Quem repara, violenta: mulheres negras são oprimidas pelo machismo no Ilê Aiyê

     

            A ordem arriscada do discurso de Foucault me obriga a começar este desabafo dizendo quem eu sou e qual é o meu lugar de fala. Sou Dayse Sacramento, mulher negra, solteira, heterossexual, graduada em Letras pela Universidade Católica do Salvador, na qual fui militante do movimento estudantil, vice-diretora da rede pública estadual de uma escola em Paripe há dois anos, agora saindo do cargo para estudar, Especialista em Educação e mestranda no programa de Crítica Cultural da Universidade do Estado da Bahia, tendo como sujeitos da pesquisa meninas negras da FUNDAC, filha de Dona Angélica e neta de Dona Mariá da Liberdade. As informações que acabo de citar representam as minhas identidades que estiveram/estão em conflito depois da minha iniciação no bloco Ilê Aiyê, na terça-feira de Carnaval.

 

            Certamente, o currículo da minha vida revela o que representa para mim acompanhar do lado de fora da corda o “mais belo dos belos” ou estar presente na Senzala do Barro Preto para prestigiar as atividades de tão importante instituição de resistência negra no mundo inteiro. Ainda assim, para mim, acompanhar o bloco de fora, mesmo com as resistências que tenho com relação aos blocos de corda eu queria estar lá dentro, vivenciado as canções de um bloco que reverenciam a mulher negra, enaltecem a sua beleza tão diversa, composta por elementos que são fruto do preconceito racial e, principalmente, pela representação política do que estar dentro da corda representa. Ledo engano...

 

            Depois de acompanhar o bloco como pipoca sábado e segunda, na terça, resolvi comprar a minha fantasia para realizar uma vontade que já me acompanha a alguns anos e para acrescentar no meu discurso sobre o bloco o que é estar lá dentro, vivenciado de fato uma experiência de ser incluído (e estar dentro!) do contexto de um bloco afro de Carnaval. Entretanto, fui surpreendida por dois homens no início do percurso, os quais não havia tido o imenso desprazer de encontrar ou conhecer antes como a seguinte exclamação: “Pessoas como você sujam e envergonham o bloco Ilê Aiyê!”. Assustada, perguntei a eles se aquilo fazia parte de alguma brincadeira e o mais enfático, leia-se grosseiro, tosco e mal educado, respondeu: “Ano que vem, a gente vai botar gente como você para fora, sua indecente. Você deveria respeitar o bloco!”. Já aos prantos, me dei conta de que eles se referiam à minha fantasia reformada, apenas a blusa como um tomara-que-caia, com a barriga coberta e a saia continuava intacta, não reformei. Felizmente, eles mexeram com a pessoa certa! Pedi aos gritos, mesmo tom de voz que eles utilizaram comigo, que eles me respeitassem, que não sabiam da minha história e quem eu era e que se gostariam de me recomendar cuidado com o meu traje que isto se desse de forma educada e que fosse feito com todas as outras associadas que haviam feito reformas em suas roupas com o uso de tops, vestidos, minissaias, mistura de tecidos, etc, muitas registradas em fotografias que tirei durante o desfile. Quando eles perceberam que eu os peitei e respondi, um deles, cujo o nome é Fernando Ferreira Andrade Filho, dirigente do bloco, me segurou pelo braço e me encostou no trio em movimento e continuou a me insultar. Quando as minhas amigas viram, partiram para cima dos dois, e agora um outro, também dirigente que não consegui identificar, já segurava o meu braço dizendo: “Olha pra isso, o que é isso!”, apontando para mim, me tratando de forma “coisificada”, com desdém e mesmo com o meu apelo para que soltasse meu braço ele continuou a me humilhar e a me acuar contra o carro. Neste mesmo momento, um dos filhos do presidente do bloco, que sequer acompanhou a ocorrência largou a seguinte pérola: “Na Timbalada, ninguém faz isso!” e eu respondi: “De fato, na Timbalada, ninguém nunca me pegou pelo braço e me acuou contra um carro em movimento, nunca fui violentada lá dentro.”. Ainda não satisfeito, Fernando Ferreira, a saber médico que trabalha no HGE, me disse: “Você comprou sua fantasia nada! Sabe lá como você chegou até aqui!”. Muitos associados e associadas, ao perceberem a confusão afastaram os homens, e se solidarizaram com a situação, tentando me acalmar. Neste momento, muitas mulheres com as fantasias reformadas vieram até mim e disseram que já existe um histórico de agressões feitas por estes senhores, ou seja, já existe um histórico de agressões às mulheres associadas, cordeiras e funcionárias.

