"Maldição te seja dada /  Bento infeliz,desvairado / No Brasil e em toda parte / Seja o teu nome odiado".

    Delfina Benigna Cunha (1751-1857)

                                                          

                                                                                                  

                                                                                                  

    

     

     O dia 20 de setembro é o marco inicial da Revolução Farroupilha (1835-1845), que eclodiu, na Província de São Pedro (RS), durante a Regência Una do Padre Diogo Antônio Feijó (1784-1843). Nesta mais longa guerra civil, que a história do Brasil registra, ocorreram 59 vitórias para cada lado e 3,4 mil óbitos. O lado farrapo perdeu quase o dobro de homens ao finalizar a guerra. Na época, o Rio Grande do Sul estava bastante prejudicado, no seu aspecto econômico, devido aos altos impostos taxados, principalmente, sobre o charque (carne seca), o couro e a propriedade rural.     

  

   Com a Independência da Província da Cisplatina (Uruguai), em 1828, o charque uruguaio começou a competir com a produção gaúcha. O produto uruguaio era resultado de mão de obra assalariada (livre), tinha menos custos empreendedores, sendo vendido a menor preço. Diante deste fato, o charque gaúcho, responsável pela alimentação da escravaria de outras regiões do país, desde o Ciclo da Mineração (ouro), ficou em desvantagem, perdendo a concorrência em relação ao produto platino. Além da grave questão econômica, que atingiu a elite estancieira da Província, havia, entre outras causas, a insatisfação quanto à política centralizadora do presidente da Província Fernandes Braga (1805 -1875).

   

              Diante do descaso do Império, em relação aos problemas sociopolíticos e econômicos que assolavam a Província de São Pedro, um grupo de maçons articulou a tomada de Porto Alegre na noite de 19 para 20 de setembro de 1835. A decisão, quanto à invasão da capital da Província, pela Ponte da Azenha, ocorreu na primeira Loja Maçônica de Porto Alegre, "Philantropia e Liberdade", fundada em 1831, na Rua do Rosário, atual Vigário José Inácio. No dia 18 de setembro de 1835, Bento Gonçalves da Silva (1788-1847) abriu a reunião que decidiu o início da Revolução Farroupilha. Estavam presentes na Loja: José Gomes Jardim (1774-1854), Onofre Pires (1799-1844), Pedro Boticário (1799-1850), Vicente da Fontoura (1807-1860), Paulino da Fontoura (?-1843), Antônio de Souza Neto (1803-1866) e Domingos José de Almeida (1797-1871).  A Loja funcionava como um Gabinete de Leitura desviando a atenção dos opositores à Maçonaria. Neste local era impresso jornal “O Continentino” (1831-1833).

   

    Quando Porto Alegre foi invadida pelos farroupilhas, em setembro de 1835, o presidente da Província, Fernandes Braga, seguiu para Rio Grande, assegurando o porto nas mãos do governo imperial. O primeiro óbito, ao eclodir a Revolução Farroupilha, no combate da Ponte da Azenha, foi do jornalista Antônio José Monteiro, o “Prosódia”, responsável pelo jornal legalista “O Mestre Barbeiro” (1835).

    

   De acordo com o jornalista e pesquisador gaúcho, Sérgio Dillenburg, “O Mestre Barbeiro” foi o menor periódico publicado na imprensa gaúcha: 11 x 16 cm. Em Porto Alegre, o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, fundado em 10 de setembro de 1974, preserva um exemplar original, entre outros títulos relevantes que circularam, nos primórdios da imprensa gaúcha, a partir do surgimento do primeiro jornal, “O Diário de Porto Alegre”, fundado em 1º de junho de 1827.

           Os jornalistas Carlos Reverbel (1912-1997) e Elmar Bones, no livro “Luiz Rossetti: o editor sem rosto”, no período de 1827 a 1850, registram  que circularam em torno de 61 jornais, na Província de São Pedro (RS), incluindo os Órgãos Oficiais da República Rio-Grandense: “O Povo” (Piratini / 1838 - 1839 e Caçapava / 1839 - 1840); “O Americano” (1842 - 1843 – Alegrete) e “Estrella do Sul” (1843 – Alegrete).  

    

     Após os farroupilhas tomarem a capital da Província, os líderes José Gomes Jardim (1774-1854), João Manuel de Lima e Silva (1805 - 1837) e Onofre Pires (1799-1844) invadiram o Palácio do Governo, não encontrando resistência. No dia seguinte, em 21 de setembro de 1835, Bento Gonçalves da Silva (1788-1847) chegou a Porto Alegre, vindo de Pedras Brancas (atual Guaíba), sendo recebido num clima de comemoração.

   

           Em 15 de junho de 1836, Porto Alegre foi retomada pelos legalistas sob o comando do Major Manuel Marques de Souza (1804- 1875), futuro Conde de Porto Alegre, após sua fuga do Presiganga (navio-prisão), ancorado no Guaíba. Apesar dos esforços, os farroupilhas não conseguiram invadi-la, novamente, embora a tenham sitiado, por três vezes, a partir da Vila Setembrina (Viamão). Graças a essa resistência, Porto Alegre recebeu de D. Pedro II, em 1841, o título de "Mui Leal e Valorosa Cidade", que está registrado no Brasão da Cidade, criado pela lei n 1.030, em 22/01/1953. A lei foi assinada pelo prefeito Ildo Meneghetti (1895-1980), sendo o responsável pelo desenho o artista plástico Francisco Bellanca (1895-1974).

      

     O maestro Joaquim Mendanha, monarquista convicto, foi obrigado pelos farroupilhas a compor o Hino Rio-Grandense, em 1838, após a Batalha de Rio Pardo. Com o Acordo de Paz de 1845, o "maestro negro" regeu à porta do antigo Palácio do Governo, em Porto Alegre, uma banda de música. O evento se constituiu numa homenagem ao Barão de Caxias, seu amigo pessoal e presidente da Província.  Caxias, ao final da Revolução Farroupilha, ganhou de dom Pedro II o título de “O Pacificador”. O nome do maestro Mendanha, natural de Ouro Preto (MG), encontra-se entre os subscritores das despesas para o banquete, na capital gaúcha, em homenagem ao Imperador dom Pedro II e à sua esposa Teresa Cristina que celebrou a paz.

   

    Na  literatura local, a "poetisa cega", Delfina Benigna Cunha (1751-1857), na segunda edição de "Poesias  oferecidas às senhoras rio-grandenses", publicada no Rio de  Janeiro, em 1838, critica os farroupilhas e o líder Bento Gonçalves da Silva (1788-1847) de forma incisiva e odiosa. Seguem alguns versos:  "Maldição te seja dada /  Bento infeliz,desvairado / No Brasil e em toda parte / Seja o teu nome odiado".

    

         O jornalista Walter Galvani, em seu livro “A difícil Convivência (2013)”, aborda com muita propriedade a situação política de Porto Alegre no contexto da Revolução Farroupilha (1835-1845). Os grandes centros urbanos à época, como Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, permaneceram na maior parte do tempo em poder dos imperiais. A ideia, perpetuada pelo imaginário popular, de que a capital da Província de São Pedro (RS) comungava com os ideais dos farroupilhas, é um equivoco histórico. Existem pesquisas realizadas por historiadores sérios e competentes, como Sérgio da Costa Franco, Moacyr Flores, Mário Maestri, Sandra Jatahy Pesavento (1945-2009), Helga Piccolo, entre outros nomes importantes, que nos esclarecem acerca da realidade dos fatos que ocorreram naquele período da nossa história.  Afinal, já se passaram 180 anos....

 

                                    Pesquisador e coordenador do setor de Imprensa do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa*

 

 

Bibliografia

 

FAGUNDES, Antonio Augusto. Revolução Farroupilha / Cronologia do Decênio Heroico (1835-1845). Porto Alegre: Martins Livreiro, 2008.

FLORES, Moacyr. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Ediplat, 2006.

LAYTANO, Dante. História da República Rio-Grandense. Porto Alegre: Sulina,1983.

LEÃO, Laura de. Risorgimento e Revolução: Luigi Rossetti e os ideais de Giuseppe Mazzini no Movimento farroupilha. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010.

 PESAVENTO, Sandra Jathahy. A Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2014.

VIANNA, Lourival. Imprensa Gaúcha (1827-1852). Porto Alegre: Museu de Comunicação Social HJC, 1977.

Exibições: 77

Comentar

Você precisa ser um membro de Correio Nagô para adicionar comentários!

Entrar em Correio Nagô

Translation:

Publicidade

Baixe o App do Correio Nagô na Apple Store.

Correio Nagô - iN4P Inc.

Rádio ONU

Sobre

© 2019   Criado por ERIC ROBERT.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço