REFLEXÃO DE UM ABIÃ - Da Benção da Mãe Preta ao Asé do Zumbi do Palmares

Da Benção da Mãe Preta ao Asé do Zumbi do Palmares

A mitologia Africana tomando as praças suplantando: signos da resistência, bandeiras ativistas e homenagens alegóricas – e situa-se para lá de nossas compreensões e sendo reflexo dos nossos inconscientes indicando caminhos e transcendendo-nos ao rumo de nosso Asé, presenciei em dois momentos distintos um 30 de setembro de 2009 AGUAS DE SÃO PAULO - LAVAGEM DA MÃE PRETA – e 20 de novembro de 2009 - DIA DA CONSCIENCIA NEGRA – LAVAGEM DE ZUMBI DOS PALMARES, praça da Sé em Salvador, ato que combinou com a Caminhada contra a Intolerância Religiosa também na Bahia.

A lavagem é um ato simbólico que representa a limpeza e a purificação da cidade e de seus habitantes. Estava nesses eventos por na ocasião trabalhar numa revista com a linha editorial ligada ao publico do Candomblé, mas mesmo insistindo, em nenhum dos eventos citados despertaram interesse de cobertura por parte da revista, se quer uma nota, seja pela importância política ou pela questão mítica, mas para mim a presença não foi em vão. Me sinto com uma divida pessoal com os organizadores de São Paulo assim como o CEN (Coletivo de Entidades Negras) e mesmo desligado da editora, insisto em repartir minhas reflexões que procuro me ater ao surgimento a evocação de mitos, ligados ao nossa ancestralidade em meio a um ambiente sócio-político.Parodiando o modernista Oswald de Andrade talvez o biscoito que produzo não seja tão fino assim. Deste modo partilho com vocês leitores e membros do Correio Nagô e demais convidados. Quem sabe as Reflexões desse Abiã despertem interesse em outra editora e torna-se artigo de uma nova revista.

Passe pelo largo do Paissandu, no centro da cidade de São Paulo e vai se deparar com essa santidade ESCULTURA DA MÃE PRETA. Com seus lábios grossos, formas avantajadas, gestos delicados, olhares ternos a essência da beleza da MULHER, a beleza da alma, da mãe, da fertilidade, e o que é mais enfático a valorização da vida e como uma Deusa representa a natureza. Ai vem um leitor desavisado e protesta – “Que santa que nada, ela é uma criação de um artista qualquer”. E como um artista abusado que sou, retruco, a esse representante da mediocridade dualista, para ele, uma Santa, tem de ser personagem que viveu na História e que se dedicou a Igreja ou coisa que o valha e necessita de possíveis milagres ou condições sociais e até política, para ser canonizado pela Santa Madre Igreja.

Esta é uma das diferenças que as religiões de matrizes africanas têm que é a consciência de que nós, humanos, não somos os únicos seres do universo que tem personalidade, presença e mesmo subjetividade. Para nós do Asé a Mãe Preta realmente é um símbolo Mítico não pela História de sua vida e sim pelo Mito que se tornou. Há alguns irmãos de santo que somente a vêem como um símbolo (alegoria) da resistência a intolerância religiosa, mas combateremos quaisquer preconceitos quando a fé e as forças que a regem vir às ruas com suas belezas e seus mistérios, ou como diz Muniz Sodré –Melhor forma de combater o preconceito é o amor -. Mesmo se Mãe Preta representasse apenas o signo de uma resistência sócio-política, em prol das diversidade étnicas, já vejo aí um grande passo.

Voltemos ao “artista qualquer”, não é o primeiro e oxalá não seja ultimo, artista com ou sem religiosidade, onde sua arte conecta diretamente com as almas do Olorum pelos arquétipos do inconsciente ou como disse Shaun Mcniff o artista plástico Norte Americano “Há uma paisagem da mente que precisa ser alimentada pela paisagem real”. Pois bem, como em conversa com OFA Miran, Pai Beto, babalorixa do candomblé paulista e um dos organizadores do evento “Águas de São Paulo” que culmina na lavagem da escultura. “A MÃE PRETA que simboliza a maternidade, sagrada em nossa religião” aí perguntei O que ele imaginava - se chegou a passar pela cabeça do escultor que sua obra encomendada pela prefeitura da cidade de São Paulo viria a se tornar um verdadeiro mito?Com um sorriso revelador, disse não fazia idéia, mas que sua mão com certeza estava Abençoada pela Mãe Osun.

'Mãe Preta “(1955) escultura de Júlio Guerra -Largo Paissandu- São Paulo/SP-Brasil
Ao lado da Igreja N.Srª do Rosário dos Homens Pretos. Escultura 'MÃE PRETA'- é uma homenagem à Mucama que dava seu leite ao filho do 'Senhor', sendo que para isso, muitas vezes, era sacrificado seu próprio filho, para sobrar leite ao seu 'filho branco'. Com quase três séculos de existência, a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos é uma referência para movimentos de consciência negra, ligados a igreja catolica, porque apresenta uma tradição religiosa que remonta aos tempos dos primeiros escravos.

