Participação popular, receita para reduzir violências.


                                                                                             

                                                                            “Todo poder emana do povo, pelo povo e para o povo”.
                                                                                                                         Jean Jacques Rousseau

Verônica é mais um caso que atesta as opressões de gênero, raça e classe que gente como ela, você, eu e pelo menos 52% da população brasileira, que é negra, vive todos os dias. É de se pensar sobre quando o Brasil vai começar a realizar medidas enérgicas que combatam efetivamente o racismo institucional nas polícias e no sitema peniténciario, por exemplo.
Quando a Câmara dos Deputados vai se mobilizar para discutir a desmilitarização das polícias, assim como se mobilizou para votar redução da maioridade penal, aumentos de verbas de gabinete ou a terceirização do trabalho? Embora os deputados - eleitos pelo povo (nós!) - tenham votado a favor do projeto na instância que lhes cabe, a notícia tomou as ruas e muitas pessoas, movimentos, governo, empresas, imprensa estão mobilizados para se posicionar contra ou a favor do tal projeto.
Será que os deputados e senadores irão mobilizar-se em prol das medidas que verdadeiramente beneficiam o povo? A quem interessa a desmilitarização ou o debate por uma nova política de drogas ou a criminalização da homofobia, transfobia e lesbofobia? Certamente serão necessários esforços estratosféricos da sociedade civil para que tenhamos essas notícias, já que essas medidas só beneficiam aos subalternizados pelo atual modo de organização social e o modelo gestor do Estado, que opera opressões cruzadas ou a chamada tripla opressão, teorizada por Claúdia Jones no século passado. Sem contar que tais medidas excluiriam os altos lucros que os ricos possam ter com as cadeias privatizadas, a mão de obra tercerizada e a maioridede penal reduzida.
O que se espera de fato é que Verônica não seja esquecida, assim como Claúdia, Amarildo, Joel, os meninos do Cabula, os irmãos de dois amigos meus, outras trans e assim um monte de gente excluída pelo atual modo de organização social. Com certeza as famílias não os esquecerão, nem as pessoas que lutam contra a máquina da opressão.
Devemos permanecer vigilantes e combativos para que os fundamentalistas religiosos, militares, nazistas, racistas, sexistas e os corruptos não possam esconder os nossos corpos, dando aos criminosos a confortável sensação da impunidade. É apavorante a sensação de impotência quando se vê as fotos de Veronica ou dos corpos da chacina do Cabula reaparecem na linha do tempo das nossas redes sociais. É sempre uma pesada lembrança de viver numa sociedade branca, hetoronormativa, patriarcal, racista, sexista, transfóbica que tutela tantas violências.
São os responsáveis pelos 211.855 votos que elegeram Marco Feliciano deputado federal; que apoiam a cura gay; que dizem que mulher tem que ganhar menos porque engravida, os que vão às ruas pedir a volta da ditadura militar ou que no campo virtual fazem campanha para que homens não se casem com mulheres negras. São essas pessoas e suas ideologias, infelizmente, que ocupam a grande maioria dos espaços de poder como as cadeiras no executivo, legislativo ou judiciário. Essas pessoas organizadas tem sido maioria responsável por formar opiniões e delegar ações que afastam cada vez mais o Brasil da chamada revolução democrática e laica. Impedindo que se faça valer princípios de cidadania como a equidade, universalização e integralidade nas intervenções realizadas e serviços prestados pelo Estado.
Outro ponto relevante é citar o momento histórico e político importante em curso no estado da Bahia: a eleição para a vaga na Ouvidoria Ouvidoria Geral da Defensoria Pública do Estado. A ex-ministra - Luiza Bairros- da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR, afirma que a ouvidoria geral da DPE é a principal ligação entre as demandas da sociedade civil e o empenho cotidiano dos Defensores e Defensoras dos direitos do povo baiano, segundo ela a ocupção desse espaço pode contribuir muito para afirmar nossa cidadania e aprofundar o nosso processo democrático. Então, a escolha do novo ouvidor ou ouvidora acontecerá no dia 30 de abril, após eleição feita por representantes indicados pelas entidades da sociedade civil.
A Rede de Mulheres Negras da Bahia, a Articulação de Mulheres Brasileiras, também a ex-ministra Luiza Bairros, Jurema Verneck, Lindinalva de Paula, Zilmar Alverita, Luciana Mota e mais uma infinidade de pessoas, entidades, coletivos, personalidades apoiam a Professora Vilma Reis para Ouvidora Geral da Defensoria no estado. Apoiam porque ela não deixa que o Quilombo do Rio dos Macacos seja esquecido e porque carrega consigo, com a sua luta diária, no seu exemplo, a esperança e a certeza de que através da mobilização das pessoas e comunidades alcançaremos uma sociedade com menos violências de gênero, classe e raça.

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