Na retórica dos que não admitem que existe discriminação étnica no Brasil, surgem afirmações e questionamentos que visam tão somente desqualificar a temática, minar o debate e manter o status quo que só interessa a quem tem vantagens com isso. Ouso aqui contra-argumentar alguns destes questionamentos visando lançar um olhar diferente sobre a questão de modo que, parafraseando Chimamanda Adichie, não incorramos no perigo da história única.

1. Pergunta: Na África, ainda hoje, diferentes povos negros lutam entre si. Na época do tráfico negreiro, os traficantes iam até a África e compravam escravos que eram capturados por outros negros. Os capitães-do-mato eram negros que caçavam seus pares em troca de dinheiro e benefícios. Por que então os negros se queixam tanto do racismo que sofreram e sofrem dos brancos se não são tão unidos entre si?
Resposta: Os negros não são tão unidos na mesma medida em que os homens, em geral, não são tão unidos também. A ambição, o ciúme, a vaidade, futebol, religião, política, poder e diversos outros fatores fazem com que homens se desentendam, traiam, e até matem seus pares, independente de cor, sexo, parentesco. Assim Jesus foi traído; assim os nazistas brancos exterminaram judeus igualmente brancos. Quando um bebê recém-nascido é encontrado abandonado numa lata de lixo, nós não pensamos que a sociedade deve deixá-lo morrer à míngua porque a própria mãe o abandou. Não cabe, portanto, aplicar o raciocínio de que se alguns negros também foram ou são racistas, eles que se virem. A queixa contra o racismo e a exigência de ações de reparação se assentam na análise do processo histórico que lhe deu causa. Os negros foram capturados na África à revelia da sua vontade, famílias foram desagregadas propositadamente para dificultar a resistência e a fuga, mulheres foram abusadas sexualmente, a mão-de-obra foi explorada, o ser humano foi tratado como coisa e não como gente. Feito isso, o Brasil, que foi o último país a abolir a escravidão, libertou os negros, muito mais por razões político-econômicas do que sociais, negando-lhes educação e condições dignas de sobrevivência, abandonando-os à própria sorte. Quando se desejou mão-de-obra remunerada, logo após a abolição, o Estado preferiu incentivar a vinda de imigrantes da Europa e do Japão, para não permitir que os negros tivessem ascensão por meio de emprego e renda. Não é por outro motivo que as estatísticas inquestionáveis demonstram que os negros são a grande maioria dos que estão em condições de desigualdade social até hoje. As favelas e os cárceres têm mais negros que não negros, ao contrário das universidades e das instâncias de poder.


2. Pergunta: Diz-se hoje que é politicamente incorreto chamar alguém de preto, o certo é afro-descendente. Isso não é frescura dos afro-descendentes? E porque um negro se ofende quando chamado de “neguinho” (ex.: Caso Grafite) se ele é negro mesmo?
Resposta: O que se combate é o uso das palavras de maneira que encerrem conotação pejorativa. A palavra “nigrinha”, que é usada como ofensa a uma mulher, deriva de “negrinha” e não deve mais ser usada porque negrinha não é sinônimos de indigna, vagabunda, etc. O recurso de substituição de palavras que adquiriram sentido negativo não é invenção dos negros nem é “frescura” e tem base na mesma lógica que faz com que hoje se prefira os seguintes termos: portador de deficiência intelectual e não mais deficiente nem débil mental; portador de Hanseníase e não leproso; soropositivo e não aidético; deficiente visual e não ceguinho; portador de síndrome de Down e não mongol/mongolóide. A idéia é extinguir o estigma criado a partir dos conceitos equivocadamente atribuídos aos vocábulos anteriormente utilizados. Embora Jô Soares se auto-denomine de “O Gordo” e muitos gordos, magros, carecas seja amigavelmente tratados por parentes e amigos por apelidos baseados neste atributos, isto não significa que eles tenham que aceitar serem assim chamados na rua por um desconhecido.


3. Pergunta: Por que ações afirmativas para negros e não para pobres?
Resposta: Defender afirmativas para negros não implica em ser contrário a ações afirmativas para outros grupos. Ocorre que, de maneira geral, as pessoas se unem em tornos de causas e em grupos em razão das suas especificidades. Assim temos um sindicato só de metalúrgicos, um só de bancários, dentre outros, temos uma Associação de Defesa da Criança com Câncer, temos um Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS, temos uma Delegacia da Mulher e temos duas leis que garantem cotas para portadores de deficiência física nas empresas públicas e privadas. No Rio de Janeiro, em horários de pico, o metrô reserva vagões exclusivos para mulheres para coibir o assédio sexual físico. Em todos estes casos, a motivação é a mesma, tratam-se de medidas que visam atender a necessidades específicas de grupos específicos que, se fossem incluídas em grupos gerais, dificilmente teriam conquistas porque perderiam foco. No Brasil somente os negros foram escravizados e bastava ter a pele negra para ser discriminado. Isso faz com que os negros neste país compartilhem de um conjunto de especificidades que lhes é peculiar. Certamente que existem negros, com melhor condição econômica e que não necessitam das vagas das cotas, mas são poucos e as cotas não os contempla. Existem também pobres de outras raças, mas não porque foram escravizados. Do mesmo modo que existem trabalhadores que não são metalúrgicos nem bancários, portadores de câncer que não são crianças, doentes terminais que não portam AIDS, vítimas de violência que não são mulheres, desempregados que não são deficientes, mas isto não desqualifica nem invalida a existência, a luta e os propósitos dos grupos identitários que reivindicam seus direitos.

