PLATÉIA DE SÃO PAULO SE DEIXA INVADIR PELO BANDO TEATRO OLODUM NUM RITUAL CATÁRTICO.

Nesse domingo, 11 de abril, senti a honra de ir prestigiar aqui nos palcos de São Paulo o Grupo Bando de Teatro Olodum. Ao entrar na sala de espetáculo me deparo Nonatinho do Olodum e trocamos um belo abraço, baiano, que esta aqui, sentindo o frio de São Paulo já há quase um ano. Nesse momento, percebi como aquelas confirmações do além, “a noite será boa”. E foi. O espetáculo em questão é Cabaré da Rararaça.

Sinto-me como um jovem apaixonado quando a frente do espelho ensaia frases de impacto para impressionar a dama, essa intenção, surgiu antes de ir prestigiar o Bando. Previamente havia ensaiado, falar minhas impressões de como o público paulistano receberia o espetáculo, esse conhecido pela sua exigência, mas no decorrer do espetáculo tudo se transformou devido à catarse teatral.

Quanto ao público esse adorou foi notório, pelo murmúrio no saguão do teatro após espetáculo. Havia duas questões a se considerar o fato de permanecer um tempo ali no saguão após o término da sessão, coisa de meia hora, isso ocorre quando as pessoas foram pegas pela peça, outro fato, bom citar que a temperatura em São Paulo caia e o Bairro Vila Mariana, considerado frio, portanto o aconchego melhor programa. Haviam grupos de convidados, e um de extasiados, vale considerar, que o SESC, Vila Mariana em SP, é uma unidade enorme, mas a ultima atividade que encerraria o conjunto da programação do dia, era o teatro que ainda estavam no aguardo do público se retirar. Não só questões climáticas me deram referencias. O publico na maioria de negros, o que configura uma platéia já simpática ao grupo, uma impressão melhor teríamos se fosse mais diversificada. Mas uma platéia de maioria negra, o que não é comum, nas poltronas dos teatros do nosso país, é um sinal que pouco se fala em nosso tablado a esse publico especifico. Mas outras impressões também se fizeram presentes na noite.

O grupo Bando despertou outros pontos que vale colocar em pauta. O espetáculo aponta questionamentos sobre o negro como um ser social, considerando-se ser um grupo genuinamente de negros, a força de cada texto dito pelas personagens, faz do palco um divã coletivo. Coloca ali a auto-estima necessária e a falta dela, a revolta e o orgulho, o dito e o não dito, tudo em cena, corresponde a vivencia dos artistas em seus cotidianos e levaram a platéia a refletir junto, em situações que o publico se identifica em gênero e grau.

Há ai um fato interessante no trabalho, segundo Bertolt Brecht “o mundo é um grande teatro, pena que com péssimos atores” o grupo explora essa premissa brechtniana com grande propriedade, colocando as personagens como arquétipos desse conflito sócio-racial, demonstram que quando cônscios de sua condição sociológica tornam-se protagonistas de primeira linha.

Vou seguir essa linha, e usarei minhas impressões para salientar pontos que possam contribuir para outros grupos de teatro ou da sociedade organizada, cuja missão é preocupar-se com a melhor qualidade de vida das outras pessoas. O que chamo de coluna central do grupo é a força expressa pela vontade e alegria de fazer parte, de uma idéia com base na força estética do núcleo. Nesse ponto o espetáculo é generoso, todo elenco, atores e atrizes, músicos, tem seu momento solo, (e dar seu recado). Onde o protagonista e antagonista do espetáculo é o mesmo sujeito, o preconceito.

Levar a cena, uma temática cuja pluralidade de impressões, numa miscelânea de síntese e antítese. Fortaleceu o próprio grupo, como propósito do porque serem artistas, e a consciência de ser uma molécula viva e em transformação e contribuírem ao que podemos chamar de uma revolução maior dentro do conceito da diversificação, que evolui e vai além do conceito marxicista de revolução de massas o que Felix Guatarri chamou de revolução molecular.

Sinto que o tema favoreceu a companhia como organismo, é um exemplo que pode servir de inspiração a outras organizações, que quando se jogam numa missão social seja ela qual for, é necessário essa auto-analise esse mergulho em si, no Caos e deixar fluir, o que de fato deseja dizer ao mundo. Esse processo desenvolve o comprometimento de cada um, o que fortalece o coletivo. Por conta disso resolvi me ater nesse primeiro artigo sobre o grupo, a questão de ser UM GRUPO. Minha carreira artística nasceu dessa forma, através do teatro de grupo, onde o palco e a vida passam a ser nossas maiores escolas. Portando o fortalecimento do organismo, com identidade própria é fundamental, esse sim é o alicerce. Mas o processo tem que ser continuo, outro fator é a capacitação de todos, aprimoramento de linguagens, e o que é fundamental, onde as organizações pecam em se vir como empreendedores, esquecendo-se de sua auto-sustentabilidade.

Aqui em São Paulo quando o assunto era leis de incentivo, comum ouvir despeitados de plantão dizer, ”Essas verbas vão sempre para os mesmos”, e eu respondia: - então aprenda com eles. Aqui existem grupos que partilham dessa preocupação em serem empreendedores culturais, CIA DO LATÃO, PARLAPATÕES, SATIROS, GRUPO VERTIGEM, e muitos outros. Se hoje o Bando de Teatro Olodum, tem visibilidade nacional, com patrocinadores e leis de incentivo a favor, porque percorreram as mesmas dificuldades que qualquer grupo percorre, mas com uma identidade forte.

Esse foco que dei ao artigo pode parecer romantismo de artista, mas não é. Hoje se criou uma cultura do segundo setor, para trabalhos motivacionais em suas empresas, que buscam no teatro, esse conhecimento. O que chamam de educação empresarial, que através de jogos teatrais e dinâmicas de grupo eles buscam o melhor comprometimento dos seus funcionários com suas respectivas organizações.

Voltando ao espetáculo, ele inicia com um personagem anunciando direto com o público, que o espetáculo é de fato panfletário. O anuncio intencional, já mostra embutido no discurso do arauto, que sabem o risco que correm, assumindo o espetáculo com essa estética, mas também esta nela o melhor formato, tornando o espetáculo dialético o tempo todo, um cabaré ao estilo Brecht, mostrando através de uma galeria de personagens os estereótipos sociais dentro do preconceito racial. Um desabafo do Bando para o público, do Bando para o Bando, onde até o nome assumido, pela Cia desenvolve certa coerência, assim a catarse teatral cumpriu seu papel. De fato o publico sente-se com a alma lavada, harmonizando consciente e inconsciente, através do ritual do teatro (surgiu ao mundo com essa função) derrubando essa mascara social, imposta por séculos de uma moral branca imperialista, e mostrando que a aceitação da diversidade é um caminho de fato prospero.

Sérgio Cumino – Ator, diretor de Teatro, poeta e gestor e formatador de projetos sócio-cultual e colaborador com o Correio Nagô.

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