A escultura quando aprovada para ser colocada na praça ao lado da igreja de certa forma era uma conquista de ações organizadas e toda a representatividade social da época, mas ela passou a ser um icone maior que uma expressão da história e o registro artistico da condição da mulher escrava no Brasil. Superou a alegoria o fato definitivo e ela tornou-se um mito, além das representações catolicas que fortalecem a igreja vizinha. O mito é a transcendencia a imagem da mucama amamentando, é uma sabedoria que vive em nós e representa a força desse poder, dessa energia, que flui no campo de tempo e espaço, fundamentando-se nos arquetipos de nossa ancestralidade.

A chamo de santidade uma por ser uma referencia a manifestação religiosa formada por indios e negros no seculo XVI em resistencia ao cristianismo e a inquisição no Brasil e outra como referencia a divindade que vem se formando, e o fluxo de energia e inspiração que fazemos circular.

Ha rumores dando tom de fenomento que começa a se delinear na capital paulista. A escultura em homenagem à Mãe Preta está começando a ser venerada com fervores religiosos. São freqüentes as velas acesas ao seu redor; bilhetes manuscritos pedindo graças e terços atirados no seu dorso. No dia da Consciência Negra foi coberta de rosas. Os padres da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que domina o largo, não estão gostando; acham que as homenagens devem ser dirigidas à santa no altar. Dois detalhes: a escultura de bronze, instalada em 1955, a igreja foi fundada em 1711 e sua irmandade continua ativa; é uma das mais antigas do País.

O protesto por parte da igreja é até pertinente, que essas pessoas louvem os santos da igreja ali do altar do templo, afinal a escultura tem uma representação alegórica, mas o que parece sem sentido, faz-se mais significado do que se imagina. Surge ai um processo em que as relações do ego com os conteúdos do inconsciente, desencadeiam o desenvolvimento e uma verdadeira metamorfose da psique, o que de forma coletiva se encontra, nos diferentes sistemas religiosos e na transformação de seus símbolos. O que temos que atentar as pessoas à medida que vem crescendo sua devoção a escultura em busca de uma conexão com seu poder através do mito, torna-se uma relação organicamente relevante para vida dessas pessoas, como reflexos de suas almas, porta vozes de sua ancestralidade. A execução desses rituais centra o individuo, e a simples representação do mito, fazendo-os viver diretamente o mito.

Aquestão que a Mãe Preta foi além das palavras, da imagem, e ja aponta para alem de si mesma, o que podemos chamar de transcendencia. Devemos encontrar dentro dessa questão a sabedoria, não nos apegar a questão alegorica, como fazem alguns urbanistas, que torcem a boca quando se referem as oferendas deixadas aos pés da imagem, e sim encontrar os ensinamentos que enriquece nossa sabedoria pessoal, o sinal que nossa ancestralidade nos aponta com esses mitos urbanos é converte-los seus arquetipos num caminho próprio.

Ja a escultura do Zumbi dos Palmares de autoria da Artista Plástica Márcia Magno instalada na Praça da Sé na capital baiana já simboliza a história de luta e liberdade do povo negro.Como um ícone da resistência trás em si uma mítica inserida em seu signo e suas idéias que esta representada são reverenciadas como caminho que evoca nosso self espiritual a segui-lo a sermos levado a sua morada, que é nosso próprio coração, que é o mais profundo de nossa própria fonte espiritual. Quando ocorre a lavagem da escultura do Zumbi um ato ritual, extrapola a história e a sociologia, se vemos sua escultura e o ato da lavagem com duas metáforas assim sendo a ritualística (lavagem) têm conotações dos poderes espirituais que estão dentro do individuo. Não se louva a alma de Zumbi, e sim fortalece o arquétipo que o mito representa dentro de nós, por isso considerado o signo de toda uma raça, que tem ligação com a harmonização da consciência em si, em relação à base do ser na natureza, no corpo, que é em si uma manifestação do mistério. O ritual faz com que deixemos a interpretação histórica do símbolo numa posição secundaria dando relevância das formas simbólicas para nossa própria vida.

O Mito nos ajuda a reconhecer a profundidade do nosso ser, em suma a função principal dos ritos é orientar o individuo, levando a consciência onírica mais profunda e criativa, somado à consciência desperta que é critica, esse é o equilíbrio que buscamos o ASÉ!

