Pesquisa do DataSenado mostra a realidade da juventude negra no Brasil

Estudos mostram que mesmo com os avanços no debate de politicas públicas de juventude, os homicídios que ocorrem no Brasil ainda nos dias de hoje  atinge em sua maioria jovens: do total de vítimas em 2010, cerca de 50% deste possui idade entre 15 e 29 anos. Desses, 75% são negros. Mesmo diante destas informações coletadas pelo ministério da Saúde e outros orgãos, até esta quinta-feira ( 07\11), pouco se sabia sobre as percepções da sociedade acerca de tão importante tema.Diante desta situação, o DataSenado realizou a  pesquisa de opinião pública  intitulada Violência contra a juventude negra no Brasil.  é parte do Protocolo de Intenções firmado entre o Senado Federal e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir/PR), no âmbito da campanha Igualdade Racial é Pra Valer.

Durante a solenidade de apresentação destes dados, foi possivel   perceber que a maioria da população acha que as mulheres sofrem mais com a violência (67,1%) e que os negros são as principais vítimas (66,9%). Pouco mais de um terço (35,8%) acredita que a violência atinge mais os jovens na faixa de 19 a 29 anos. Quando questionados sobre as causas, 63,0% atribuem a violência contra a juventude a aspectos sociais, enquanto 34,8% diz ser fatores  associados ao comportamento juvenil de risco. Quando perguntados especificamente sobre a principal causa de morte entre os jovens, a maioria indicou o uso de drogas (56,2%), os acidentes de trânsito (22,4%) e os assassinatos (19,8%).

 

A maior parte dos entrevistados (62,3%) disse que  não há diferença  de morte entre jovens brancos e negros e 31,4% concordaram que jovens negros são mortos em maior quantidade que os brancos. Para 26,3% dos respondentes, a cor dos jovens tem influência na quantidade de mortes. Na pesquisa é possivel perceber também que a,  noção de que no Brasil a violência mata mais pobres do que ricos é consensuada por 90,4% dos respondentes. Sendo alto o consenso  (80,9%) com a afirmativa de que os jovens brasileiros são vítimas da violência independentemente da cor ou raça.Para 36,4% dos entrevistados, a principal ação para combater o racismo deve ser a melhoria do ensino nas escolas. A mudança das leis foi assinalada por 22,7%, enquanto 20,8% consideraram suficiente a garantia do cumprimento das leis existentes. Acrescente-se que 15,7% apontaram as campanhas de conscientização e 2,4% consideraram as ações afirmativas como a principal medida que o governo deve tomar para combater o racismo.

 

Durante a apresentação das analises, foi possivel  notar que as variações na frequência das respostas mostram ser bastante influenciadas pela cor ou raça declarada da pessoa entrevistada. A percepção dos efeitos diferenciados da violência e da discriminação sobre distintos grupos raciais é mais evidente entre os que se identificaram como negros (pretos e pardos).Do mesmo modo, observaram-se variações na opinião dos entrevistados segundo a região onde residem. Exemplo disso são as respostas sobre a cor ou raça das principais vítimas da violência. Os negros foram apontados nesta condição por 75,5% dos entrevistados da região Nordeste, 70,8% do Norte, 65,0% do Sudeste, 59,0% do Sul e 57,4% do Centro-Oeste.A pesquisa permite identificar discrepâncias entre as opiniões captadas e as estatísticas oficiais. A maioria das pessoas concordou com a frase "jovens brancos e negros são mortos na mesma quantidade", mas, em 2009, por exemplo, os homicídios foram a causa de morte de 6.685 jovens brancos e de 18.595 jovens negros na faixa de 15 a 29 anos.

 

Apenas 2,4% dos entrevistados atribuíram a violência contra os jovens à discriminação racial. Contudo, quando o enfoque é dado ao jovem negro, 55,1% concordaram que "a principal causa de homicídio de jovens negros é o racismo". Outros aspectos levantados na pesquisa também ilustram um aparente processo de mudança de percepção sobre as relações raciais no Brasil. Primeiro, a admissão da experiência pessoal com a discriminação racial em diferentes situações, que variou entre 10,9% a 16,9%. Segundo, a constatação de que um pouco mais da metade dos entrevistados já considera que ser branco ou negro afeta a vida de uma pessoa. Por fim, o entendimento, também por mais da metade dos entrevistados, de que a sociedade se choca menos com a morte violenta de um jovem negro do que com a de um jovem branco.

