POLÍTICA COMO GRANDEZA HUMANA, Por Sérgio São Bernardo

Este ano teremos eleição. Muitos estão convictos de que as cartas estão marcadas e já sabem quais candidatos serão eleitos. A maioria dos políticos está convencida de que o método para chegar lá é constituído pela conjugação de dois fatores: a organização corporativa de segmentos empresariais/ sociais e/ou a compra de votos. Não concordo que tais evidências alberguem os resultados estimados. Aqueles que não seguirão esta cartilha poderão ser eleitos? Acredito que sim e teço algumas linhas para explicar minha opinião.

Existe uma insatisfação generalizada quanto ao sistema político e os modos de representação adotados na política institucional. A política enquanto técnica de coexistência e decisão humana degenerou-se. Em seu lugar, a produção midiática e a garantia compulsória de votos comprados têm sido os únicos apetrechos utilizados pelos candidatos no agenciamento de recursos para uma suposta manutenção de base social. Por esta razão, a sociedade organizada e membros do poder judiciário estão maquinando arranjos institucionais que limitem esta aberração representativa. As pessoas estão começando a perceber que a atividade política virou um grande negócio, apenas.

Felizmente, existe ainda uma fatia de políticos que privilegia o contato pessoal olho-no-olho, valorizando as pessoas e rediscutindo bases elementares de novos contratos sociais, confrontando projetos nacionais, estabelecendo distintos códigos representativos, fazendo debates abertos e abrindo publicamente seus interesses e acordos, reeinstaurando uma perspectiva apaixonada da atividade política. Neste trajeto é que deve surgir a criação de polêmicas inventivas, tais como; a eleição de representação informal eleita pelo voto popular, o fim da emenda parlamentar e a possibilidade do eleitor destituir o seu representante através de mecanismos rescisórios.

O que digo é que os mecanismos de representação política e o sistema político brasileiro - vale dizer: voto censitário em detrimento do voto distrital, voto obrigatório em detrimento do voto livre, financiamento privado em detrimento do financiamento público, candidaturas eugênicas e machistas em detrimento de candidaturas multi-identitárias – contribuem para a eleição de certa tipologia de candidaturas, muitas vezes moldadas em valores e princípios patrimonialistas, genéricos, assistencialistas e racistas, nesta ordem. Dessa forma, cria-se um perfil de candidato e candidata que nunca chega lá.O poder do dinheiro está ditando as regras do processo eletivo, enquanto o poder midiático dita as regras de uma representação empobrecida e cínica. Os candidatos não precisam mais ser capazes de dizer muito sobre quem eles representam; limitam-se a discursos programaticamente genéricos, depois reivindicam favores específicos. Este modelo apenas nos faz mais mentirosos e impotentes!

Precisamos realizar uma contra-hegemonia na política e no sistema de representação. É possível eleger um político assim; sem utilizar métodos recorrentes de pessoas que se servem das casas institucionais do poder como meio de vida e não de luta. É preciso eleger idéias, projetos e pessoas que tenham capacidade de realizá-las. Assim como existe um eleitor que está esperando por quem pague seu preço, tenho conversado com outros que não estão esperando o dinheiro fácil do político, que pensa mantê-lo nesta situação o resto da vida. Isso não quer dizer que as pessoas não querem ser ajudadas. Querem sim! Existem mecanismos legais, públicos e privados de realização da justiça social sem que as pessoas precisem agradecer a “generosidade” do político.

Isso é muito diferente de fazer da eleição uma bolsa de valores – à boca pequena, dizem que os votos para o parlamento estadual e federal custarão quarenta e sessenta reais, respectivamente. Por conta dessa indústria de uma política fisiológica, teremos um contingente de eleitores que praticarão o engodo invertido da representação; enganarão seus representantes, receberão seu dinheiro e não votarão nele. Sabendo disso, ele vai aumentar o número de votos comprados para “engordurar” o seu coeficiente eleitoral.

A reestruturação do modelo representativo deve levar em conta a formação de redes horizontalizadas e centros de empreendedorismo como caminho de desenvolvimento coletivo, fortalecimento de uma economia solidaria e comunitária, construção de parcerias e mecanismos participativos, democratização do espaço público e fortalecimento de projetos nacionais suprapartidários. Cada homem e mulher na condição de eleitores têm que se transformar em empreendedores e ativistas da representação, podendo servir de novos paradigmas representativos para um mandato popular que confronta o modelo tradicional de representação.

Não precisamos de balões, nem de aviões. Não precisamos prometer nada. Basta voltar os seus olhos aos que lhe deram um voto de confiança. É possível representar segmentos que precisam desenvolver sua autonomia e poder. Um político precisa dizer a verdade acerca do que poderá e do que não poderá fazer. O político precisa gostar das pessoas que o elegeram e do lugar que representa.

É possível pensar a Bahia e sua autonomia sem se ligar ao ideário da modernização conservadora, sem se prender ao mero confronto da herança e ainda assim mudar a política, transformando-a em instrumento de mudança social e melhoria de vida das pessoas. Porque é possível ser político como profissão na sua dimensão oceânica e continuar sendo humano. Preciso fazer com que meus filhos gostem de política, em sua grandeza humana, sem que eles se dobrem ao bom negócio que é representar alguém!

Sérgio São Bernardo, professor da UNEB, advogado e presidente do Instituto Pedra de Raio.

Exibições: 36

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço