Piauiense Sarah Menezes - Primeira mulher a ganhar ouro no judô brasileiro em Jogos Olímpicos

 Veja que mundo contraditório. A piauiense Sarah Menezes, moradora do Bairro Bela Vista, periferia de Teresina, capital do estado, é conhecida hoje mundialmente como a primeira mulher judoca brasileira a ganhar um ouro em Jogos Olímpicos. Fazendo parte dos 49 milhões de brasileiras (o) entre 15 e 29 anos, que mora em periferias urbanas, e é negra (o), ela poderia, como tantos outros, estar estampando a capa dos jornais por outras diversas razões. Repressão policial e extermínio nas periferias da juventude negra, higienização étnica devido aos megaeventos, que descarta pessoas que não tem capital para investir nos mesmos - como a própria Olimpíada de Londres que, como tantos outros megaeventos, excluiu a população pobre dos grandes centros onde os jogos acontecem . Porém, hoje, a mídia é obrigada a mostrar essa jovem negra de periferia sob outra ótica, como uma grande lutadora.

Dentro do estádio de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres , 80.000 pessoas vibravam com a cerimônia neste 27 de julho, enquanto do lado de fora, moradores, ex-moradores e ativistas vinham denunciando há algum tempo  a “limpeza” da área, uma das mais empobrecidas do país, feita à base de políticas agressivas de coerção e remoção de pessoas com ''comportamento anti-social'' da área do Parque Olímpico, em favor do “benefício econômico”, segundo reportagem de Roberto Almeida ao site Direito à Moradia. 

 

Foi nesse contexto de Londres que a judoca piauiense Sarah Menezes conquistou, neste sábado (28), a medalha de ouro na categoria peso-ligeiro (até 48kg) ao derrotar a romena Alina Dumitru na final, atleta campeã olímpica em Pequim 2008.  É o primeiro ouro do Brasil nos Jogos de Londres e é também a primeira medalha de ouro do judô feminino do Brasil em Olimpíadas. O melhor resultado era o bronze de Ketleyn Quadros, em Pequim-2008. Nos Jogos de Pequim, Sarah, então com apenas 18 anos, fora derrotada logo em sua primeira luta.

Judoca piaui vibra ao conseguir pontuar contra Alina Dumitru na final olímpica (Foto: Agência AFP)

 

Sarah fez história também por quebrar um ciclo de 12 anos. Desde Sydney-2000, a modalidade brasileira não disputava uma final olímpica. Na ocasião, Carlos Honorato ficou com a prata..

 

O ouro não foi uma surpresa para quem acompanha a trajetória da atleta piauiense, e sim o resultado de um processo de crescimento em público. Aos 18 anos, Sarah Menezes foi campeã mundial júnior, em Amsterdã, na Holanda, e se tornou automaticamente a grande esperança da modalidade. Naquele mesmo ano, estreou em Olimpíadas, em Pequim 2008, e caiu logo na primeira luta. Em 2009, conquistou o bicampeonato júnior, foi eleita Atleta do Ano pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e iniciou sua escalada entre os adultos. Em 2010, foi medalha de bronze no Mundial de Tóquio; dois anos depois, chegou à prata no Mundial de Paris. Durante os quatro anos do ciclo olímpico, colecionou ouros em etapas de Grand Slam, Grand Prix e Copa do Mundo, sem jamais deixar os treinamentos em Teresina, no Piauí, sua casa.

 

Ela diz não ver motivo para ter vergonha do seu estado. '' Apesar da distância dos grandes centros, não devemos nada a ninguém. Temos de levantar a cabeça e ir em frente ''  – ensina a judoca, que já foi a mais de 17 países, mas não troca o Piauí por nada.

 

Sarah Menezes falou sobre sua conquista pouco depois de descer do pódio:

"Esperava muito chegar neste pódio olímpico - e cheguei, aos 22 anos. Estou muito contente mesmo. A ficha caiu, sim, mas ainda estou muito emocionada. Queria agradecer a todos que ajudaram na minha carreira, a todos que estiveram comigo. Me senti bem desde que cheguei à Vila Olímpica. Consegui segurar a emoção. E deu certo. Antes de vir para Londres, fiz um trabalho psicológico muito forte. Foi por isso que consegui lutar bem, e consegui que o ouro chegasse. Acreditava muito no meu talento, acreditava muito no meu treinador. E acreditavam em mim mesma, principalmente. Quando eu comecei, meus pais falavam que judô era um esporte masculino. Mas eu entrei em um acordo com eles: pedi para continuar no esporte e prometi continuar meus estudos. E sempre consegui conciliar os dois." 

Com essa declaração da judoca, podemos compreender o quão difícil foi para ela seguir essa carreira e como ela enfrentou alguns obstáculos. O primeiro deles, o fato de ser natural de Teresina, no Piauí, longe dos grandes centros esportivos do Brasil. O segundo, e muito maior, a desaprovação dos pais, que não queriam que ela praticasse um “esporte de meninos” e o qual a mesma conta que insistiu bastante até mudar a cabeça deles. Um triste tabu histórico da divisão das tarefas de homens e mulheres na sociedade, o qual deve ser combatido todos os dias. 

A campeã olímpica lembra sempre que a paixão pelo judô surgiu aos nove anos, quando assistiu a uma demonstração em sua escola. “Sempre gostei de desafios desde que eu era criança”, fala. Para praticar, ela saía de casa escondida de seus pais.

Sarah Menezes é exemplo para a juventude da periferia de Teresina. Foto: Globo Esporte

 

Sarah Menezes está aí para mostrar que os talentos estão em todos os lugares, nas grandes cidades, nas periferias, no Piauí, em Teresina, o que falta são políticas públicas, incentivos governamentais para que esses talentos não se resumam apenas a um, mas que venham pra beneficiar toda uma juventude carente de lazer e oportunidades. Que venha ser não somente uma exclusividade como Sarah, mas uma rotina de sucesso para muitos de nossos jovens. Entretanto, isso não exclui hoje, de parabenizarmos Sarah Menezes, como piauiense, mulher, jovem negra, e que ela sirva de exemplo positivo para tantos outros jovens  no Piauí e em todo o Brasil, pois de exemplos negativos a juventude negra já está cansada de ver nos programas policialescos, que insistem em mostrar essa parcela da juventude de forma ridicularizada sem problematizar de onde vem os reais conflitos sociais que tem sido causa hoje de grande extermínio da população negra nas periferias de todo o Brasil.

 

* Texto: Carmen Kemoly, correspondente do Correio Nagô no Piauí.

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Comentário de Marco Antonio Soares em 3 agosto 2012 às 14:55

Cecília, aonde que Sarah é negra ? Ela é visivelmente uma indiadescendente.

Comentário de Cecília Bizerra Sousa em 29 julho 2012 às 15:11

Belíssimo texto! Me emocionou e a reflexão que ele faz vai exatamente ao encontro do que eu penso. Para além do texto e da reflexão, é bem grande a felicidade de ver uma jovem piauiense, negra e do Bela Vista (meu bairro querido! rsrs) sendo uma sementinha de inspiração e esperança para outras/os jovens que são da mesma raiz que a gente... Texto muito bom mesmo. Já compartilhei em muitos lugares...

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