado por que era negro, como indiretamente ficou evidenciado num discurso amistoso do policial, “...capturar negros.” (sic).

 

Eu fui um suspeito de um crime que ainda não aconteceu?? Ainda tento elaborar isso. Ou ele conseguiram ver através de meus traços faciais, físicos e de cor a eminência de um crime que eu iria cometer?? Talvez um crime que nem eu mesmo imaginei que fosse cometer. 

 

 

Pois é... neste momento peço um Salve a Cezare Lombroso e sua Teoria de Degenerência, que colocava a propensão ao crime como um fator de imperfectibilidade da raça negra. 

 

 

Embora perceba a lapidação deste sujeito policial que se questiona até mesmo a cerca de seu lugar social, dentro do meu carro e no carro do meu irmão de cor atrás do meu, percebo declaradamente a truculência na falta de respeito com o corpo do outro (e nesta situação do corpo negro), com os objetos pessoais e com os direitos dos outros.

 

 

Certa vez, não lembro a capital brasileira, fui abordado pela policia. Mas com muito respeito e educação, me perguntando se eu dava permissão para fazer a vistoria nos meus objetos. E além disso não METERAM A MÃO EM NADA. Davam as instruções para eu mesmo ir manipulando meus pertences e observavam atentamente ao que eu tinha e em mim.

 

 

E a falta de respeito com o corpo do negro era a mais evidente. Torce pra cá, entorta para lá, baculeja aqui... Afinal de contas como canta Elza Soares “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. E nisto indico o filme “Quanto vale? Ou é por quilo?”.

 

 

Em suma, encerro esse relato com um questionamento: “Onde estão os nossos direitos, em?!? Até que pondo será preciso eu ficar afirmando que eu também tenho direitos e exijo respeito e educação??”

 

 

Apesar da tentativa, por parte deles, de retribuírem o respeito solicitado por mim, saí da situação extremamente constrangido e com as pernas cambaleantes.  Ou seja, é evidente que SOFRI ALGUM TIPO DE VIOLENCIA DE ORDEM SUBJETIVA E MORAL e isto porque eu ainda soube como reivindicar meu direito. Tenho pena e também fico constrangido pelos sujeitos negros que não sabiam como fazer isso ainda. 

 

 

Este foi o meu presente de Natal, o constrangimento policial, em pela luz do dia e aos olhos de todos. Obrigado Papai Noel por me mostrar que eu preciso trabalhar ainda muito pra mudar isso. Ou pelo menos tentar, né!!!

 

 

Um Feliz Natal a todas e todos...

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Comentário de EDUARDO PEREIRA em 30 dezembro 2011 às 11:55

Lamento meu caro, mas quando a Constituição afirma que todos são iguais perante a lei, está falando da igualdade jurídica, ou seja do mundo idealizado pelos juristas, chamado de "Mundo Jurídico". Só que, nas relações sociais, econômicas, culurais, étnicas, raciais, etc., essa igualdade deixa de existir, o que é deveras lamentável. Pior, Salvador, a cidade que, dizem possuir mais negros fora do Continente africano, o facismo salta aos olhos é, só se notar os negros jogados na mendicância nessa opulenta cidade.  Bem, deemos nos instrumentalizarmos, estudando, como você fez, buscando ocupar os espaços dos quais fomos destituídos ao sermos sequestrados do nosso continente, o que não é tarefa fáciil, já que são séculos de opressão e exclusão e, necessitamos, além do financeiro de dominamos os códigos culturais e que, diga-se na maioria das vezes esses códigos adotados pelos brancos  fogem completamente à retórica, no que concerne à moral, ou seja, eles pregam uma cisa e fazendo completamente diferente.

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