 

            No meu caso, quero deixar claro que “o bicho vai pegar”, que não vou recuar e que já comecei a tomar as devidas providências. Com os ânimos a flor da pele, eu e minha amigas resolvemos sair do bloco para fazer alguma coisa. A esta altura, eu já estava morta de vergonha pelos olhares de todas as pessoas de dentro e de fora do bloco para mim depois de vivenciar uma situação tão constrangedora. Preciso ressaltar que uma patrulha de policiais militares nos pararam a caminho da delegacia e ao relatar o fato eles me perguntaram se eu tinha testemunha e se eu queria dar o flagrante. Estes foram os 10 segundos mais longos da minha vida. Eu, militante da causa, admiradora do bloco e das representações que ele sempre teve para mim iria entrar no bloco, acompanhada pela instituição que historicamente reprime/ maltrata/ mata as pessoas da minha cor para retirar de lá dois dirigentes do bloco por agressão física e verbal? Logo me veio também aquilo que só uma mulher que sofreu violência sabe pelo que passei: o medo de represálias. Eu não aceitei a proposta do flagrante e não quero avaliar se ela foi ou não acertada, mas do que estou certa é que fora moralismo e o meu saudosismo político esta situação precisa de amparo, de justiça. Resolvi prestar uma queixa no Observatório do Racismo por conta da natureza do bloco e num posto conjugado da Polícia Militar em São Bento, com algumas pessoas como testemunha. Amanhã, estarei na Delegacia de Atendimento às Mulheres para complementar a ocorrência, vou ao PROCON e a procura de uma advogada ou advogado que sejam militantes da causa racial.

            Deparei-me com Vovô do Ilê, então presidente do bloco e tentei reconstituir o meu desespero. Ele então me fez a seguinte pergunta: “Você mostrou a ele a sua carteira?” e me deu as costas e saiu andando, como se eu não existisse. O bloco que incita o empoderamento das mulheres negras nas suas canções precisa concretizar este fato em ações. A instituição deve fazer uma avaliação sobre a sua estrutura e sobre as pessoas que a dirigem, principalmente em respeito à maior liderança que já teve, a Mãe Hilda. É urgente que o Ilê repense o direito e o respeito às candaces quando na sua diretoria a quantidade de mulheres não chega a quantidade dos dedos de uma mão.

 

            O que ficou exposto na conduta dos dirigentes em questão é que além da violência gratuita, a incapacidade de diálogo deu-se por uma questão mercadológica. Certamente, há pessoas que fazem duas fantasias de uma só, mas, no meu caso, estava claro que pelo comprimento da roupa era impossível que eu tivesse dividido a fantasia com outra pessoa. Mesmo que eles suspeitassem desta possibilidade não é com a opressão/ violência física e verbal que isto se resolveria, principalmente se pensarmos nesses homens como agenciadores culturais. Para mim, isto também se agrava quando penso na concepção de beleza negra que o bloco defende e que não permite adaptar a fantasia ao meu corpo, às condições climáticas me desqualificam ao ponto de “sujar” e “envergonhar” o bloco. Não entendo esta visão levando em consideração a uniformização proposta pela moda que sempre nos excluiu. Obviamente, entendo a preocupação do bloco com as formas de adaptação da fantasia, mas nada justifica tal violência que me impuseram e que estará cravada na minha memória por muito tempo.

