Entrevista com Ubiratan Castro de Araújo
Fonte: www.irohin.org.br , em 27/04/2010

Por Juliana Dias

Ele é um dos mais conhecidos intelectuais negros do Brasil. Durante quatro anos foi presidente da Fundação Palmares, instituição vinculada ao Ministério da Cultura. Atualmente é diretor geral da Fundação Pedro Calmon, órgão da Secretaria de Cultura do Es

tado. No último dia 20 de abril – Dia do Diplomata – o historiador e professor Ubiratan Castro de Araújo obteve mais uma demonstração de reconhecimento pela luta em defesa da cultura e cidadania negras no Brasil. Ele recebeu a Comenda da Ordem do Rio Branco, entregue pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia realizada no Palácio Itamaraty, em Brasília.
Em entrevista, o Doutor em História pela Université Paris IV-Sorbonne discorre sobre as ações realizadas por ele, como as missões em países africanos, em prol da construção de uma diplomacia negra. Esta é a terceira comenda recebida pelo historiador. Ele é Comendador da Ordem Zumbi dos Palmares, pelo Estado de Alagoas e Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, título concedido pelo governo de Portugal. “Ambas, uma espécie de reconhecimento pela minha prática na defesa da negritude”, destacou Ubiratan Castro.

O que representa ganhar a mais elevada honraria da Ordem do Rio Branco?
Na verdade, eu já tinha recebido a Comenda da Insígnia da Ordem do Rio Branco pela Fundação Palmares, quando fui presidente. Agora a comenda veio a título pessoal, para o quadro de comendador. A primeira foi resultado dos quatros anos em que estive na Fundação Palmares, das missões internacionais que fiz, que foram dez. Fui ao Haiti quatro vezes em missão, acompanhei o chanceler Celso Amorim em mais três missões no Caribe, mais duas na África, além de acompanhar o ministro Gilberto Gil e o presidente Lula em missões em vários países africanos.

Através dessas missões, qual à sua contribuição para a diplomacia brasileira?
Nessas missões, nosso papel era realizar o estabelecimento de novas relações com os países africanos e com os países da diáspora negra. Estive, por exemplo, em Cuba, Haiti, Trinidad Tobago, Curaçao, Suriname, países de maioria negra. Minhamissão foi de estreitar esses laços de colaboração, organização de eventos. No Haiti, levei a Makota do Terreiro Tanuri Junçara, Valdina Pinto, para um seminário com todo o povo de Vodu e foi um grande sucesso. Trouxe também o mais importante autoridade do Vodu Haitiano, Max Beauvoir, que fez uma visita ao Terreiro do Bogum (de Nação Jeje e tradição Fon) e a realização da Conferência de Intelectuais daÁfrica e da Diáspora, em 2006, pela Fundação Palmares. Na África, estive em Camarões e em Angola, várias vezes, inclusive representando o ministro Gilberto Gil, para distribuir medalhas da cultura. Estive também na Nigéria e no Benin, neste último com o governador Jacques Wagner. Passei por Gana, Senegal, Cabo Verde, todos foram países em que fiz parte de missões, indo falar, apresentar a cultura negra brasileira, estabelecer relações de aproximação de uma diplomacia negra.

E a missão do governo do estado da Bahia à África, como ocorreu?
Na Fundação Pedro Calmon, acompanhei o governador Jaques Wagner, primeiro governador baiano a ir à África e o ministro Juca Ferreira na visita oficial ao Benin, em 2008, lá estabelecemos contatos, acordos. Desde 2007, tenho ajudado o gabinete do governador na recepção e no atendimento de dirigentes africanos, que vêm à Bahia. Sempre nessa linha da diplomacia negra. São essas as questões de que trata a Comenda da Ordem Rio Branco, desse reconhecimento. O Ministro Celso Amorim quando me cumprimentou, mencionou: “Você se escondeu na Bahia, fomos lá te buscar, você é um dos nossos” (risos). Não foi um ato gracioso, político, mas, sim, um reconhecimento de minha atuação nesse quadro da diplomacia negra, de intelectual negro.

