Proibir a publicidade infantil não resolve o problema étnico

Luciane Reis

Em um pais como o Brasil, a imagem e valores transmitidos pela mídia ainda nos dias de hoje, constrói no imaginário social a ideia de que somente “ crianças de pele clara” têm direito a qualidade de vida e crescer com saúde e infância.  Se tivermos como base de sociedade o que é apresentado pelos meios informativos brasileiros, percebemos a manutenção da ideologia de superioridade e garantia de direitos seletivos, através do fortalecimento da intolerância ao diferente exibida na programação de diferentes veículos de comunicação em nosso pais.

O processo de fortalecimento de valores, se dá via desumanização e invisibilidade de pessoas em construção de sua identidade e cidadania, como as crianças com outras características não considerada padrão pela publicidade infantil. É comprovado que o racismo causa efeitos na vida de qualquer criança ou adolescente. Estudos na área de educação infantil, revela que é na pequena infância que as crianças notam as diferenças na aparência das pessoas (cor de pele, por exemplo). Falamos então de uma publicidade seletiva, que traz quando a vítima é uma criança ou adolescente em processo de formação da própria identidade, consequências que estão para além da relação de consumo.

De acordo o Instituto AMMA Psique e Negritude, é entre os 8 meses e 3 anos de idade, que o ser humano começa a notar as diferenças físicas entre ela e os outros. Nesse período, é fundamental que ele se sinta aceita, acolhida e valorizada em suas diferenças, e nesse sentido a publicidade infantil no Brasil é um problema, pois além de não atuar na valorização destas diferenças, usam como argumento de exclusão a noção de “ público alvo, consolidando ainda mais uma única imagem de forma positiva.  O modelo de reprodução de preconceitos usado pela publicidade infantil, fortalece padrões representativos de um único modelo de criança brasileira, tendo como referenciais essas serem de classe média e alta.

 

A construção equivocada da publicidade em nosso pais, revela a forma descompassada de ocultação da diversidade étnica, econômica e sócio cultural quando se trata de certos serviços ou produto ou a apropriação seletiva desta diversidade que padroniza o pensamento social brasileiro. Proibir a publicidade infantil, não vai construir seres humanos mais responsáveis ou melhores, isso é um fato. Se fosse esse o grande problema, parcela da população ausente na mesma estaria em uma total barbárie ou sem condição de viver. O que a publicidade voltada para o segmento infantil precisa, é incorporar outros fatores e as novas formas de convivência social que vai desde de uma melhor qualidade de vida, ressignificação da família, reeducação alimentar e construção de um discurso plural.  

Isso passa em especial pelo abandono de práticas que até então só serve para a desconstrução da convivência coletiva. A exemplo do entendimento que definir o público-alvo em uma determinada campanha, é algo ainda aceitável nos dias de hoje. Estamos falando de uma prática que segundo o Ibope Media, é algo ultrapassado se pensado nos moldes tradicionais como fator de sucesso de uma ação. A mudança de comportamento da sociedade nas últimas décadas, vem sinalizando para a necessidade de se pensar o significado da publicidade como todo e infantil na vida das pessoas, nesse sentido isso não se resolve somente com a proibição. Antes de um ato deste porte, é preciso desconstruir o dano histórico que a mesma produziu no conjunto da sociedade e em especial na criança negra e de crianças que não correspondem ao seu imaginário excludente.

Estamos falando de um processo que a anos vem preterindo determinadas representações étnicas, ou seja, 31 milhões de crianças negras e 150 mil crianças indígenas segundo o IBGE/PNAD, 2009, isso sem falar na juventude destes setores.  Falar da publicidade infantil, está para além da relação de consumo.  Está na desconstrução da ideia de mensagem específica, desenhada e transmitida com o objetivo de impactar consumidores de maior poder aquisitivo. Há um dano a ser reparado junto as camadas mais populares que sempre ficou a margem e considerada sem poder de consumo. Chega a ser preservação de Status quo, segmentos da sociedade achar que após anos se beneficiando, os excluídos arcar conjuntamente com os danos que essa traz a quem sempre se beneficiou de forma financeira ou no fortalecimento de sua autoestima. Diversos fatores trazidos como argumentos para a derrubada da publicidade infantil, não é problema para os segmentos descritos nesse texto.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mostrou que, no Brasil, vivem ao todo, 54,5% de crianças negras ou indígenas. Mesmo sendo a maioria da população nessa faixa etária, não as encontramos no cotidiano das representações comerciais midiáticas. Compreendendo as dores desta invisibilidade,  um programa de internet chamado “ Tá bom pra você” (http://www.youtube.com/watch?v=BTPNO64X308), retrata situações cotidianas de invisibilidade em produtos consumidos por qualquer ser humano e que se visto na TV Brasileira parece ser feito para um único “ Público alvo”. Então o que faz com que crianças e adolescentes negros e indígenas não sejam protagonista destas situações? Estamos falando de uma publicidade que não aproveita esses nem quando seu anúncio mostra somente parte do corpo a exemplo da mão.

Os efeitos desta constante são o sentimento de desvalorização, rejeição da própria imagem, inibição e dificuldade de confiar em si mesma.  Entendo que a proibição da publicidade infantil não é a solução para a reformulação de um repertório que atua, fortalecendo a ideia de que se você não for magra e branca, não são atrativas, por somente agora ela começar de forma tímida a absorver segmentos que ela sempre excluiu e maltratou. Logo reforço que a sua proibição, não pode ser pensada e analisada somente sob a ótica do seu poder de compra ou saúde física.

É preciso levar em conta todas as outras questões de reconhecimento do que é essa infância e como seus valores e ideologias são colocadas como construção da proteção e garantia da dignidade infantil.  Dignidade essa está para além do adquirido, e sim por quais mensagens estão sendo transmitida para futuros adolescente e consequentemente adultos.

 

Publicitária, Ceo do MercAfro agência digital e Étnica ( https://www.facebook.com/MercAfro/?ref=hl )

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