Qual a cor da comunicação no Brasil?

 

Entre os dias 17 e 22 de outubro entidades e ativistas da sociedade civil brasileira realizam atividades que integram a Semana da Democratização da Comunicação (Democom). Temos a difícil missão de reverter agenda dos veículos tradicionais que tentam nos dar a pecha de autoritários, e explicar que defendemos a liberdade de expressão na sua inteireza e beleza. Explicar que o maior obstáculo para essas reformas são aqueles que controlam a informação por interesses políticos, religiosos, comerciais e até transnacionais; não só nas rádios, TV´s, jornais impressos, mas também na nova vastidão da internet, redes sociais, e nas mesclas entre essas mídias devido a convergência tecnológica. Explicar o quão o não reconhecimento da comunicação enquanto direito inviabiliza a democracia no país.

 

A medida que a pauta é destrinchada vamos nos deparando com a dificuldade de explicar e mobilizar os que mais urgem participar efetivamente deste ambiente de sociabilidade, economia e conhecimento. Quem são os indivíduos renegados aos direitos civis, políticos e sócio-culturais e que, provavelmente, somente uma mudança civilizatória poderá os integrar neste momento histórico no qual as tecnologias da informação e comunicação são pilares do poder?

 

No Brasil, não teremos dúvidas em responder que a população negra predomina nestas estatísticas. O pior é que esta resposta é inspirada numa ilação. Não temos dados objetivos de como os negros e negras se comportam no mundo midiático. Quantos de nós têm autorização para explorar concessões de rádio e TV no país? Quantos de nós são profissionais nas redações, nos set´s de cinema e no desenvolvimentos de novas tecnologias? Como nos apropriamos das redes sociais, games e softwares? Quantos de nós têm computador e internet em alta velocidade? Como temos participado dos meios públicos, comunitários ou estatais? Nossa produção audiovisual é referendada com fomento e tem espaço para distribuição?

 

Esta falta de informação sobre nossa realidade “digital” é lacuna que evita termos nosso lugar de fala consolidado até nos espaços que concentraram as mobilizações da sociedade civil, a exemplo da Semana de Democom, I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), fortalecimento do Sistema Público de Radiodifusão, a luta pela instalação dos Conselhos de Comunicação, a campanha Banda Larga é um Direito Seu!, e a recente consulta pública do novo Marco Regulatório das Comunicações.

 

A dificuldade para reverter este panorama não é das menores. Passa por enfrentamento e conscientização também dentro de setores progressistas, nos quais fazemos parte muitas vezes, seja por integrar organizações, universidades, sindicatos, movimentos sociais ou mesmo pequenos empresários do setor. Eis que o Correio Nagô dedicará os próximos dias para essa missão, e com certeza, teremos resultados proveitosos em curto e longo prazo.

 

Pedro Caribé - jornalista, integra o Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social e o Centro de Comunicação, Democracia de Cidadania da Facom/UFBA.

 

Outros textos do autor sobre o tema:

 

Radiodifusão para o povo negro: http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_conten...

13 de maio e o mito da liberdade de expressão: http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_conten...

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Comentário de antonio carlos santos da silva em 11 novembro 2011 às 15:30
Este conteúdo mostra a real necessidade de expansão da tematica sobre o negro nesta sociedade consumista em todos os campos. Como educador, procuro difundí-lo numa forma de mostrar a importância de politicas públicas não como pagamento de uma dívida e sim a reparação de um erro provocado pela sociedade escravista ainda vigente em nosso meio. Amplie esta discussão para a educação básica, pois os resquícios de escravidão podem ser ainda debelados partindo-se da formação inicial com vistas a formar uma infância/adolescência mais consciente des seus direitos e participação nas transformações sociais. Ainda me inquieta esta forma "passiva" a qual nós convivemos. Até quando?
Comentário de Instituto Mídia Étnica em 20 outubro 2011 às 22:14

Nesta sexta-feira, 21, aniversário de 06 anos do Instituto Mídia Étnica, tem análise de Paulo Rogério Nunes e um chat, às 19h, sobre os desafios para a Democratização da Comunicação. Leia, pense, participe!!!!