 

            Escrevo este texto para conclamar um coletivo de mulheres negras, principalmente, além das pessoas as quais confio à militância para que tomemos providências. As ações das políticas afirmativas e das instituições que fazem uso deste discurso devem ir de encontro à consolidação de uma cultura sexista, classista, homofóbica. Estamos tratando da criação, da manutenção e do respeito aos direitos humanos, que violados numa instituição como Ilê Aiyê, exige de cada militante sério uma postura de enfrentamento a toda e qualquer violência. Sou uma pessoa de participação política tornando-me negra. Ser negra é um compromisso. A negritude da minha pele é uma cor política e procuro agir desta forma.

           

            Mais uma vez, é chegada a hora da “lavagem de roupa suja” da militância negra na Bahia para questionar a postura do homem negro que oprime as suas mulheres com um contradiscurso daquilo que dizem acreditar, militar. O homem negro precisa tratar melhor as mães dos seus filhos, as suas companheiras, àquelas que o carregaram no ventre.

           

            Um amigo acaba de me dizer o velho ditado que “pimenta no dos outros é refresco”. Ele me disse isso e me lembrou que eu também sou uma “menina” negra como as meninas da FUNDAC, com a diferença de que eu tenho o aparato acadêmico, cultural, intelectual e da rede de relações que elas não têm. Agora eu sei bem o que vou pesquisar, estou sentindo literalmente na carne.

            Espero que fique entendido que o meu respeito pelo Ilê permanece e a minha presença esta garantida para qualquer debate sobre a questão de forma séria e respeitosa. O Ilê Aiyê é muito maior do que todos os seus dirigentes. Cada uma de nós, mulheres negras e homens negros formamos este bloco e a sua história. Nós lutamos para que ele estivesse na rua quando nós negros tínhamos que preencher uma proposta para se tornar associado de blocos brancos, inclusive aquele que tinha um camarote na curva da Castro Alves. As suas ações devem estar voltadas para nós, não contra nós. Estou botando a boca no trombone porque concordo com o que nos disse Luther King que "o que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.". Eu sou boa gente, por isso não vou deixar de falar e eu falo alto.

 

Saudações,

 

Dayse Sacramento

dayse.sacramento@gmail.com

 

PS: Este texto é um desabafo para quem entende o que é ser negro, esta discussão é nossa. Fora estas pessoas, dispenso comentários despolitizados e sem fundamentos.

 

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Comentário de marcus maia em 2 março 2012 às 22:07

Sra professora Dayse,fico muito em ver suas lagrimas que tb em algum momento ja foram minhas tb quando no meu 1 ano de associado em 2002,vi um pseudodiretor  destratar uma senhora na entrega das fantasias a sede ainda nao estava pronta,já tinha lido vários livros de grandes lideres negros,nesta época era aluno da stivebiko e fiquei muito arrependido em ter visto esta situação,que nos dias de carnaval se sucederam pela mesma forma agora gostaria de perguntar a eles senhores dono da situação momesca negra porque fazem outro discurso na mídia informando que as vendas não estão boas ,que o dinheiro do negro deve circular com o povo negro e esse discurso de falso moralista será que é PELE NEGRA,MASCARA BRANCA, o seu direito deve ser respeitado a nossa constituição nos protege estou com vc e com todos que foram desreipeitados,que xangô te proteja axe     

Comentário de Zayda Moraes em 2 março 2012 às 16:46

Dayse, fico triste de ler seu depoimento e te digo, sou maranhense e negra, faço cultura popular em meu estado e o machismo é diário, se não tão direto, velado, de uma forma ou outra tentam nos excluir.Porém faço coro com você temos que denunciar e lutar.Forte abraço.Axé!!

Zayda Moraes

Comentário de Terezinha Oliveira em 1 março 2012 às 11:01

Há muito que observo o lugar destinado às mulheres negras no Ilê. Vejo-as como chamarizes, objetos, adornos, utilizados nesse mercado/corpo  para legitimar a hipocrisia de um discurso que há muito perdeu-se na causa pelo empoderamento do povo negro.Lamentável.