A pesquisa evidenciou a importância atribuída à educação e à legislação no enfrentamento ao racismo. Talvez este seja um reflexo dos esforços desenvolvidos nos últimos anos para a implementação da Lei Nº. 10.639/2003, que modificou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional tornando obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira na rede escolar.

Discurso do Presidente Sarney na Cerimônia de assinatura do plano de trabalho do acordo de adesão do Senado Federal à campanha "Igualdade Racial é pra Valer" e apresentação do resultado da pesquisa "Violência e Juventude Negra"

AINDA A DESIGUALDADE RACIAL


No meu Estado, o Maranhão, em 1838, o Negro Cosme — que se chamava a si mesmo o Imperador das Liberdades Bem-te-vis — foi o grande líder da Balaiada, e, no maior quilombo do País naquele tempo, com cerca de três mil negros, tinha uma preocupação grande, talvez única na história dos quilombos: fazer uma escola no quilombo. Essa mesma preocupação com a educação me fez, depois de estudar com lideranças dos movimentos negros, acreditar na importância de uma política de cotas.
Fui o primeiro a levantar essa questão no Brasil.


Tenho apoiado, desde que cheguei ao Congresso Nacional, todos os movimentos a favor da igualdade racial, e tive a oportunidade, como Presidente da República, de criar a Fundação Palmares, de tombar a Serra da Barriga, de romper relações culturais e esportivas com a África do Sul enquanto lá existisse o apartheid — contra  o qual já havia discursado na Assembleia Geral da ONU em 1961.
Aqui no Senado Federal estamos agora colaborando com a Secretaria de Igualdade Racial em um programa que prevê o início em breve de cursos especiais de capacitação à distância e já tem um resultado concreto: uma pesquisa nacional de opinião pública sobre a Violência contra a Juventude Negra no Brasil. Mais um produto do DataSenado — nosso serviço modelar de pesquisa de opinião —, esta pesquisa trabalha com a percepção que as pessoas têm dos fenômenos sociais, não com a realidade, cujos números efetivos são terríveis: segundo o Mapa da Violência no Brasil, foram mortos, em 2010, 33.264 afrodescendentes, contra 13.668 brancos, uma diferença de mais de 140%.

Entretanto a pesquisa revela como percepção dominante que brancos e negros morrem na mesma proporção, enquanto apenas uma pequena minoria — 2,4% — atribui a violência contra o negro à discriminação racial. Esses são números da pesquisa que confirmam uma situação que eu já havia diagnosticado.
Embora Brasil seja uma democracia racial, carregamos enorme carga de preconceito. Se não temos segregação racial, a discriminação racial faz parte de nosso quotidiano, numa forma especialmente insidiosa, a discriminação encoberta, mascarada, escondida, até mesmo inconsciente. Como a pesquisa revela, não nos damos conta da seriedade da situação. Apenas metade da população acredita que ser negro ou ser branco afeta a vida de uma pessoa no Brasil. Menos de 22% dos negros declara que se sentiu discriminado por sua cor ou raça.

Infelizmente sabemos que a realidade conflita com esta percepção. É verdade que a exclusão dos negros e da comunidade negra coincide em grande parte com a dos pobres. Mas, mesmo que superpostas, elas não podem ser confundidas. Os negros, entre os pobres, são os mais pobres; entre os que têm dificuldade de acesso à educação, os que têm mais dificuldade; entre os doentes, os mais graves; entre os que morrem vítima de violência, a ampla maioria.

É preciso acabar com a divisão da sociedade brasileira. E é esse justamente o nosso combate. Não há como negar o que aconteceu: uns foram escravos, outros foram senhores. Uns eram negros, outros eram brancos. O trabalho de resgate, proposto por Joaquim Nabuco, não aconteceu. Portanto, a nossa tarefa é fazê-lo.

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