 

Comentário de Juliana Dias em 19 outubro 2011 às 11:49

Pedro, importante reflexão que você traz à tona, principalmente, quando pontua a falta de dados e estatísticas que revelem a participação dos negros e negras dentro do mundo midiático. Apesar de não termos dados contábeis com relação a isto, certamente, sabemos em que níveis se dá essa participação: de forma invisibilizada ou visibilizada estereotipadamente. Além de uma reflexão, você, também, nos incita a por em prática essa indignação, com a reunião e produção de desses dados, para que possamos publicizar ainda mais a desigualdade, exclusão e preconceito às quais o negro(a) está renegado dentro da comunicação e, possivelmente, revertermos este cenário.

Comentário de Vanice da Mata em 18 outubro 2011 às 21:44
Pedro é massa mesmo, Patrícia. (abalando, hein pessoa??? rssssss)
Comentário de Patrícia Bernardes em 18 outubro 2011 às 17:41

Esse moço Pedro tem um oráculo de inquietações que se transforma em "TEXTOS BÁLSAMOS"...rsrs.

Eu CREIO nisso...Que delícia de leitura!

Axé moço!

Comentário de Paulo Rogério em 18 outubro 2011 às 15:15

Confiram o que está acontecendo no Brasil essa semana

 

http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_conten...

Comentário de paulo alves em 18 outubro 2011 às 13:26
Fantástico Pedro, esperamos que na Conferrencia Territorial de Políticas Públicas para Mulheres que acontecerá no périodo de 18/10 a 19/10 em Ilhéus possamos levantar estes questinamentos, pois no interior, especificamente na cidade de Buerarema onde moro nossa internet "é movida a lenha", pense o tempo que gastamos para conseguir visualizar um video. Mas sabemos que a coisa esta mudando e logo conquistaremos o que almejamos. abraços a todos! 
Comentário de Pedro Caribé em 18 outubro 2011 às 12:38

Lugana, o debate da banda larga enquanto direito ganhou boas proporções neste ano. Particularmente participei de um TVE Debate inclusive sobre o tema. Porém não posso negar incomodo que a linha universalista, resquício de iluminismo, ainda impera no tema. Por não ser um monopólio natural, como correios, água e energia elétrica, a possibilidade de universalizar a banda larga no Brasil é quase zero. Ainda mais quando grande parcela não tem poder de consumo algum para priorizar isso. Enfim, sob determinado ótica a universalização se trata de falsa questão. A política das ações afirmativas quebram essa lógica iluminista e creio que devemos repassa-lá para a comunicação urgente. Não acho producente adotar a evolução histórica: primeiro se discute universalizar, depois...    

abraços

Comentário de Pedro Caribé em 18 outubro 2011 às 12:12

Luciane,  acho bem pertinente o olhar feminino, porém, nesse momento, o questionamento é direcionado a questão étnico-racial. O II Encontro Baiano da Articulação Mulher e Mídia é uma bela demonstração que o debate feminista tem avançado e conquistado espaços no movimento de comunicação. Precisamos da força das mulheres negras para equalizar, ao menos, esses dois debates. Não acho que um é para além do outro, mas sim co-irmãos, precisam andar juntos e ao mesmo tempo separados, devido as particularidades que os cercam.

Grande abraço

pedro caribé

 

Comentário de Instituto Mídia Étnica em 18 outubro 2011 às 7:12
Pertinente comentário, Luciane Reis. Aproveitamos e informamos a realização do II Encontro Baiano Mulheres e Mídia, dia 19 de outubro, das 8h30 às 13h, na Faculdade de Comunicação da Ufba, Ondina. Informações: http://www.mulheremidiabahia.blogspot.com/

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