4. Pergunta: Como pode haver racismo no Brasil se não há brancos puros?
Resposta: Na página principal do site Diálogos Contra o Racismo está informado que “Pesquisa de opinião realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2003 mostrou que 87% dos brasileiros acreditam que há racismo no Brasil. Curiosamente, somente 4% dos entrevistados reconhecem que são racistas. Este é um dos pontos-chave da Campanha “existe racismo sem racistas?” conduzida pelos mantenedores do site. Ainda que raça não exista como querem alguns, o preconceito existe, os pouco mais de 100 anos pós-abolição ainda não foram suficientes para erradicar o preconceito e a noção de que preto é coisa e branco é gente fortemente
disseminado durante os mais 300 anos de escravidão.


5. Pergunta: Como falar em racismo se a raça é a humana?
Resposta: Certamente que negros, brancos, amarelos, índios e todas as mestiçagens decorrentes formam uma só raça, a Raça Humana. O conceito de raça e até mesmo de sub-raça foi criado pela elite dominante, à época da escravidão para disseminar a idéia de que os negros não seriam parte da raça e seriam uma sub-raça, o que justificaria a dominação e escravidão. Temos que ter claro, entretanto, que essa foi uma das consequências e não causas do racismo, portanto limitar o debate à discussão do uso do termo racismo, por si só, não resolve as questões sociais envolvidas e apenas consegue desviar o foco central do problema.


6. Pergunta: Por que negros reclamam de aparecerem como serviçais nas novelas e ao mesmo tempo se queixam da falta de oportunidades? A novela não estaria sendo fiel à realidade?
Resposta: De fato as estatísticas demonstram que os negros são maioria nos cárceres, nas favelas, nos empregos de baixa qualificação e baixa renda. De igual forma muitas mulheres ainda sofrem violência, muitos padres são pedófilos, muitos políticos são corruptos, mas não é por meio da mera exposição e da repetição de paradigmas que se muda uma realidade injusta e indesejada.


7. Pergunta: Se existe racismo e não apartheid social por que negros como Pelé são aclamados pelo público em geral?
Resposta: Pergunto-me por que razão Diego Maradona, atleta com indicadores de desempenho inferiores aos de Pelé e sistematicamente envolvido com drogas, dando um péssimo exemplo, é incondicionalmente aclamado pelos argentinos, enquanto o “Atleta do Século” Pelé, é costumeiramente criticado por conta de declarações inadequadas. Mas como este argumento é subjetivo eu prefiro lembrar que demonstrações de racismo explícito como os que envolveu o jogador Grafite, acontecem cotidianamente com pessoas da raça negra, independente de classe social. Isto demonstra, como já afirmamos, que o conceito de que negro é coisa e não gente que sustenta o racismo ainda não foi eliminado de todo.


8. Pergunta: Ainda que exista racismo, alguns negros superaram os obstáculos e se tornaram bem sucedidos, mesmo sem usufruir do benefício das ações afirmativas. Por que os demais negros não seguem estes exemplos?
Resposta: Realmente, algumas pessoas em condições desfavoráveis conseguem superar obstáculos, sejam elas negros, portadores de deficiência, enfermos, dentre outros. Isto não tira a nossa obrigação de reparar injustiças, de lutar pela redução das desigualdades. À sociedade cabe, por exemplo, prover condições de acessibilidade aos portadores de deficiência, ainda que eles sejam uma minoria, à sociedade cabe cuidar para que os índios não sejam dizimados por negligência. Quando educamos nossos filhos buscamos dar a melhor educação que pudermos, em todos os aspectos, não simplesmente deixamos que “se virem sozinhos” e superem os obstáculos. Claro que os incentivamos a enfrentar alguns desafios por eles próprios, mas estamos sempre provendo a base necessária, na medida das nossas possibilidades. Não caberia, portanto, aplicar na questão racial o raciocínio de deixar e esperar que os negros se virem para dar a volta por cima se o Estado tem culpa e responsabilidade.

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Comentário de Magali Dias em 4 outubro 2010 às 18:22
Parabéns AntonioCarlos pela matéria. A divulgação da mesma teria que acionar toda a internet e até link para seu texto. Obrigada por nós.
Comentário de Como acontece esse correio nagô? em 14 setembro 2010 às 2:07
Muito bem, Antonio Carlos,

Convivemos com essas pessoas cuja mentalidade de que a democracia racial taí e nós negros(as) é que não queremos admitir foram colocados em cheque, dizem que somos problemáticos(as). Incrivel em nosso país, nós vítimas deste processo de exclusão, discriminação racial e inferiorização... é que somos vistos como os racista. De vitima para algozes. Que tal?
Bastante conduntente suas respostas .Deixou-os na saia justa. Agora é querer resolver o impasse ,criado por eles..