Sérgio Cumino

*foto Mãe Renata D"Iansã

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Comentário de denice fatima batista em 1 março 2010 às 1:25
En primeiro lugar quero parabenizalo por mais esse artigo,mais uma vez vem mostra o discaso da sociedade brasileira com nossos mitos crenças e culturas,nao so essas revista nao se interessam pelos acontecimento en que vc cita, mas tbm nossos governantes ,e uma pena que nossa crianças do futuro nao venha a conhecer ou mesmo a fazer parte dessa cultura.,por falta de uma inclusao nas escolas como base mitos e crensa popular,mas colocamos nossas esperanças en escritores como vc....parabens.
Comentário de Sérgio Cumino em 28 fevereiro 2010 às 22:48
Obrigado Edson Cadette pelo seu comentário, fico contente que consigamos efervescer esse debate e como disse temos que formar essa corrente de escritores sobre o tema. Quando a revista que se desinteressou, eles detém o poder de publicar ou não, vê-se ai uma questão de mercado, o capitalismo acima de questões relevantes em nossa vida, o que interessa nesse nicho é aceitação e eles não querem correr riscos. Se for alem da critica a esses detentores do conhecimento, vale pensar que de fato o tema ainda não seja de interesse, você mesmo com propriedade fala das carências históricas nos bancos escolares, proponho que busquemos esse público, cabe a nós que postamos escrevermos, lemos, pedirmos que leiam se lerem deixe seus comentários, que indiquem a amigos, fizer desse espaço algo interessante, como disse diversificarmos os textos, darmos beleza, profundidade, filosofia, mitologia... fazer com que as pessoas sintam que nossos textos que as lêem, não elas ao texto, assim criaremos um publico fiel interessado dessa coisa muito rejeitada mas fundamental que é o conhecimento. Há uma enquete na pagina inicial do Correio Nagô, na realidade um pedido de sugestão de como trazer mais membros para nossa rede social, acho que termos em nós esses valores e criarem uma campanha de difusão e convocar a todos serem multiplicadores. Quem sabe esse seu comentário não seja o inicio de uma coisa maior, desejo dessa corrente de reflexões ampliarmos horizontes até mesmo de colocar no mercado uma revista Correio Nagô. Tai uma idéia ao pessoal do Instituto Mídia Étnica, vir aqui os colaboradores mais relevantes que tem textos próprios e aceitação do membro e convidá-los a uma edição de circulação nacional, e como parceiros os movimentos interessados pelas questões sociológicas, religiosas, culturais do afro descendentes. Juntos, descobrirmos esse publico que até mesmo edições do seguimento ignoram. Falo com esse entusiasmo porque estou surpreso como os artigos tiveram resultado, pensa-se que leram quem comentou impressão errada, recebo comentários em papos no MSN, por e-mail etc.
Espero que as pessoas dêem suas impressões, coloquem suas sugestões na pagina Principal dessa rede, vamos aquecer esse debate.
Comentário de Edson Cadette em 28 fevereiro 2010 às 15:17
Sergio,
Mais um belo e esclarecedor artigo sobre a historia afrobrasileira. Vc reclama que atos como o que voce presenciouu ainda nao sao explorados pela midia em geral. Bem, o fato e que nao ha diversificacao nas redacoes por todo o pais. E falando sinceramente, quem esta no comando das redacoes nao se interessa por este tipo de cobertura afrocentrica. Vc sabe muito bem que a historia brasileira ainda e nao so mistificada(com o total vies europeu), como a parte que caberia a profunda influencia africana em todas as areas da cultura nacional segue totalmente inexplorada. Com raras excecoes e claro. Sendo o Carnaval uma delas. Veja por exemplo a lei que obriga o ensinamento da historia afrobrasileira nas escolas publicas por todo o pais. Ela nao e enforcada pelo MEC. Ou seja, como iremos despertar nos jovens o desejo de conhecer sobre um periodo historico de grande importancia no pais, se nao plantamos este desejo nas mentes dos jovens em salas de aula? No meu tempo de escola ocorria exatamente um distanciamento de tudo que era relacionado com a Africa. Infelizmente as coisas nao mudaram muito nestes ultimos 30 anos. Em mais de 15 anos de banco escolar no Brasil, entre as decadas de 60, 70 e 80, jamais aprendi algo reamente diferente sobre a influencia nao so culutral mas tambem filosofica da Africa no Brasil. Ainda hoje no pais nao existe uma nova geracao de afrobrasileiros dedicada ao estudo da conexao Brasil e Africa. Dentro das saulas de aula so ha uma conexao importante, o Brasil e a Europa.
Sites como o Correio, Afropress, Jornal Irohin, The Root(ingles), Geledes, etc., que estao fora da midia convencional ajudam a tirar o afrobrasileiro de sua invisibilidade dentro de seu proprio pais. Foram aproximadamente 350 anos de escravidao brasileira, sera que depois de tanto tempo o Zumbi dos Palmares segue sendo nossa unica referencia de luta num universo de mais de 4 milhoes de escravos? Isto so reenforca minha ideia de que ha muita coisa ainda para ser descoberta sobre os negros brasileiros escravos e suas historias.
Parabens por mais mais este artigo.

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