por Gustavo Marinho, correspondente do Correio Nagô em Alagoas

 Fotos: Viviane Rodrigues

De uma comunidade quilombola na cidade de União dos Palmares (73 km de Maceió), às praças da capital alagoana, o espetáculo “Um reino chamado Muquém” dá visibilidade à história alagoana com arte e cultura.

O espetáculo de dança afro, inspirado na história da comunidade quilombola de Muquém e, em especial, das mulheres negras que lutaram pelo seu povo, fará três apresentações em Maceió. Longe dos palcos dos teatros, o espetáculo, aprovado pelo prêmio BNB Cultural 2011, acontecerá nas praças de diferentes bairros da cidade. “O espetáculo foi concebido para ser apresentado em espaços abertos e periféricos, com isso há uma democratização do acesso à cultura. Precisamos dar visibilidade à história do povo negro alagoano para que as pessoas se orgulhem de onde vieram e cresçam nelas o senso de pertence”, ressalta Viviane Rodrigues, relações públicas do projeto.

Criado pelo bailarino e coreógrafo Jadiel Ferreira, fruto de pesquisas da história do Quilombo dos Palmares, tanto documental quanto resgate histórico através de conversa com os moradores mais antigos do quilombo, a apresentação pretende unir o passado com o presente da comunidade na realidade e na ficção.

“O espetáculo será uma gota no oceano, buscando contribuir para a disseminação da nossa história afro-alagoana”, diz Viviane Rodrigues reforçando a necessidade de disseminação da cultura afro dentro do estado, como instrumento para a afirmação da população negra em Alagoas.

Agenda

15 e 16/08 às 17h na Praça Sinimbú, Centro, Maceió.

29/08 às 17h na Praça Lucena Maranhão, Bebedouro, Maceió.

05/09 às 17h na Praça Mirante Novo, Jacintinho, Maceió.

08/09 às 10h Oficina de Dança Afro e às 17h Apresentação do espetáculo na Comunidade Quilombola Muquém, União dos Palmares.

Conheça um pouco da história do espetáculo
Texto de Jadiel Ferreira

Dandara teve quatro filhas: Ketula, Aquatune, Zinga  e  Candace, constituindo assim um legado de princesas, uma corte real. Várias gerações se passaram e as mulheres de Muquém ficaram conhecidas por sua beleza e bravura, além de se destacarem na arte da fabricação de esculturas em barro. O grande momento dessa história se dá quando as mulheres desse Mocambo se reúnem para celebração do ritual da fertilidade dedicado a Oxum, construíram um pequeno lago no centro da tribo para suas oferendas. Ao cavarem e despejarem água, eis que surge do fundo da terra, assim como um ventre fecundado, um parto, uma moringa e potes revestidos de couro de animal. A notícia logo se espalhou, um milagre teria acontecido. Era um presente de seus ancestrais.

Dona Candace, curandeiro e uma das moradoras mais antigas de Muquém, respeitada por todos. Quando perguntada sobre o que fazer, ordenou que todos se reunissem, acendesse a fogueira, tocassem os tambores sagrados e cantassem paraExu, Ogum, Iansã e Xangô. Com a sabedoria de seus cabelos brancos pediu que quebrassem os potes. Cientes que teriam ali ouro e diamantes, o povo fica desapontado com as lanças, roupas e colares empoeirados pelo tempo, mas o que eles não poderiam imaginar é que teriam sido da rainha de Palmares. Então dona Candace eleva seu rosto para o céu cantando para Oxalá, pois um novo tempo estava por vir.

Em suas mãos, segura uma moringa com o formato de um rosto, grifada com búzios o nome Rainha Dandara. Serena, retira o texto de dentro da moringa. Nele consta o orikí (poema) contando a origem da rainha Dandara e os nomes que pretendia dar a seus futuros filhos: Ketula, Aquatune, Isis, Zinga e Candace. Dandara se refugia em Muquém, onde viveu por muito tempo no anonimato com nome de Nzinga, levando consigo sua única riqueza e o desfecho de toda essa história: o orikí de sua família, suas armas de guerra e vestimentas foram  enterradas por ela em potes de barro e em uma moringa antropofágicas no centro do povoado como se fossem oferendas no local, pois era costume no mês de junho a construção de uma enorme fogueira para as festas religiosas a Xangô, orixá que guiava e protegia esse povoado. Com a invasão e destruição do Quilombo dos Palmares e extermínio sangrento feito com seus guerreiros, amigos e familiares...

“...Vim de Luanda meu pai é rei Eu sou princesa negra minha Palavra é lei. Vim de Luanda, meu pai é rei, eu sou princesa negra minha palavra é lei. Bate tambor bate atabaque, repica agogô na imensidão... Hoje o decreto diz seja livre e feliz minha palavra é lei...”

E assim todo desfecho desta história: Dona Candace pertencia a quarta geração, ou seja, tataraneta de Candace, primeira filha da rainha Dandara. Tamanha felicidade do povo de Muquém por terem encontrado sua identidade no lugar que vivia. Dona Candace foi nomeada rainha de Muquém. Agradecida por tamanha coroação passa seu posto de rainha para sua neta mais nova Dandara, que recebeu esse nome em homenagem a lendária rainha do Quilombo dos Palmares. A jovem capoeirista guiada por Iansã ordena que fosse feita uma grande festa ao rei xangô. É nesse enredo lúdico, cheio de lendas, crenças e mistérios que a montagem se inspira e concebe um  espetáculo cuja proposta é despertar no público o interesse em se questionar: O que de fato seria ficção ou realidade? Quem somos nós? De onde viemos? Quem são nossos antepassados? A que lugar eu pertenço? Porque Muquém existe. E seu povo ainda vive. 

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Comentário de Isabel Soares em 26 novembro 2015 às 12:38

Acho de grande importância uma vez  que  citação sobre  as mulheres  nos quilombos  são de pequenas expressão .

Comentário de Gel Santos em 15 agosto 2012 às 16:28

Esse espetáculo aqui nas praças e escolas publicas de  Salvador, teria um impacto cultural muito bom uma vez que o espetáculo contar a história das mulheres negras em uns dos maiores quilombos da história do Brasil, Palmares. Ao mesmo tempo que  resgatar o passado e faz refletir sobre o presente e os  acontecimentos sobre o cotidiano do povo negro em nosso País.

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