Estamos juntos nessa luta.
Marli Josefina
Comentário de Valdina Oliveira Pinto em 9 setembro 2010 às 15:57
Muito interessante o comentário de Luiz Carlos M. Moura. "O caldo está engrossando". E mais uma vez fico feliz por existir o Correio Nagô, um espaço onde podemos abertamente colocar, refletir sobre e debater nossas questões. Aposto e comungo com o trabalho de vocês. Bênçãos e abraços a todos.
Valdina.
Comentário de Luiz Carlos M. Moura em 9 setembro 2010 às 15:23
Excelente texto, mas eu gostaria de abrir um parêntese para colaborar com algo que eu não li.
Os conceitos são socialmente construídos e historicamente consolidados, mas, a medida em que os tempos vão passando esses conceitos devem ser revistos antes de aplicados. Isso é claro quando há honestidade no sujeito que produziu o texto. O termo/conceito raça pode ser analisado dentro de dois contextos: o sóciológico e o biológico.
Perceberam a palavra LÓGICO??? Pois é, eis a diferença! Para nos referimos a termos humanos enquanto seres BIOLÓGICOS, há que se analisar dentro da LÓGICA desta ciência, ou seja, nesses termos realmente não existe RAÇA NEGRA, mas se analisarmos no conceito SOCIOLÓGICO, a questão se resolve, porque SOCIOLOGICAMENTE/HISTORICAMENTE os homens buscam formas de se diferenciarem dentro de grupos, criando assim teorias que embasem as suas formas de diferenciar um ser humano do outro, assim nascem os conceitos de “raça” Ariana, Afro, Judia, Gaulesa, Anglo-saxônica, etc...
Os racistas brasileiros utilizaram conceitos BIOLÓGICOS para debater conceitos SOCIOLÓGICOS com o intuito de desviar do “X” da questão. O tempo que se perde debatendo um erro [proposital] analisando um conceito “X” utilizando uma ciência “Y” nos faz perder tempo. Um tempo precioso por sinal.
Um conselho para os amigos que debatem esta questão é; negar veementemente um debate nesses termos, não deixar que “eles” desviem do assunto. Sempre que forem debater questões hitóricas/sociológicas, antes de mais nada estabeleçam este critério como fundamental, alertem ao interlocutor que o debate não é biológico [isso é assunto pra geneticistas].

Um abraço a todos!
Comentário de Herlany Meyre Boa Morte em 7 setembro 2010 às 17:32
muito boa essa matéria.É muito importante termos essas informações para não cairmos nas armadilhas preparadas pra nós.Valeu!
Comentário de CECI SILVA em 7 setembro 2010 às 17:10
É necessário trazermos ao debate estes questionamentos, o esclarecimento é o caminho mais eficaz para esclarecer as reais causas do racismo no Brasil e acabar com este slogan que neste país não existe racismo.Historicamente os negros neste país foram sequestrados e escravizados, atualmente esta escravidão assumiu outras facetas como fica claro no texto, a lei 10.639 e 11.645 devem ser trabalhadas nas escolas de forma regular, séria e principalmente por pessoas capacitadas para tal porque as mudanças em uma sociedade ocorrem e ocorrerão de fato através da educação. Parabéns para o Antônio Carlos por esta produção.
Comentário de Fabio José da Silva em 6 setembro 2010 às 19:50
Devo dizer que esses questionamentos foram muito bém colocados, e com uma de nossas irmãs ja deixou registrado, será de grande valia para o nosso trabalho de base junto aos nosso jovens e pessoas, muitas vezes nos fazem esses mesmos questionamentos.
Parbéns...
Comentário de Juli J Silva em 6 setembro 2010 às 19:46
Antônio Carlos, você está de parabéns pela matéria e, o Correio Nagô, por ser este espaço para grandes esclarecimentos como estes trazidos nesta matéria.
Um forte abraço.
Comentário de Oscar José Santiago Lima em 6 setembro 2010 às 16:57
Parabéns! Excelente matéria. Clara, objetiva e irrefutável na argumentação, esclarecendo falácias correntes sobre a questão racial no Brasil.
Esperamos que não tarde muito, o tempo em que se torne desnecessária qualquer controvérsia a respeito, por todos os brasileiros desfrutarem efetivamente de oportunidades iguais e a ignorância do preconceito não nos separe, uma vez que praticamente todos temos ancestrais africanos que nos introduziram no neolítico, quando os neanderthais europeus estavam ainda na idade da pedra lascada, além da primeira efetivamente grande civilização ter sido africana e negra, que o diga a face da Esfinge de Gizeh.
Comentário de GILMÁRIA DA CRUZ MENEZES em 6 setembro 2010 às 9:24
Muito bem menino, é uma excelente matéria e indicarei para muitos dos meus colegas. Obrigado CORREIO NAGÔ pelas excelentes contribuições.
Um grande abraço.

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