Faça uma avaliação da política exterior do governo Lula?
Nos países que visitei, Lula é aclamado pelos governantes africanos como o primeiro presidente negro do Brasil, isso dito também pelo presidente do Senegal. Ou seja, pela primeira vez a diplomacia brasileira se abre de uma maneira igual, fraterna, com os países africanos, buscando apoio sem exercer nenhum tipo de hegemonia. Os africanos são muito sensíveis a qualquer restabelecimento colonial. Nesse sentido, o Brasil não tem uma posição colonialista, e sim uma posição solidária com a África, em busca de contrapartidas econômicas e, acima de tudo, políticas. Normalmente, quando se fala em América Latina, se exclui o Caribe, e o Brasil passou a incluir o Caribe, foi isso que eu fui fazer, por exemplo, na comitiva do embaixador Celso Amorim, em Trinidad Tobago. Oferecer apoio ao país em troca do apoio para entrar no Conselho de Segurança. Estive em Curaçao, em Suriname, buscando justamente essa aproximação com o Caribe negro, inclusive estabelecendo contatos com os quilombolas de Suriname que fizeram a revolução e ganharam. Eles foram Palmares vencedores. Venceram os holandeses e estabeleceram um tratado de paz e depois tiveram que resistir à pressão da ditadura. Lá se fala “muié”, “cuié”, porque muitos descendem de pessoas escravizadas pelos senhores de engenho pernambucanos. Quando os holandeses os expulsaram, eles foram embora do Brasil e levaram tudo (escravos, propriedades) para antiga Guiana Holandesa e lá se estabeleceram em Curaçao, daí você por lá tem um bocado de gente com sobrenome de Cunha e Souza.

Eu credito essa comenda a essa minha modesta, mais efetiva participação nessa política externa negra do Brasil. A discriminação do negro foi tal, que no momento em que se estabelecem essas relações, eles não têm uma elite para mostrar, não têm diplomatas negros formados em grande quantidade. Eles estão acostumados a falar somente com europeus e com os brancos, então de repente nosso papel de intelectual negro foi cobrir essa falha e falar em nome do Brasil, enquanto negro.

Você acredita que essa Comenda aumenta a sua responsabilidade para a contrapartida desse reconhecimento?
A gente contribuiu para mais estreitamento das relações, com o entendimento de que o Estado brasileiro faz parte de uma grande mancha cultural afro-africana, afro-americana, afro-descendente. Nós fazemos parte de uma grande comunidade, comunidade que pode cultivar os laços de solidariedade do ponto de vista político e econômico. Então, muito tem sido feito. Cito o perdão de dívidas externas para países africanos, apoio à implantação de indústrias, como no Camarões, indústria de medicamentos, assistência técnica em agricultura, em Gana, a realização de eventos em conjunto com o Senegal, como está programado para esse ano o Festival Mundial de Artes Negras (FESMAN). Com o Haiti, estabelecemos uma relação entre a religião afro-brasileira e o vodu haitiano. Participei junto com o ministro Gilberto Gil, numa missão, em apoio cultural à presença militar brasileira no Haiti. Então, acho que o meu papel de intelectual é de utilizar meu conhecimento sobre a história da resistência, a história da África, do anticolonialismo, para levar uma face do Brasil de solidariedade aos povos africanos e descendentes de africanos e não uma arrogância européia ou eurocêntrica.

E qual será a próxima missão do Professor Ubiratan Castro?
Agora estou numa situação difícil, por causa de minha saúde. Não posso viajar com freqüência, tenho hoje limitações de movimentação. Então, meu papel está sendo muito mais receptivo. O que puder fazer aqui no Brasil, de apoio, de acolhida, de divulgação, estarei sempre disponível. Eventualmente, posso fazer até uma viagem ou outra, mas não posso mais sair daqui em missão, viajando pelos países africanos. Na Fundação Pedro Calmon, tenho desempenhado esse papel. Agora estamos organizando com a Embaixada Americana uma grande exposição no dia 22 de maio, sobre o presidente Barack Obama. E estamos entrando numa rede de um curso à distância a partir de Atlanta, que terá como um dos conferencistas o Martin Luther III. Posso dizer que a doença me faz um pouco mais retraído, mas não me tira do combate.

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