Comentário de Luciane Reis em 28 fevereiro 2012 às 20:24

Em 2009 a pesquisadora Carla Akotirene postou o seguinte artigo falando sobre este tema.

http://juventudenegrakalunga.blogspot.com/2009/02/reflexao-sobre-o-...

Comentário de LEA GOMES em 28 fevereiro 2012 às 17:16

Falsos moralistas, cínicos! A questão em pauta não é a visibilidade que o bloco teve na mídia ou coisas parecidas, é sempre assim, tentam mudar o foco da questão, fugir pela tangente. Eu sou associada deste bloco há mais de 20 anos e posso dizer que já foi maravilhoso desfilar nele, antes da vaidade subir à cabeça de seus dirigentes. Nos últimos dez anos em que desfilei, muitas foram as vezes em que presenciei desrespeito imposto por seus dirigente negros aos seus associados negros. São na sua maioria egoístas, arrogantes, presunçosos e exploradores. Sim, exploradores, ao se constatar o quanto exploram seus músicos, compositores, funcionários por míseros reais. O nome faz jús à situação: “Senzala do barro preto”. POIS É LÁ NA  SENZALA DO BARRO PRETO, QUE CAPITÃO DO MATO É CODIFICADO: DIRIGENTE.

Comentário de Eu em 24 fevereiro 2012 às 2:36

É com muita tristeza que leio esse artigo, vejo que a hipócrisia já faz parte mesmo da cultura do país. Dizer uma coisa e fazer outra, já faz parte do (modus operantis), como a lei de levar vantagem em tudo e outras. Sinto muito por vc companheira apesar de confessar que essa sua experiência me tirou um peso. Sou africana descendente consciente e  sempre me senti culpada por não ter saído nesse bloco. Mas hoje vejo que não é tão importante assim pois como o país, o bloco não tem legítimidade. :(

Comentário de André Luís Santana em 23 fevereiro 2012 às 20:23

 Triste repetição! Há um ano, logo após o carnaval, o Correio Nagô publicou texto de Carla Akotirene Santossobre o tratamento dado pelos diretores do Ilê Aiyê - Oficial às mulheres no bloco. http://correionago.ning.com/profiles/blogs/e-coisa-de-negro-coisa-de

Comentário de Aline Andrade da Cruz em 23 fevereiro 2012 às 17:20

É DIFICIL DE ACEITAR, MAIS NESSES PAIS ONDE TUDO COMEÇOU NA EXPLORAÇÃO INDEPENDENTE DA COR DA PELE, HOJE NAO SERIA DIFERENTE. É DURO DIZER, MAIS TANTO FAZ YLÊ OU CHICLETE VOCE SÓ FARÁ PARTE DO BLOCO SE TIVER DINHEIRO P/ COMPRAR A FANTASIA. INFELIZMENTE NÓS NEGROS TEMOS QUE ANDAR COM UM CRACHÁ NO PESCONSSO INFORMANDO QUE TIVEMOS CONDIÇOES DE PAGAR POR AQUELE LUXO.

O PROBLEMA MAIOR NAO FOI O TAMANHO DA ROUPA E SIM A PREOCUPAÇÃO SE AQUELE FOLIAO TINHA PAGO REALMENTE PELA FANTASIA, OU ERA UM DURO, QUE ENTROU COM RETALHOS!

 

Comentário de EDMILSON LIMA DOS SANTOS em 23 fevereiro 2012 às 15:53

AGORA QUERO SÓ VER A ATITUDE DO MAIS BELOS DOS BELOS REFERENTE A ESSA FALTA DE RESPEITO. A MASCÁRA CAIU! NÃO É SO A COR QUE NOS SEPARA, MAS SIM O PODER HEGEMÔNICO DE QUEM DETÉM O PODER FINANCEIRO EM OUTRAS PALAVRAS "O DINHEIRO"

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